TEXTOS DO AUTOR

 

 

 

TEXTOS

 

de

 

ANTÔNIO LUCENI

 

 

Abril de 2011

DAS RAZÕES DO SER POÉTICO

Nada disse, apenas ficou ali, feito estátua de sal. Mas pecado algum havida cometido. Ao menos não em seu entendimento. Ali estava, ali ficou. A sua presença incomodava alguns e a outros era como se não existisse. Mesmo sem falar, provocava reações diversas. Uns choravam, outros gritavam, alguns sorriam. Passavam acenando a cabeça como sinal de reprovação. Era curioso ver todo aquele movimento.
Feito estátua de sal, vez ou outra, recebia uma ave curiosa e passageira a encontrar-lhe repouso e suporte para as coçadas e manutenção diária das penas. Não se importava. De certo modo até achava graça naquilo. (Era de fato um uso usurpador, mas não de todo deliberado).
Lá pelas tantas da tarde, quando já o sol não mais a cobria com feixes de calor, esperava certo cortejo e beijos frescos do vento. Era um encontro desprovido de paixão, de laços mais íntimos que esboçassem qualquer comprometimento. Mas o compromisso diário parece que os ligava por um ritual que deveria ser cumprido dia a dia. Mesmo sem compromisso, lá e cá alimentavam certa ponta de ciúmes. (Por onde será que ele andava no tempo em que não estavam juntos?). Melhor não insistir nessa ideia. Vai que ele resolvesse não mais aparecer. E isso já havia acontecido em outros momentos.
Um ou outro metido a escrivinhador a apurrinhava com métricas fajutas, versos enfadonhos e toscos, temas redundantes e outras idiossincrasias burlescas de dá dó. O que mais de relevante (se é que se pode assim nomear) era o interesse do flerte, a tentativa do diálogo. Se de tudo não se pode ignorar, mas além disso também não sobra nada.
Certo dia, como se não bastasse a missiva flagelante, um bêbado – veja se pode isso –, um bêbado pôs-se a declamar versos e mais versos para a lua. Parecia uma dessas personagens folclóricas do anedotário popular. (E não é que a criatura chegou até me comover?!).
Gosto das coisas simples. Todo mundo acha que ser simples é algo simples. Mas não o é. Tente fazer um bolo simples, um chá simples, uma roupa simples, uma casa simples. Tente falar com palavras simples. Ser uma pessoa de gestos simples, de hábitos simples. Você verá o quão é difícil. (Parece que o mundo está fechado para as coisas simples).
No entanto, das coisas mais ricas e cobiçadas no mundo, muitas delas são bem simples: um sorriso de criança, um pôr do sol, cheiro de terra logo quando começa a chover, estourar jabuticaba na boca tirada diretamente do pé, procurar morangos maduros sob a vastidão verde de folhas, balançar numa rede, apertar bolinhas de plástico bolha, soprar penugens de mato no ar. (Ser simples e gostar das coisas simples não é para qualquer um).
É por isso que ela incomodava tanto. Era por isso que tanto foi esnobada e esquecida por alguns dos seus. Nunca suportaram a ideia de que ela era boa mesmo, de que tinha qualidades e que o que mais incomodava a todos era o simples fato de ela existir. E, como estátua de sal, não reclamava, não reivindicava seus direitos (por mais que fossem seus), não discutia o mérito da questão.
Fazia aquilo tudo porque gostava mesmo. O fato de ter ou não reconhecimento, o fato de ser ou não aclamada, não importava. O seu principal prêmio era a oportunidade de com todos conviver. Aprender com pássaros e homens. Aprender com a noite e com o dia. Aprender com sábios e vagabundos. Tudo lhe causava profundo interesse. Das coisas mais banais às consideradas muitíssimas importantes, eram de igual modo aproveitadas.
Isso tudo para alguém que até parecia uma estátua de sal.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Abril de 2011

A GUARDIÃ DE LIVROS

Como afirmou Cecília Meireles, “palavras, que estranha potência, a vossa”. E não é assim?
A partir de um artigo que escrevi na semana passada alcancei uma alma. (Terá sido eu ou foram as palavras?). Melhor dizendo, as palavras a alcançaram. Sim, porque não é qualquer um que tem o poder de tocar na alma da gente, não. Acabem-se logo as pretensões dos pretensiosos de plantão. Nossa alma é tocada por poucos. Definitivamente: as palavras a tocaram.
Mas já a vinham tocando há tempos... E por meio delas D. Dirce, a professora Dirce, tocou a muitos. Não disse sobre quem estava falando, não é mesmo? A alma tocada, aquela de umas linhas acima, era a de D. Dirce. “Fiquei sensibilizada a partir do que escreveu, por isso resolvi delegar-lhe essa função”. E que função! A de dar continuidade à sua missão com livros, que a acompanham há décadas.
Ela que fazia aniversário no dia da visita e eu que estava ganhando o presente. Coleções inteiras de Jorge Amado, Monteiro Lobato, Machado de Assis... obras com edições esgotadas, encadernações que já não mais são feitas pelas editoras, seja porque são caras (capas de couro, com detalhes em relevo e de edições raras) ou porque não se tem mais o cuidado que tinham com os livros da antiga.
Só para citar uma dessas raridades, “Formação da Literatura Brasileira”, do Antonio Candido, quatro volumes, da Martins Fontes Editôra (com acento circunflexo no “o”, mesmo), de 1959. (Ele já existia 18 anos antes de eu nascer e nem sabia que depois de 50 anos iríamos nos encontrar!).
Cada livro que eu olhava, em cada coleção que eu mexia, os olhos de D. Dirce me seguiam. Como um fiel escudeiro, um verdadeiro guardião, ela não pestanejava e cada movimento era seguido e registrado como uma das mais eficientes e modernas câmeras.
“Fique tranquila, D. Dirce, eles ficarão em boas mãos”. Dizia isso na tentativa de tranquilizá-la um pouco. E emendava em seguida: “Sei o que a senhora está sentido, já que alimento o mesmo sentimento pelos meus livros”. Ela parecia conformar-se mais um pouco. (Mas que nada, quem fica ligado nessa coisa de livro nunca mais se desliga. É um vício bom, uma coisa meio louca, mas que faz bem pra gente).
Agora a responsabilidade é passada para mim. Boa parte do “tesouro” que ela vigiou e que, com maestria, distribuiu entre alunos, familiares e amigos, está sob meus cuidados. Tal qual a guardiã Dirce, preciso cuidar deles, fazer com que suas páginas não sejam esquecidas no tempo ou que se tornem comida para traças e cupins. É preciso abri-las, distribuí-las para aqueles que têm “fome”, que precisam de uma, duas, muitas palavras amigas. É preciso que esses livros corram de mão em mão, mexendo com a visão, coração e alma das pessoas (já disse que poucas coisas tocam a alma das pessoas? Sim, uma delas é a literatura).
Então que seja assim, D. Dirce. Prossigo com a missão da senhora no espalhar das letras pelos corações dos homens. Quem sabe não brotem delas grandes médicos, advogados, arquitetos, professores... pessoas mais humanas e felizes pelo simples fato de terem tido acesso aos livros?

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Março de 2011

EU SOU FELIZ

COM AS MULHERES QUE TENHO

Gostava, quando criança, de assistir àqueles filmes e desenhos que abordavam cenas mágicas em que o passado, presente e futuro eram (re)visitados através de portais mágicos, feito “A caverna do dragão”, “De volta para o futuro” e, hoje, como os filmes do menino-mago, Harry Potter.
Sei lá, talvez fosse a mesma sensação que levou Manuel Bandeira a escrever o “Vou-me embora para Pasárgada” ou Gonçalves Dias com sua “Canção do Exílio”. Um sentimento de escapismo, de um lugar mais suportável para vivermos nossas angústias e prazeres, sem muitas regras ou formalidades... “Um índio”, como cantou Caetano.
Mas essas coisas não existem, não é mesmo?
Não é mesmo.
Esses portais são as mulheres; o único portal vivo e real capaz de transportar um ser de um outro plano, lugar, sei lá que nome é... (todos são provisórios até que se encontre um melhor) para esse nosso mundo. (É bem verdade que não é maravilhoso de todo, mas na dúvida, que bom estarmos aqui... Vá lá saber como estávamos lá do outro lado! Será que não estávamos à mercê de “O Vingador”? Será que não estávamos a menos de um palmo de nos esborracharmos no chão? Será que não íamos acabar sendo devorados por um peixe ou monstro de sete cabeças?! Sei lá, tudo isso é um mistério, mas que bom que este portal nos trouxe aqui.
A minha estreia neste mundo (não é só baiano que estreia, não!) aconteceu no dia 03 de março, há exatos 34 anos, num circuito que até hoje é objeto de minha investigação: Mulungú, pelos braços de Dona Mocinha; Pitombeira, lugar para onde fui levado; Mombaça, município no qual fui registrado. Mas o certo: cearense.
O portal da minha vida foi a D. Maria Pinheiro dos Santos. Uma nordestina porreta, filha de pais igualmente batalhadores, todos eles já descritos neste blog por mais de uma ocasião.
Falar em mulher em minha vida (e penso que nas dos demais também) é falar da própria vida. Afinal, elas ainda são o grande instrumento de Deus para que a espécie continue, para que a vida não se acabe, para que outros tantos seres maravilhosos (mesmo que os ruins também apareçam) passem a existir, a coexistir conosco.
Quando essas datas todas vêm celebrar, por vezes, futilidades (a mulher-fruta, a mulher-esnobe, a mulher-artificial, cheia de botox, de silicones, de plásticas que mais as deixam parecidas com plástico), apego-me às referências que tenho sobre cada uma delas (as datas), nesse caso, as mulheres que fazem parte de minha vida e que, também, ma concederam: Maria Pinheiro dos Santos, minha mãe; Joana Rodrigues de Lima e Júlia Alves dos Santos, minhas avós; Francisca Lindalva dos Santos, minha irmã; Júlia e Letícia, minhas sobrinhas.
Celebrar o feminino não é nenhum pouco difícil pra mim. Celebrar o belo, o sensível, o sublime já faz parte da minha vida faz um tempão, nem sei precisar quanto. Conviver com gente que me anima, que me faz dar uma risada do tamanho do mundo, que me enche os olhos de emoção por um simples gesto, por qualquer conquista que seja, pelo o simples fato de existir em minha vida, plenas, soberanas, únicas mulheres... é bom demais.
É um privilégio para nós, homens, termos tanta capacidade, tanta sensibilidade à nossa volta. Eu sou feliz com as mulheres que tenho.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Março de 2011

NO PAÍS DO CARNAVAL

Sobravam reis na festa. Cada qual com sua coroa mais elaborada, mais enfeitada, mais cheia de disque-dique, uma com mais brilho que a outra em lantejoulas, paetês e gliter. Cada qual com o seu manto mais enorme, com metros e mais metros de tecido de veludo, com babados e flu-flus, com pares e mais pares de vassalos a segurá-lo na extensão da festa (um ficava esbarrando no outro e gabando cada qual sua real realeza). Cada qual com seu cetro real, peça fálica do repertório que lhes garantia macheza, impavidez, tanto grossos quanto compridos, de tal modo que se entrecruzavam no vão alto do pé-direito do salão.
Sobravam rainhas na festa. Cada qual com suas tangas, minúsculas tangas que mais pareciam cordões de pendurar lambaris e caranguejos. Em cada cordão dez, mas se der uma choradinha, só paga nove. E os trancos dos quadris eram tão surpreendentes que quase iam de um lado ao outro do salão esbarrando em outros tantos foliões e chegavam a incomodar alguns. (Mas tudo era folia, tudo era alegria no país do carnaval...).
E onde estavam os súditos? Para onde foi Todo-mundo? Os súditos estavam ocupados (os poucos que restaram) a segurar os mantos reais. Todo-mundo estava de olho nas buzanfas das rainhas, nos minúsculos fios que se pretendiam cobrir-lhes o sexo. “Busquem água para real realeza!!!”, “Troquem o manto da real realeza!!”, “Limpem o suor da real realeza!”... E a garganta continuava seca, matavam a sede na saliva. O manto cada vez mais ensopado e no rosto as gotas de sal líquido embaçavam as vistas...
Os fios foram arrebentados, para a alegria da moçada. E aí que o samba no pé aumentou. Mantos devidamente ignorados, agora já eram estorvo. Os cetros já estavam pesando o dobro do que pesavam no início do baile e ninguém mais sabia o que fazer com eles. Uns sugeriam: “Enfiem naquele lugar!!!”, outros diziam: “Batam com eles em vossas cabeças!!”, “Ficaria bem se saíssem voando para bem longe daqui, como nos contos de fadas!”... A real realeza tinha sucumbido na festa e todos davam lugar aos parvos e arlequins...
Desfeitas as realezas. Rompidas as formais aparências, cada qual se portava como aquilo que era de fato. Alguns começaram a encher a cara, soltaram a franga (então solicitaram imediatamente uma farda de penosa para continuarem na festa). Outros começaram a rastejar e a comer restos e sobras de comidas, bebidas, confetes e serpentinas caídas pelo salão (foi inevitável a vestimenta de porco para contentar-lhes no baile). Para uns o bacanal foi a única solução: aliviar a tensão que tanto seguraram de uma vida “correta” e cheia de dedos, das formalidades reais, dos compromissos protocolares e cheios de firula. (Tudo era festa no país do carnaval!).
Tinha rei demais, o que conferia ao gesto festivo certa notoriedade e os flashes eram infindáveis. As rainhas também em número grande, mas como vestidos lhes faltavam (e as nádegas lhes sobravam) só dava cirurgião deixando cartão, de mão em mão, e representantes vários de reality shows e programas sensacionalistas querendo uma boquinha para o dia seguinte, depois da festa, quando o reino voltaria ao “normal”.
Aí os súditos apareceriam, com vassoura e rodo na mão, no país do Carnaval.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Fevereiro de 2011

O BRASIL É UMA PIADA

Quando soube da notícia, achei melhor não comentar. Afinal, muitos seriam motivados a fazê-lo. Então, seria como chover no molhado, estimular redundância, mais do mesmo... Mas não me contive. Cá estou a comentar. Lógico. Quantas vezes já não me pronunciei aqui por estas linhas (e em toda minha vida profissional, já que fiz opção pela carreira) da maneira como educação é tratada em nosso País.
O deputado federal Francisco Everardo Oliveira, eleito por São Paulo – o estado mais rico e um dos mais desenvolvidos do Brasil, será um dos membros da Comissão de Educação e Cultura da Câmara. E qual o problema? Bom, digamos que o referido deputado é ninguém menos que o Tiririca. Isso, o “abestalhado”.
Até que gosto do Tiririca, na tevê. Ele é daqueles tipos de personagens que não são muito inteligentes nas piadas, não tem a agilidade e a perspicácia de um showman, não seduz seu ouvinte por muito tempo, mas é engraçado nos poucos e suficientes minutos que lhe cabem. A própria imagem – de um “abestalhado” – já é suficiente para arrancar-nos um pouco de risos.
Mas é só isso. Nada além disso.
Claro que foi eleito sob votos de protesto. Ele mesmo não esperava tal votação. Aliás, chegou a declarar em uma entrevista que nem tinha esperança de ser eleito. Mas olha aí o que dá voto impensado: colhemos de volta em forma de aberrações.
Membro da Comissão de Educação e Cultura. Pois é: retrato exato de como estas duas áreas são tratadas em nosso País. Gente despreparada, eleita em forma de brincadeira (sim, porque são dois extremos: de um lado gente que não vale a pena porque rouba dinheiro público, ignora as razões da coletividade a qual representa... de outro, gente alienada com as questões políticas, pois se quer sabe o que dizer, o que pensar, como agir...).
Sou de origem pobre também. Como Tiririca, também sou nordestino. Mas, diferente dele, procurei estudar, vencer as adversidades da vida por meio do intelecto (desde cedo percebi que com braços simplesmente não conseguiria nada). Cada coisa em seu lugar. Se ele buscou vencer na vida por meio de sua arte, o humor, já estava muito bem, ao lado de importantes outros nomes do humor nacional, em emissoras grandes da tevê pública brasileira. O que tinha de se meter com política?
Pois é, em nível nacional um de nossos representantes na Educação e na Cultura é um cidadão que, depois de tanta polêmica para assumir o cargo sob suspeita de ser analfabeto, demonstrou um nível de leitura e escrita irrisória, no limite do analfabetismo funcional.
Depois falam em Educação (vamos deixar de comentar Cultura) como prioridade em nosso Brasil. Não é preciso o Tiririca pra nos fazer rir, não é mesmo?

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

Fevereiro de 2011

UM SONHO NO SÓTÃO

Há dez anos concluía minha primeira graduação. Curso de Letras. Uma aventura àquela altura para um nordestino, como tantos outros nordestinos, retirado aos dois anos de idade sobre um pau-de-arara para, junto com a família, tentar a sorte na cidade grande – e põe grande nisso –, São Paulo.
Com muito esforço e dedicação consegui fazer o curso. Madrugadas a fio estudando – já que durante o dia tinha que trabalhar para ajudar em casa e saldar parte do valor da mensalidade que era complementada pintando painéis para festas infantis, feiras de livros e tudo o mais que aparecesse pela frente.
Com a ajuda de Deus e da minha família – principalmente de minha mãe, Maria, em janeiro de 2000 estava colocando grau em um curso superior o primeiro membro de nossa família inteira, tanto da parte de minha mãe quanto da de meu pai.
De lá pra cá nunca mais parei. A pós-graduação e o mestrado foram subsequentes, incluindo, mais recentemente, uma graduação em Artes Visuais.
No final do ano passado uma ideia louca ocorreu-me: prestar novo vestibular para um curso que surgira na cidade e que há muito tempo estava no sótão do meu coração: Arquitetura.
No sótão, mas nem por isso largado, encoberto ou empoeirado. Estava lá porque é um curso razoavelmente caro, universidades públicas distantes de Araçatuba e, como disse, um severino como eu tinha que se colocar em seu devido lugar. Onde já se viu, um nordestino metido a besta, com desejos e sonhos de conquistar o mundo querendo fazer um curso de Arquitetura? Coisa de bacana, de burguesinho, filhinho de papai...
Aí me coloquei em meu lugar. No lugar onde todo ser humano deve estar. Um lugar de sonho e de esperança. Um lugar de fé e de certeza que “em se plantando, tudo dá.”
Durante estes anos todos visitava o sótão constantemente. Limpava meu sonho, conversava com ele, alimentava-o ao andar pelas ruas da minha cidade e de outras tantas nas quais tive oportunidade de pisar, nas revistas especializadas, em minha própria casa, ao construí-la.
“Será que vou conseguir? Já faz tanto tempo que estou longe da matemática, da química, da física... Faz tanto tempo que não leio nada muito mais aprofundado de geografia e história... Acho que vou me expor. Nem precisaria enfrentar outro vestibular, é minha terceira graduação... Tô nem aí, nunca fugi de desafios, mesmo.”
Veio o dia da divulgação dos resultados do vestibular. Tentei buscar minha classificação pela internet, assim poderia encarar com mais tranquilidade qualquer que fosse o resultado. Bobeira, tudo congestionado. Tive que ir presencialmente.
A listagem em ordem alfabética. “Moça, o que significa esse ‘1’ na frente do meu nome?”. A resposta foi antecedida por um sorriso gentil. “É que você passou em primeiro lugar.”
Eu nem podia acreditar no que estava ouvindo. Segundo o próprio Bruno Toledo, que passou de sala em sala cumprimentando a todos os vestibulandos no dia da prova, o maior vestibular da história da Toledo. Depois fiquei sabendo também que o curso de Arquitetura e Urbanismo foi tão concorrido quanto o de Direito, já tradicional na instituição.
Nesta semana as aulas foram iniciadas. Começa aqui uma nova jornada em minha vida que se estenderá pelos próximos cinco anos. Há que se tomar um novo fôlego, há que se entusiasmar com tantas provas, trabalhos, noites a fio novamente...
Mas o que quer dizer isso frente a realização de um sonho?

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

Fevereiro de 2011

PARA O BEM DE TODOS NÓS

Existe um filme, prezado leitor, chamado Perfume: a história de um assassino, do diretor Tom Tikwer, de 2006, a partir do qual tomo uma cena. O filme é iniciado com uma daquelas imagens medievais, com cenário cinza, meio lúgubre, numa feira de peixes (observe que tipo de “odor” costurará o filme).
Em meio à venda de peixes, uma mulher entra em trabalho de parto e, como de costume naquele contexto, agacha-se e pari a cria ali mesmo, na sarjeta insalubre, junto com tantos outros lixos, pois assim o rebento era considerado. O menino é salvo pelo grito. Um grito de choro que faz despertar a condolência de um transeunte. A mãe vai à forca e o recém nascido, Jean-Baptiste Grenouille, vai para uma espécie de orfanato, mas de escravos mirins. Daí pra frente, quem se interessar, veja o filme.
Quis retomar e descrever esta cena porque, guardadas as proporções, ainda há rebentos sendo tratados como lixo diariamente no mundo. Ainda me chocam cenas – como a denunciada nesta semana em Araçatuba, em que uma garotinha de apenas quatro anos foi morta à paulada – em que crianças ficam à mercê da própria sorte.
Ainda me entristece, por mais bem intencionados que sejam, a criação de estatutos de defesa disso ou daquilo. Ora, pra que os estatutos são feitos? Pra que as leis de defesa de minorias são criadas? Por que em pleno século 21, em um País que tem a pretensão de ser a quinta potência mundial, necessitamos de leis que protejam nossas crianças, idosos, negros, homossexuais, mulheres...?
O que adianta ser um País de “primeiro escalão” financeiro, se estamos ainda afundados nas mais grotescas e primitivas relações humanas? Há que se pensar num ranking mais coerente que leve em conta tanto o progresso econômico quanto humano. Aliás, o primeiro, a meu ver, deve estar subordinado ao segundo, que é mais importante.
E estas questões todas passam pelo crivo político. Só se é capaz de humanizar gente com educação e cultura, não há outra forma, com justiça social, portanto. E isso tem que sair do discurso apologético e ir para uma prática urgente e eficiente.
Tantos falam da importância da Educação. Tantos acham cultura um negócio lindo. Todos querem ver o País crescer. Mas o que, na prática, temos feito para isso? Quais são as reais ações que nos fazem acreditar que isso será possível?
Enquanto isso o mundo gira, o pulso, ainda pulsa e, infelizmente, passamos a ver com tanta frequência a violência em nossas vidas (pela televisão, rádio, jornais, revistas e internet) que fica a sensação de que ela é necessária, de que em sociedade “é assim mesmo”, que é normal.
Não, não é normal. Não, não devemos nos conformar. Sim, é preciso mudar. Para o bem de nossas crianças, para o bem de nossos velhos, para que a diferença seja aplaudida ao invés do monótono e uníssono som das coisas. É preciso que entremos numa sintonia diferente da que estamos vivendo, para o bem de todos nós.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Janeiro de 2011

457

Devia ter uns 6 ou 7 anos quando fui para lá. 6 anos, isso, eram 6 porque meu irmão mais novo, o Lucivan, era bebê ainda. Fomos morar, como muitos nordestinos, na periferia da cidade, nos fundos da casa de um tio meu, num casebre minúsculo de dois cômodos e um banheiro. Imaginem só: uma família de sete pessoas, com cinco crianças, morando num aperto de 3 metros por 8. Era uma prisão horrorosa.
Éramos livres aos finais de semana, como prisioneiros em condicional. Íamos para casa de outros parentes que, assim como nós, tinham seus gestos emoldurados e contidos também por margens geográficoarquitetônicas. Liberdade, então, era apenas no percurso, feito em sua maioria a pé, já que o dinheiro do ônibus era para ser economizado.
Quando começamos a estudar, nosso quintal era o pátio da escola. Corríamos feito loucos para lá e para cá. E sempre tinha uma inspetora ou até mesmo uma servente ou zelador para tolher nossos voos: “Parem de correr seus pestinhas”.
Mas a verdade é que não consigo me desligar dela. Por mais preso que fôssemos, por mais precariedade que sofremos (e não foram poucas), não sei, alguma coisa de mágico sempre me atraiu para ela. Talvez suas próprias dimensões emanassem essa sensação de liberdade, ou ao menos a possibilidade para tal.
Lembro-me de uma situação, que hoje me causa riso ao revivê-la, em que num dos poucos e raros dias de passeio mais distante de casa, meu pai nos levou a brincar num parque. Na minha memória de infância havíamos subido em uma escada enorme, com infinitos degraus, povoando meus sonhos três por quatro. Hoje, quando volto para lá, rio sozinho: não passa de 3 metros! (A verdade é que sempre fui baixo demais!).
Nas minhas idas e vindas ao longo destes anos, cada vez que estou por lá é uma alegria renovada: gente nova, lugares novos, sempre em obras, como se vivesse numa espiral infindável (acho que isso é pleonasmo!) de se renovar sempre. A ideia de estar numa fila qualquer e ouvir gente falando em francês, inglês, alemão e tantas outras línguas que nem sei distinguir nacionalidade, é divina. Um mundo inteiro em um só lugar: nas comidas, no jeito de se vestir e postar, na arquitetura, no mendigo e crianças cheirando cola, nas piadas de feirantes e ambulantes, e nos blindados e grifes caras...
São Paulo é múltipla e, por isso, aceita a diversidade. Há quem fale mal dela, há quem a apedreje, há quem reclame de seus barulhos e vai-e-vem hipnotizante e cambaleante, mas a verdade é uma só: é o coração do Brasil. Este final de ano estava em Minas e, por conta das chuvas e enchentes que ocorrem nos dois estados, quase não encontrávamos nada de carnes e hortaliças nos mercados mineiros. “Por que tá tão ruim assim pra comprar?”, foi a pergunta. “É que os caminhões de São Paulo estão atrasados, moço.”, respondeu o açougueiro.
Não tenho terra a que me apegue. Já me defini muitas vezes como “vira-lata”. De nascimento sou nordestino, fui criado na capital, estudei e trabalho no interior de São Paulo e do Mato Grosso do Sul, portanto não crio raízes. Mas se tivesse que eleger um lugar onde plantaria meu umbigo certamente seria São Paulo.
Nesses 457 anos de existência já devo ter repetido seu nome, pelo menos, umas 457 vezes

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Janeiro de 2011

600

Outro dia escrevi aqui sobre os problemas que vários municípios enfrentam quando este período de chuvas chega. Sem mesmo presumir o terrível mal que assolaria nossa nação, já via coisas tristes.
Falei da minha experiência com as goteiras de minha casa sobre minha cabeça e de meus familiares. Disse também das noites quase-dormidas à mercê da chuva. Comentei sobre os sapos que tínhamos que chutar para atravessar a rua de casa alagada e dos dias trabalhados com as roupas encharcadas.
Triste, é verdade. Mas nada comparado com o que estamos ouvindo e vendo nos últimos dias. E aquele salvamento daquela mulher sobre a laje de sua (ex) casa? Coisa triste, não? Salva por uma corda improvisada, a partir da dedicação de dois vizinhos dispostos e corajosos. E aquele bebê de apenas seis meses de idade que ficou soterrado por mais de doze horas? Saiu assustado, impressionado com tudo aquilo, mas sem chorar, sem dimensionar tudo o que estava acontecendo, inclusive consigo mesmo.
Entre tantos outros casos igualmente marcantes para nós e, principalmente, para os sobreviventes e os familiares dos mortos. (Corpos sendo enterrados às dezenas, em valas comuns, nos quintais de suas próprias casas).
Na primeira entrevista que a presidenta Dilma deu à impressa disse uma frase com a qual concordo em gênero, número e intensidade: “No Brasil, a construção irregular não é exceção, mas a regra”. Por esse motivo que no artigo da semana passada eu disse que enchentes era um assunto, entre outros, de questão política.
Lógico. O planejamento de uma cidade deve ser cuidado por seus gestores. Iluminação, esgoto, pavimentação, poda, limpeza de terrenos abandonados, adequação e uso de solo etc., etc. etc... E isso não é um problema deste ou daquele município. De modo geral, todas as cidades fazem vistas grossas para estas questões. Até ocorrerem fatos como os que estamos presenciando.
E podemos acrescentar à inércia de ações governamentais outros episódios sociais nocivos como a dengue, invasões de terras produtivas, o analfabetismo, a calamidade na saúde e segurança públicas da grande lista que poderíamos fazer aqui.
Também uma ideia louca, mas nem por isso inviável, me veio nos momentos em que eu pensava sobre esse assunto: por que os senadores, deputados e vereadores dos estados e municípios atingidos pelas chuvas não abrem mão de três ou quatro meses de salário e utilizam do dinheiro que recebem para construção de casas populares aos desabrigados da chuva? Não resolveria o problema, mas certamente faria diferença para as famílias que fossem contempladas. Melhoraria um pouco a imagem de nossos políticos e fariam jus ao gordo aumento que tiveram. Assistencialismo? Não. Coerência. (Para quem pensa que os referidos políticos ficariam sem salário, engano. Muitos deles têm o cargo político como uma “profissão” paralela).
O que tem de 600? O número aproximado de mortos até o momento. Mas não são apenas um número, não. São vidas que deixam saudades e um rastro de amizade, um cheiro na camisa, uma risada inimitável entre tantos outros gestos na memória dos que ficam.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

Janeiro de 2011

TRAVESSEIRO ENCHARCADO

Todo início de ano é a mesma história: enchentes para todos os lados e, com elas, desabamentos, mortes, soterramentos... E não são somente físicos, não; metafóricos e psicológicos também.
Com as chuvas, desabam sonhos e inundam corações de tristeza.
Convivi por muitos anos com uma maldita goteira que ficava sobre minha cama, especificamente sobre meu travesseiro. Ela pingava e eu acordava. Desviava a cabeça do lugar ou dormia no lugar dos pés, torcendo para noite acabar. No outro dia trocava a telha, mas não adiantava: ela surgia novamente do nada.
Do nada, não. É que a casa era coberta por três ou quatro tipos de telhas romanas. Resultado de uma troca que meu pai fez na ocasião para cobrir a casa: um rádio velho por as tais telhas. Até hoje estão por lá.
As chuvas desabam e, com elas, encharcam sonhos. Quantas vezes eu, meus irmãos e meus pais saímos debaixo de chuva para trabalhar e estudar. Atravessávamos a rua Santo André inteira, desde a travessa Sérgio Cardoso até a avenida Prestes Maia, em Araçatuba, a pé, chutando sapos e com lama até as canelas. Trabalhávamos ensopados ou, pelo menos, molhados da cintura para baixo.
Certa vez, uma calha foi rompida na cozinha de casa em meio a um temporal e ficamos com um “chafariz” natural bem no meio da área de serviço, sem poder fazer nada, além de pegar um rodo e tentar expurgar ao máximo a água para fora.
Perdermos vários móveis entre sofás, guarda-roupas e colchões por conta das chuvas em excesso. A seca é ruim, é verdade. A poeira irrita a garganta, bota fama às donas de casa de relapsas, suja os colarinhos das camisas... Mas as águas do exagero são bem piores e, talvez, a maioria de vocês, amigos leitores, não sabe o que é isso. Acreditem: é algo triste.
Fico vendo e lendo essas notícias todas pela tevê, jornal e internet sobre os desabrigados e vitimados da chuva e retomo os dias ruins pelos quais passei na adolescência e parte da vida adulta. Cada vez que escuto sobre os encharcados das chuvas fico matutando num modo viável para poder ajudar.
Aquela goteira que me incomodava sobre meu travesseiro ainda me acompanha. Agora, batendo sobre minha consciência e, ao mesmo tempo, fazendo com que eu também me desperte com relação a esse tema – vítimas das chuvas – que, para muitos (sobretudo os que não sofrem com enchentes) não significa muita coisa.
Mais uma vez essa discussão passa pelas questões políticas e sociais. Há que se pensar nas vítimas das chuvas antes mesmo de que estas assim sejam conhecidas. Depois, não vale a pena chorar o travesseiro encharcado.
Quem tem coragem pra isso?

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

Janeiro de 2011

PERU DESFIADO

- Pegam-se as partes, desfiam-se todas, acrescentam-se novos ingredientes como salsinha bem picada, cebola, alho, pimenta calabresa, sal a gosto e... pronto. É só misturar bem tudo, levar ao forno e deixar aquecer por aproximadamente trinta minutos. Depois é só servir com uma salada de legumes e arroz branco.
Já não aguentava mais aquela criatura enchendo o saco com receitinhas de mau gosto. Tudo bem que a moda agora é aproveitar tudo, reciclar as coisas, mas comida? E ainda por cima um trem ruim que doía. Eu não, gosto de comer direito. Pelo menos isso, não é mesmo? A gente já não tem o carro que queria, a casa com os móveis desejados, a viagem do sonho sempre adiada... mas comida, não. Teria que ser de primeira categoria.
Aárvore já estava sendo desmontada, os enfeites e penduricalhos devidamente guardados, as capas de almofadas, as toalhas de mesa, castiçais e velas sobressalentes... tudo era embrulhado para ficar mais um ano à espera das entusiasmadas mãos que os desembrulhariam no final daquele ano.
As visitas desocupavam a casa (algumas fariam falta, outras, nem tanto), tudo retomava o ritmo de antes e a normalidade entediante, mas de algum modo desejada, seria renovada fazendo parte de mais um ano que se iniciava.
Teria que ouvir as mesmas frases e comentários dos amigos de trabalho. Teria que rever o velho chefe com a tromba mais comprida do mundo, como se fosse culpado por ter férias, décimo terceiro salário, feriados mil...
Será que saberia como operacionar o computador novamente? Será que seus clientes ainda o estariam esperando? Estava com uma vontade louca de que alguns tivessem mudado de fornecedor. Coisa chata ter que lidar com alguns deles.
- Pedro, acorda... sai daí. Deixa eu limpar o sofá, anda.
- Quê? Quê que foi?...
Nem poder fazer suas ilações era possível. Não sabia o que era pior: se ficar em casa suportando a patroa ou se no serviço o patrão.
- Essa coisa de feriado é como encher a cara. Quando começa é bom, mas depois para aguentar a ressaca...
E ficou pensando em tudo, em coisas banais, em preguiças, em desejos impossíveis, em coisas exequíveis e outras nem tanto, em coisas dizíveis e em outras jamais pronunciáveis.
- E esse desfiado horrível de peru, já tá pronto?

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

Dezembro de 2010

VAMOS ACORDAR, MINHA GENTE!

Nero é que tinha essa mania de querer botar fogo em todo mundo. Diz a história que os jardins de seu palácio eram iluminados com cristãos pegando fogo, presos em colunas. Coisa triste de se pensar e, sobretudo, vivenciar. Ficou famoso por atear fogo em Roma.
Na semana passada escrevi nestas linhas justamente sobre intolerância. Nesta semana voltamos a vivenciar – agora mais de perto – outro caso de desrespeito: um cidadão (até encontrarem nome mais adequado e que possa ser utilizado em jornal de família) que por conta de quereres e vaidades pessoais (qualquer “motivo” irá soar como desculpa, mesmo, não tem jeito) fez a ex-mulher como refém por quase vinte e quatro horas na semana passada, em Araçatuba.
Agora, imaginem a situação: Uma pessoa trabalhando, de repente entra um louco com um revólver, manda todos saírem da sala, joga gasolina sobre a ex e fica por mais de vinte horas torturando-a psicologicamente e ameaçando-a fisicamente.
Vem polícia, vem família, vem juiz e delegada, vem até grupo especial de São Paulo e o cara nada. Ventilou-se uma conversa de que havia alugado um filme para inspirar a ação, cortado cabelo e feito a barba, tudo como manda o “figurino” para realizar a ação.
Em que mundo estamos? Aonde é que vamos parar? Sobre estas coisas que estou questionando. Num momento é intolerância porque a pessoa é negra, noutro porque é homossexual, naquele porque é nordestino, neste “porque”... Há razões para a violência? Há motivos, por mais “honestos e válidos” que sejam para que alguém se dê o direito de sair matando, estuprando, violentando o que quer que seja.
Se ao menos isso acontecesse (e isso pode parecer chocante ou mesmo politicamente incorreto) com quem merece, ou seja, traficante, estuprador, político corrupto, assassino, ladrão, vá lá, mas com gente de bem, trabalhadora, ah, não! Como diria o outro, assim não pode, assim não dá.
Até quando vamos ficar apenas como espectadores assistindo a essas e outras barbáries que acabam virando rotina em nosso meio? Qual é o prazo para que nos indignemos e nos coloquemos às ruas reclamando e exigindo ações mais enérgicas por parte das autoridades, de nossos legisladores, do Estado como um todo para que o cidadão de bem – o que os Direitos Humanos deveriam zelar – possa caminhar em paz pelas ruas, no horário que quisesse voltar para sua casa? Até quando...?
Ainda sou daqueles otimistas que acreditam num final melhor, que unidos podemos mais, que o que vale a pena deve ser validado e estimulado e o que não é tão legal assim não merece ter espaço em nosso meio.
Vamos acordar, minha gente.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

Novembro de 2010

ABAIXO A DITADURA

Há algumas semanas acompanho uma polêmica criada em Araçatuba a partir de algo bastante simples, no meu modo de pensar: uma pintura em grafite num dos muros do I.E. (Instituto Educacional Manoel Bento da Cruz).
Tomei conhecimento das discussões por meio do jornal que dedicou vasto espaço em suas páginas a fim de problematizar o irrelevante. E foi acompanhado por promotor, professores, artistas e tudo o mais.
Uns se posicionaram contra: “Onde já se viu, pintar um muro com folhas de maconha?”, “Isso não deveria estar pintado no muro de uma escola, onde é que nós vamos parar?”...
Outros refutaram a polêmica: “Todos temos direito de dizer, tocar, dançar e pintar o que quer que seja, estamos em um país livre”, “Querem nos fazer calar, mas não vão conseguir.”...
E os próprios grafiteiros, depois de terem sua obra violada, não deixaram por menos: “O graffiti nasceu sem algemas, não é você quem irá colocá-las”, respondendo ao promotor de justiça que agora acompanha o caso.
Dias depois conversava com um diretor de uma outra escola estadual da cidade e não entramos num acordo com relação ao acontecido. Ele insistia que a pintura não deveria estar num muro de escola porque era forte propaganda e incitação para os jovens. Tentei argumentar dizendo que todos os assuntos e temas são, por natureza, de interesse da escola. Afinal, se não tivermos liberdade de pensamento e reflexão na escola, onde mais os teremos?
Achei adequada a preocupação do promotor e da direção da escola de quererem privar a integridade dos adolescentes e jovens daquela instituição. É verdade que isso deve ser a meta de todos que se relacionam com a infância e a juventude... com o ser humano. Mas fiquei pensando numa frase proferida pelo grande artista Pablo Picasso quando foi interpelado por um General em uma de suas exposições em que o conhecido painel “Guernica” era exibido. Com tom de desdém o general lhe perguntou, referindo-se à obra: “Quem fez isso?”, e na mesma intensidade de ironia Picasso respondeu: “Vocês!”.
E não estava respondendo a verdade? Picasso não fez guerra nenhuma. Não tinha autonomia para iniciá-la. O que ele fez foi simplesmente retratá-la e, a partir do momento em que a obra ficou pronta, provocando ideias tantas a despeito dos horrores que a guerra provoca e tudo mais.
Quando os grafiteiros – ou quaisquer outros artistas – colocam em suas obras os horrores sociais (entre os quais as drogas) será que estão produzindo-os ou apenas REproduzindo-os? A discussão do uso e do estímulo ao uso das drogas atravessam outras questões bem mais intensas e nocivas do que uma linda e provocativa pintura: entram questões de controle de fronteiras, por onde as drogas entram; pela questão de segurança social, equipando, treinando e pagando policiais para que prestem um serviço de qualidade; pelo controle do capitalismo desenfreado, uma vez que a indústria do álcool e do tabagismo ainda impera em nosso meio levando adolescentes, jovens e adultos cada vez mais cedo para o vício de tais drogas; passa pelo exemplo – certamente alguns dos que criticaram e apagaram o grafite feito no muro da escola fumam e bebem na frente de filhos e alunos: será que isso não é estímulo pior e mais direto?
Se há problemas com a falta de exemplo nas escolas brasileiras, há que se começar dentro dos muros e depois ir para fora deles. Se há preocupação verdadeira com adolescentes e jovens araçatubenses, então que se revejam sua presença nos faróis da cidade (que a cada dia estão mais cheios), no alto da Avenida Brasília, com adolescentes e jovens se prostituindo, nas bocadas de muitos bairros periféricos de nossas cidades que intoxicam crianças, adolescentes e jovens no percurso de casa para a escola, chegando drogados nas instituições para que o professor “se vire” com eles.
Vamos cuidar da raiz do problema, para que a árvore possa dar frutos.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

Novembro de 2010

AMIGA DAS ALMAS

E vagava triste pelo mundo... Já estava enfadada, quase enjoada mesmo, no convívio com aquela carcaça que lhe prendia. Na infância era mais gostoso. Sim, porque vivia para lá e para cá, como filha do vento. Subia em mangueiras e goiabeiras, fazia guerra de lama quando a chuva acabava, dormia e se esquecia dos problemas da vida... Aliás, os problemas não a incomodavam. Se a barriga estivesse cheia e houvesse um canto quente para se deitar, os problemas não existiam.
Na juventude também corria para lá e para cá, mas era uma corrida estranha, sem muita lógica, com horários pré-determinados pra tudo. Na verdade, esse tipo de corrida não tinha muita graça. A barriga quase sempre estava vazia (o almoço muitas vezes era substituído por um lanche rápido ao pé da mesa do trabalho ou num canto qualquer de um barzinho) e dormir era um luxo permitido somente em feriados prolongados ou aos domingos (isso quando não tinha que concluir trabalhos em casa).
A velhice chegou. As companhias costumeiras já não eram tão constantes assim. Ao contrário, passou a se relacionar diariamente com pessoas com as quais nunca tinha convivido e, certamente, não teria tempo para conviver. A barriga agora era cheia, não de comidas – até porque lhes tinham proibido quase tudo –, mas de remédios; se fosse seguir a dieta do médico tinha que comer vento e beber água de sobremesa.
Começou a flertar com ela. Começou a se relacionar transversalmente com ela porque não tinha coragem de lhe encarar no rosto, de lhe fitar nos olhos... Como dois namorados tímidos, trocaram insinuações, desejos proibidos, murmúrios solitários... E todos à sua volta percebendo algo estranho: “Pare com essas conversas bobas, mamãe... onde já se viu falar uma coisa dessas?”.
E a velha nem aí. Fazia-se de doida – a idade já lhe permitia dessas mazelas – e esboçava um quase-sorriso no canto da boca, olhando para o nada, para o vazio... (ou a estaria flertando novamente?).
Certa noite, combinaram algo: dormiriam juntinhas, uma afagando a outra. Trocariam segredos, diriam coisas tolas, as últimas palavras. Não fariam escândalo para não chamar a atenção de ninguém e assim também não dariam vazão para que interferissem nesse plano. Quando todos acordassem pela manhã, tudo já teria acontecido. Tudo estaria consumado.
Desse jeito foi feito. Passaram a noite se divertindo, uma despedida de solteiro (é certo que seria uma despedida; de solteiro, talvez não, mas até acharmos um nome adequado para o fato seria delongado demais... quem ficar por aqui que se dê o trabalho de achar um; há coisas mais importantes para fazer agora).
Não precisou amanhecer o dia para que a viagem acontecesse. Numa fração de segundo lá estava ela: solta, livre, correndo para cá e para lá novamente. Deixou para trás a armadura pesada e enferrujada que a prendia e estava a correr de novo pelos campos, a trepar em árvores, a chupar mangas e jabuticabas, a colher flores pelo caminho. Já não tinha mais preocupações, problemas não existiam, conseguira novamente ser quem realmente era.
No final do dia (o dia não acaba nunca lá!) estava de barriga cheia e até tinha um cantinho quente caso quisesse dormir, mas não queria. Queria mesmo era continuar brincando e correndo para lá e para cá, com o vento penteando os pelos de sua face.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Outubro de 2010

A BELEZA DE SER UM ETERNO APRENDIZ...

A vida é uma grande escola, e todos nós sabemos disso: há lições que são aprendidas de modo mais prazeroso, causando-nos entusiasmo no aprender, no refletir às questões propostas por elas; outras, ácidas, áridas, desconfortantes...
Assim como na escola, há também na escola da vida a seriação: algumas pessoas estão mais adiantas (evoluídas?!) que as outras; outras, ainda estão no be-a-bá.
Assim como na escola, há os que ficam de recuperação em algumas matérias (solidariedade, respeito, fraternidade...), mesmo sendo aprovados em outras.
A verdade é que estamos todos nós aprendendo, ou, como diria Rosa, "de repente" aprendendo.
Minha vocação para ser professor estava no sangue. Minha mãe foi (e continua sendo) minha grande mestra. No interior do Ceará, no sítio da Pitombeira, ela já reunia vizinhos, irmãos e até o filho mais velho (meu irmão Lúcio) para, voluntariamente, encaminhar-lhes pelas primeiras letras. Quando veio para São Paulo, o ofício foi abandonado por falta de diploma. Entretanto, continua ensinando a todos nós.
Desde muito cedo (não vou falar pequeno porque ainda continuo a sê-lo) lembro-me sonhando com uma sala de aula, onde crianças, jovens e adultos ouviam com atenção aquilo que eu dizia. Quando terminei o 1º grau não tive dúvidas: "Vou fazer magistério".
Foi no CEFAM que iniciei nessa carreira que até hoje me sustenta física e intelectualmente. Também foi lá que tive contato com grandes mestres: Cleonice Guedes Pavan, Adilson Henriques, Kátia Nascimbeni, Giovanni e Ivone Baldan, Milka, Nilce, Bete, Zilda, Marquinhos, Osmarina, Júlia... só para citar alguns (e os outros que me perdoem).
O curso de Letras na Toledo, a pós-graduação na Unesp e o mestrado na UFMS renderam boas amizades e muito conhecimento. Desses lugares trago a amizade e o respeito pelos mestres Tito Damazo, Roseli Ibernom, Ester Mian, Patrícia Bertoli, Valdir Mendonça, Renata Junqueira, Ricardo Azevedo, Ezequiel Theodoro da Silva, Luís Camargo, José Batista de Sales, Belon, Sheila Maciel, Edgar Nolasco, Carlos Fantinati...
Gostaria de agradecer a todos meus mestres (os aqui lembrados e os que não citei) pelo tempo que dedicaram a mim e a meus colegas na comunhão do sabe(o)r das letras. Grande parte do que sou hoje (mesmo não sendo grande coisa) devo a vocês. Eternamente serão lembrados por mim com a reverência, respeito e admiração com que merecem ser.

Feliz dia dos professores.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Outubro de 2010

VINDE A MIM...

Dia 12 dia das crianças... E qual dia não o é, não é mesmo?!
Só quem tem criança em casa para se dar conta de que todo dia é dia delas. Se são recém-nascidas o choro não nos deixa esquecê-las por um minuto: num momento é cólica; noutro, fome; num outro, sono; num terceiro, cocô ou xixi incomodando-as.
Depois elas vão crescendo e aí você pensa que vai tudo ficar bem. Ledo engano: quando elas começam andar o desespero aumenta. Haja pernas para acompanhar aquelas perninhas que não param um só minuto no lugar. E, parece, sempre os piores lugares elas buscam para se enfiar. São verdadeiros suicidas (inocentes, é bem verdade, mas não o deixam de ser!).
Aí vem a adolescência: fase dos cabelos coloridos e esquisitos, aquelas roupas cheias de fluflu, a primeira paixão, os primeiros campeonatos e acampamentos fora de casa. As preocupações são redobradas.
Depois vem a faculdade, os estágios e, mesmo depois de formados, aqueles marmanjões dando despesas em casa e achando que ainda são crianças. Mas às vezes acho que são mesmo. Continuam sendo para os pais aqueles meninos e meninas dependentes (e a gente acaba nem achando tão ruim assim; basta estalarem os dedos que a gente está lá, prontos para socorrê-los).
Como diria Vinicius de Moraes: “Filhos, melhor não tê-los, mas se não tê-los como sabê-los”. A gente acaba sendo imortal neles, sabe. Talvez por isso os acolhamos sempre, nos importemos com eles... De certa forma é um egoísmo sacrossanto querer a perpetuação da nossa própria vida por meio da continuidade deles.
A verdade é uma só: onde tem criança há alegria, há energia, há graça, sinceridade, honestidade, verdade... Onde tem uma criança, mesmo as caras mais carrancudas se derretem, os corações mais angustiados encontram um momento – por mais efêmero que seja – de paz.
Não à toa Jesus pediu para que não impedissem de as crianças se aproximarem dele. Na própria visão do Mestre, as crianças eram – e portanto ainda são – a metáfora para quem quer chegar no céu.
Monteiro Lobato, também cansado das hipocrisias e discrepâncias dos adultos, encontra na imagem das crianças o lugar da esperança e é para elas que irá propor os seus diálogos, esperando na formação crítico-reflexiva de sua obra jovens e adultos mais adequados para transformar o mundo num lugar bom de se viver.
Que cada criança que há em nós seja cultivada diariamente e que a esperança sempre nos encontre de braços abertos para o que der e vier.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

Outubro de 2010

ARAÇATUBA CHORA SEUS FILHOS

Disse-lhe Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente.” João 11: 25, 26.

Lembro-me de uma situação da infância que até hoje é muito marcante para mim. Final de tarde, minha mãe sentada à sala, fazendo alguma coisa com as mãos (se não me falha a memória, remendando alguma roupa velha para o trabalho diário) quando respondeu ao meu irmão mais velho: - Já vou. E, ao chegar no portão, não havia ninguém.

Naquele exato momento o Lúcio tinha caído de uma mangueira muito alta e estava sendo hospitalizado para ficar por lá, em estado grave, durante algum tempo. Foi um momento difícil para todos nós e, particularmente, para minha mãe. Ela já antecipava o ocorrido com seus ouvidos de mãe, antenados e 24 horas por dia ligados aos filhos e à família de modo geral.

Há tempos esperamos pela chuva. Estávamos numa situação difícil: crianças e idosos com graves dificuldades respiratórias, a boca seca, nos bairros sem asfalto aquela poeira danada entupindo e sujando tudo.

Quando a chuva veio, ficamos aliviados, respiramos melhor e até foi mais gostoso para dormir e comer.

Mas não foi uma chuva comum, não. A primeira chuva depois da longa seca a que estávamos submetidos foram lágrimas antecipadas de Araçatuba pela perda de seus filhos na Castelo Branco. Como mãe que é de todos nós, antecipava a triste notícia que nos cobriu de luto e que, certamente, ficará gravada em nossa memória.

Assim como minha mãe ouviu o grito de meu irmão antes mesmo que alguém desse a notícia, também Araçatuba já chorava seus filhos assim que a triste história se consumava.
Tal qual minha mãe, apreensiva e angustiada em saber notícias, também nossa cidade ficou inquieta em querer saber o que aconteceu, como foi que o acidente se deu, acolher os familiares, estar solidariamente presente...

Agradecemos a Deus (e Araçatuba fica feliz) pelos sobreviventes, pela catástrofe não ter sido maior ainda. Mas não deixaremos de chorar nossos mortos e não serão substituídos jamais.

Vão com Deus, descansem em paz!

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Setembro de 2010

OLIMPÍADA DE LÍNGUA PORTUGUESA

PREMIAÇÃO MUNICIPAL

O período da tarde de quinta-feira (23) foi muito especial para 26 alunos das escolas municipais de Ensino Fundamental de Araçatuba. Afinal, não é todo dia que estudantes são premiados em uma olimpíada que não exige esforço físico, mas que aprofunda conhecimentos sobre a Língua Portuguesa. A olimpíada teve como público alunos da 4ª série, em que o desafio foi escrever poesias com o tema “O lugar onde eu vivo”.

Os alunos surpreenderam, pois muitos falaram com orgulho do bairro onde moram e descreveram Araçatuba como uma cidade maravilhosa para se viver. Dentre os assuntos citados nas poesias, eles destacaram o Rio Tietê, a produção da cana, a exposição agropecuária e o título de “Terra do Boi Gordo”, devido à força da pecuária na cidade. Os vencedores receberam a premiação no Teatro Municipal Paulo Alcides Jorge e os professores também foram homenageados.

O objetivo da premiação foi prestigiar o trabalho realizado nas escolas municipais durante os últimos meses, explica o coordenador da olimpíada Antônio Luceni. “Nós gostaríamos de homenagear as crianças pelo belíssimo trabalho, as professoras pelo apoio que deram aos alunos e as diretoras e coordenadoras por confiarem no nosso trabalho e apoiarem a ideia. Araçatuba foi uma das poucas cidades que aderiu em cem por cento. A nossa cidade foi citada como exemplo, o que nos enche de orgulho”, diz o professor.

A Olimpíada de Língua Portuguesa acontece em quatro fases (escolar, municipal, estadual e regional). Na fase nacional, 120 textos de todo o Brasil concorrerão. Em Araçatuba, quatro alunas foram classificadas para a fase estadual: Juliana Gonçalves Coluce, da EMEB Professor Lauro Bittencourt; Jéssica Gabriela da Rocha Vicente, da EMEB Fernando Gomes de Castro; Nikole dos Santos Garcia, da EMEB Professor Joaquim Dibo; e Paula Emanuelle Paixão Ferrarri, da EMEB Floriano Camargo Brasil.

“Nós precisamos comemorar, pois nossas crianças estão provando que são capazes. Nosso próximo passo é chegar à etapa nacional e nós acreditamos em nossos alunos”, afirma a secretária municipal de Educação Beatriz Soares Nogueira, que representou o prefeito Cido Sério. Além dela, estiveram presentes a secretária municipal de Esporte, Lazer e Recreação Cláudia Crepaldi; a chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Educação Patrícia Cardoso; a diretora do Departamento de Educação Municipal Ana Cláudia Vasconcellos; a diretora Ana Cláudia Marangon Donatoni, representando as diretoras da Rede Municipal; a coordenadora Marisa Matos, representante das coordenadoras; e a aluna Paula Emanuelle Paixão Ferrari, que representou os alunos participantes.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Setembro de 2010

60 ANOS

DA TEVÊ ABERTA BRASILEIRA

Este ano a tevê aberta brasileira completa 60 anos. Tenho metade da idade dela, mas nesses últimos trinta anos já deu pra conhecê-la um pouquinho.

Nossa primeira televisão (no singular mesmo, porque só tínhamos uma) foi uma Philips preto e branco, acho que pouco mais de vinte polegadas. Imaginem só, uma família de sete pessoas defronte a uma tevê de vinte e poucas polegadas. Sentia-me como se fosse uma vaca (dizem que os bovinos enxergam em preto e branco). Anos depois, apareceu um vendedor daqueles que passam de casa em casa vendendo quinquilharias e meu pai comprou uma tela de acrílico em que tinha três cores: na parte superior o vermelho, na parte inferior o verde e, entre estas duas cores, uma faixa amarela que se fundia e sugeria o alaranjado em alguns momentos. Ficávamos com a “sensação” de víamos as imagens coloridas (tal qual eram realmente).

A disputa para ver esse ou aquele programa era outra comédia em casa. Os desenhos animados eram dirigidos para nós, crianças; já a hora das novelas era para minha mãe, e disso ela não abria mão. Tentávamos convencê-la de tudo quanto era forma para deixar no “Sítio do Picapau Amarelo”, mas nada. Por isso acabamos assistindo a “Roque Santeiro”, “Sassaricando”, “Amor com amor se paga”, entre outras das décadas de 1980 e 90.

É verdade que em todos os momentos da trajetória de nossa tevê aberta existiram programas idiotas e inúteis. Também é verdadeiro que nunca tivemos maiores opções de cultura, de educação, de entretenimento nas tevês públicas do Brasil, mas como hoje em dia, acho difícil.

Quanta baboseira, quanta bunda, meu Deus!, quanto sangue e violência nos programas de hoje. Salvam-se alguns poucos canais (bem poucos, acho que um ou dois) que têm em sua programação documentários interessantes, programas jornalísticos apartidários, programas infantis não-infantilizados, entrevistas e debates que fazem a gente crescer no final deles.

As tevês públicas são concessões que deveriam exigir logo de cara qualidade em suas produções. O brasileiro já é privado de tanta coisa que ao menos os programas televisivos – um dos poucos momentos de lazer a que o pobre tem acesso – deveriam ser de qualidade, voltados para esclarecer, instruir, orientar e divertir as pessoas de forma digna.


D
o jeito que está aí não vale a pena nem gastar energia elétrica com o que passa na tevê. De pão e circo já estamos cheio. Queremos coisa mais encorpada, coisa mais saudável, coisa que valha a pena digerir.

É isso!

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Setembro de 2010

MANDINGA PRA CHUVA CHEGAR

Sabe aquela história do “poder da atração”, da “conspiração a favor”, do “chama que vem”? Pois é, fiquei pensando nisso esse final de semana e resolvi fazer a “mandinga pra chuva chegar”.

O negócio é simples: a gente vai mentalizar algumas coisas que lembrem a chuva ou que a tenham como tema e repeti-las como um mantra? Não sabe o que é mantra? Não tem importância, fique pensando no barulho da chuva, cante músicas de chuva, faça a famosa dança da chuva... tudo isso repetidamente. Quem sabe não funcione? Porque o negócio tá brabo, não é mesmo? Que tempinho ruim! Como diria Maria Bethania: “Tinha que respirar, todo dia”.

Pra te dar uma ajudinha, aí vão algumas dicas:

Um clássico: “Chuva de prata que cai sem parar...”

Outro clássico (dá pra confundir com “jurássico” também!): “Chuva traga o meu benzinho...”.

Um gospel: “Faz chover a chuva serôdia sobre nós, faz chover a chuva temporã...”.

Outro gospel: “A chuva desce lá do céu como se fosse véu, de água corre o chão...”.

Vai de axé: “Quando a chuva passar...”.

Vai de romântica: “Cai a chuva que molha o meu amor...”.

Mais um amorzinho aí: “O amor não é como paixão que vai e vem feito chuva de verão...”.

Tem até pra criançada ajudar: “Chove, mas como chove: chuva, chuvisco, chuvarada, por que chove tanto assim?”.

E para os mais ligadinhos, tem até internacionais:

“I’m only happy when it rains...”.

“Singing in the rain…”.

“Rainy days and Mondays…”.

“I only want to see you laughing in the purple rain…”.

“Rain! Feet it on my finges tips, hear it on my window pane…”.

“If the rain comes theys run and hide thein heads…”

E: “It’s raining men, alleluia!...” Ops! Esta não tem muito a ver, não, mas não resisti!

Bom, é isso! Escolha uma e fique repetindo-a como se fosse um mantra, pensando positivo e, quem sabe, a chuva não vem e acaba com essa nossa agonia.

Mas, se de tudo, der errado, pegue uma mangueira e tome uma ducha... Assim, certamente, refrescará o seu calor!

Eu vou, mas semana que vem eu volto!

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Setembro de 2010

PÁTRIA AMADA

Mais um 7 de setembro. Data festiva?

É verdade que o Brasil é privilegiado sob muitos aspectos. Vivemos num País continental que “em se plantando tudo dá”. Mas também, como disse o outro, há “pouca saúde e muita saúva".

É verdade que não temos guerras – ao menos do ponto de vista genérico, porque temos também nossos mortos diários em guerras que acontecem nas ruas, nos morros e favelas, na violência que corrói famílias inteiras por meio das drogas.

É verdade, também, que a natureza foi generosa conosco: não temos furacões, terremotos, tornados, vulcões e tantas outras catástrofes que acabam por assolar várias partes do mundo.

É verdade que por conta da nossa miscigenação somos mais receptivos e solidários. Nossa fama de hospitaleiros não é por acaso – apesar de, internamente, não tolerarmos as várias “espécies” humanas.

Mas precisamos de outras independências.

Independência financeira: não é possível que num País como o nosso, com as mais altas taxas de juros e arrecadações bilionárias, professores, policiais, servidores públicos (principalmente municipais e estaduais) sobrevivam – depois de três turnos de trabalho – com um salário que qualquer cidadão na informalidade e sem nenhum preparo em nível superior produz.

Independência da auto-estima: não dá pra sorrir feliz faltando dentes na boca, não é possível voltar para casa alegre e de bem com a vida depois de um dia de trabalho sob o sol, com as mãos calejadas e com um ovo (quando é possível tê-lo) na marmita (enquanto outros ociosos estão numa cela com cardápio cuidado por uma nutricionista e sempre variado durante a semana. Verdadeira inversão de valores).

Independência escolar: Por que as universidades públicas estão cheias de ricos abastados? Por que um pobre tem que ralar a vida toda numa escola pública, com ventiladores quebrados, sol atravessando as janelas e “rachando o coco” de crianças e adolescentes e, quando chega a hora de cursar uma universidade pública, não há vagas para eles?

Independência intelectual: Por que todos acham que a agente necessita de migalhas, esmolas e assistencialismo? Por que somos submetidos diariamente a quereres e a vontades escusas? Por que riem da nossa cara e acham que estão nos convencendo sobre isso ou aquilo?

Independência civil: Estamos em pleno movimento eleitoral, por que somos obrigados a votar se vivemos num País livre e democrático? Por que as propagandas eleitorais não são uniformes, afinal de contas, iremos escolher pessoas importantes para representarem nossas vidas em nível de estado e federação?

Ó Pátria amada, tão castigada, salve-nos, salve-nos?

Ó Brasil, celeiro da América, entre outras mil é a ti que amamos!

Independência? Morte!

Independência! Morte!

Independência.

Morte a tudo que não é para o crescimento do Brasil!

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

VIDA, MINA A SER EXPLORADA

Sempre tive pavor de lugares fechados. Não permiti que se instalasse em mim a claustrofobia, mas me incomoda muito a ideia de ficar fechado em qualquer lugar que seja: elevador, sala de escritório, sala de espera ou coisa assim.

Evitei por anos andar de avião. Esse negócio de coisa fechada, quinze mil metros de altura e mais de oitocentos quilômetros por hora é para super-heroi de histórias em quadrinhos.
Sempre que ouvia o nome do mais conhecido livro de Júlio Verne, Vinte mil léguas submarinas, ficava imaginando a cena. Aliás, a bem pouco tempo tivemos notícia de um submarino que teve problemas mecânicos e, infelizmente, levou à morte toda tripulação.

Dias atrás nos deparamos com a notícia dos trabalhadores de uma mina de ouro no Chile que se encontram na mesma situação. Presos numa profundidade de 700 metros – todos bem, graças a Deus – ficarão por lá por até 4 meses.

Que situação...

Enterrados vivos, buscam pela vida. Como no mito clássico de Platão, estão sob treva e desejam ver a luz. Noite? Dia? Não sabem... Mas o período é grande e devem restabelecer rotinas, driblar o medo, a angústia, a expectativa... Terão que tolerar uns aos outros. Unidos deverão permanecer para que, no apoio mútuo, consigam superar todas as intempéries.

As famílias, acampadas, esperam por notícias. Também em união dividem a dor da separação, tentam, mesmo fora e distantes dos entes queridos, transmitir energia, força, ânimo... Também tiveram que mudar suas rotinas. Tiveram que se adaptar à nova cena que lhes foi imposta.

Quanta coisa a aprender, não?

Quantas vezes não estamos afundados, também, em problemas e nas dificuldades diárias e precisamos nos apoiar uns nos outros para conseguirmos continuar caminhando? Quantos momentos estamos na escuridão e precisamos de uma ponta de luz, por menor que seja, mas que traga um pouco de esperança? Quantas famílias estão irmanadas por compartilharem dor semelhante?

Noutra ponta, o que é preciso acontecer para que nos juntemos para um bem comum? Quando tiraremos nosso traseiro da cadeira e nos colocaremos sob vigília para que alcancemos objetivos bons para a coletividade? O que será capaz de nos tirar da situação de comodismo e morbidez e nos encaminhar para acampamentos de solidariedade, fraternidade e justiça? O que será preciso acontecer para que valorizemos as pessoas que estão à nossa volta e que, às vezes, passam como transparentes por nós?

A vida é ouro. Mina a ser explorada cotidianamente.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

 

ELEIÇÃO NA FLORESTA

Este ano é ano de eleição na floresta. Momento importante para todos definirem quem irá comandar o grupo nos próximos quatro anos. Uma assembléia foi convocada pelo Leão. E quem foi dar a notícia foi a D. Tartaruga, mas com ordens severas: apenas para alguns bichos, já que, por conta da lerdeza de D. Tartaruga “não daria” para convidar a todos.

Bichos reunidos, o Rei Leão passou a fala aos candidatos.

Quem primeiro se apresentou foi o Curupira. E não quis saber de brincadeira, não. Já saiu entoando bem alto o seu slogan para que todos o gravassem bem

- Para a floresta continuar andando pra frente, Curupira presidente!

E todos aplaudiam, e todos festejavam... O candidato falava bem, era popular entre os habitantes da floresta. Mas alguém, lá no meio do povo, observou um detalhe: a natureza do Curupira era a de andar para trás. Por que estava dizendo aquelas coisas, então? E por que os outros bichos não prestavam atenção no que o candidato dizia e se levavam apenas pelo falatório?

Em seguida, veio uma candidata. Era novidade na floresta. Por muitos anos somente bichos do sexo masculino reinavam por ali. Ela tinha pressa, já que não podia ficar por muito tempo fora d’água.

- Vocês já me conhecem porque quem me ouve nunca mais me esquece. Um grito daqui, outro de lá, não adianta resistir porque eu vou te pegar! Meu canto é doce, minha boca também, Iara é meu nome, quero ser teu bem!

Uma voz sedutora, um canto sedutor. Assim, a Mulher-Iara já estava arrancando os corações dos marmanjões, quando o Saci se intrometeu.

- Vamos parar de ladainha, vamos parar de blá, blá, blá... nosso objetivo neste dia é escolher em quem melhor votar. Esse canto é lindo demais, eu também quase caio nele, mas como moleque levado que sou, não caio em qualquer converseiro.

Cheio de rimas para poder provocar, o Moleque Saci saiu a argumentar.

- Seu Curupira, não me leve a mal, mas essa sua conversa é tão mole que já tá fazendo o boi dormir. Onde já se viu? Querer o bem do Brasil não é somente falar, tem que mostrar serviço. Há tantos anos no poder, e o que o senhor fez? Sua única responsabilidade era proteger a floresta. E olha aí? Tá quase toda desmatada. Fiquei sabendo que o senhor anda de conversa com uns tais grileiros...

- E você, Mulher-Iara? Sei que é boa de conversa (e de outras coisinhas mais!), mas na hora do vamu vê, pula do barco e deixa a gente a ver navios.

E a assembléia começou a pegar fogo com a chegada do Saci. Sua fama de bagunceiro e arruaçador estava mais do que comprovada. Era réplica daqui, era tréplica de lá e ninguém queria saber de parar... Até que se ouviu um uivado no meio da floresta. Todos pararam e ficaram escutando. Quando de repente...

- Vamos parar com essa bagunça aqui. Quem é o mais corajoso da floresta? Quem é que deixa caçador e grileiro com os cabelos em pé? Quem é que se mistura com os humanos e passa despercebido e, à noite, à meia-noite, volta para colocar as coisas em ordem? Eu, é claro!

O Lobisomem não deixou por menos.

Depois, veio o Boitatá, que de cara foi chamado de mentiroso pelo grupo, já que de boi não tinha nada, era uma cobra! A Cuca quis se pronunciar, mas não teve a menor chance. Disseram que o lugar dela era no Sítio do Pica Pau Amarelo.

Depois de muita discussão, decidiram: a floresta era um lugar democrático, por isso todos podiam ser candidatos.

E a primeira a votar foi a Mula-sem-cabeça. Disseram que ela votou num determinado candidato só porque ele tinha lhe prometido um chapéu. É mole?!

Mas que ela vai ganhar um chapéu, ela vai! Ah, vai!

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

21ª BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO

- UM MARCO EM MINHA VIDA

 

UBEDe 12 a 22 de agosto, em São Paulo, acontece a 21ª edição da Bienal Internacional do Livro, uma das mais importantes do mundo. O evento é integrado por diferentes ações, que vão desde palestras, mesa de discussão, apresentações culturais, lançamentos e compra de livros, além de contato com livreiros, editoras, escritores, ilustradores e muito mais.

Há espaços e atividades para os mais diferentes públicos: crianças, jovens, adultos, idosos, professores, gestores escolares, intelectuais das mais variadas áreas e gente simples, que curte uma boa leitura.

Sábado, dia catorze, estive com um grupo de colegas da Secretaria Municipal de Educação de Araçatuba e alunos dos cursos de Pedagogia e Artes Visuais da Faculdade Uniesp, Birigui. A maior parte presente pela primeira vez numa Bienal de Livros. No final, perguntei se gostaram, mas não era nem preciso perguntar. Todos estavam com sacolas cheias de livros e muitas histórias para contar.

Na ocasião, também, lancei dois de meus livros e, junto com as escritoras Marilurdes Martins Campezi (Lula) e a Wanilda Borghi (representada), tomamos posse do Núcleo da União Brasileira de Escritores – UBE em Araçatuba e região.

Foi um momento particularmente especial para mim. Eu que há muitos anos venho acompanhando a Bienal de Livros como visitante estive presente neste ano como colaborador do evento. Receber o crachá de escritor e ser empossado coordenador do Núcleo UBE em Araçatuba foi um dos melhores presentes que recebi até hoje.

Ficava feliz sendo acotovelado e “atropelado” nos corredores do Anhembi e nos estandes das editoras. Causava-me emoção ver tanta gente sentada, debruçada num balcão, em filas enormes de caixas para folhear, ler e comprar livros.

Fico feliz de verdade quando vejo tanta gente se alimentado de arte, se humanizando por meio da literatura, da música, do teatro, do cinema, da pintura... Isso significa que quanto mais acesso pudermos dar às pessoas para que usufruam de bens culturais, tão mais mergulharão nesse prazer.

“É no mundo possível da ficção que o homem se encontra realmente livre para pensar, configurar alternativas, deixar agir a fantasia. Na literatura que, liberto do agir prático e da necessidade, o sujeito viaja por outro mundo possível. Sem preconceitos em sua construção, daí sua possibilidade intrínseca de inclusão, a literatura nos acolhe sem ignorar nossa incompletude.”

É com as palavras do escritor Bartolomeu Campos de Queirós em seu “Manifesto por um Brasil literário” que gostaria de encerrar este artigo. Também na esperança de que TODOS e TODAS que trabalham com Educação, com Arte, com formação de pessoas entendam e deem valor ao trabalho com as artes de modo geral e, mais particularmente, com a literatura, isto é, a arte da palavra. Afinal, somos todos PALAVRAS.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

SARAMAGO PARA O CORPO E A ALMA

José de Sousa Saramago nasceu em Portugal em 1922. Era para ter sido registrado com o mesmo nome do pai, mas o tabelião acrescentou o apelido que o deixaria conhecido no mundo todo: Saramago, que também dá nome a uma planta que serve de alimento para os pobres em tempos difíceis. Aí, as disgressões de sempre:

a) Desde o início estava fadado a agir do lado mais fraco, o lado da precariedade da vida. Se saramago era ração para pobres, Saramago também o foi. Eu que sou plebeu, que não tenho pedigree, vira-lata cultural e intelectual. A mim me interessa a piadinha do boteco de esquina aos mais cátedros níveis intelectuais. Saramago serviu para matar minha fome.

b) Meu Deus! Mais uma vez essa: literatura como alimento para famintos. Lembro-me de seu Ensaio sobre a cegueira. Quase fiz par com a multidão de zumbis do livro, tal forte e eficaz a estrutura do texto sem paragrafações, travessões ou quaisquer outros artifícios linguisticos que contribuissem para uma leitura às “claras”. Mas a esperança apareceu no final do túnel (vindo de um amuado, um final surpreendente).

c) Na possibilidade de os menos afortunados se colocarem na vida e se fazerem escutar por meio da literatura. Assim como milhões de brasileiros, Saramago era de origem humilde, quase não pode cursar uma faculdade e seu primeiro livro, segundo informações ventiladas na mídia, conseguiu aos 19 anos, com dinheiro emprestado de um amigo. Quanta demora para um encontro com algo que faria parte da sua vida e morte (ele estava lá, nas mãos de alguns em meio à multidão, se despedindo de seu criador. Agora, é a criatura que irá continuá-lo).

d) Um comunista, um revolucionário que usou de uma arma tão eficaz a ponto de censurá-lo em seu próprio país e, mesmo não sendo formal a postura, o exílio foi sua melhor opção. É, a palavra é penetrante e eficaz como uma espada de dois fios. Livros seus foram proibidos (mas o homem escrevia ficção, minha gente). Quem tem medo de lobo mau?!

Fiquei pensando nessas coisas. Fiquei pensando o quanto saramago faz bem pra gente. Fiquei pensando o quanto Saramago teria deixado falta se não passasse por aqui. Agora, está noutra parte do universo provocando, observando tudo, quem sabe escrevendo um novo livro? De uma coisa podemos estar certos: vai continuar alimentando muita gente. (20/6/2010)

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

EU PRATICO LEITURA

Entre os dias 4 e 8 deste mês tivemos mais uma edição da Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP, no Rio de Janeiro. Desde 2003, a FLIP tem recebido importantes nomes das literaturas brasileira e internacional para lançar livros, discutir ideias, propor situações diversas sobre os mais diferentes temas e interesses culturais, sociais, intelectuais e outros “ais”...

O nome já algo atraente, não é mesmo, estimado leitor? Perceber o contato com a literatura como uma “festa” – que de fato é! – traz uma série de outros pensamentos: antes da festa há que se organizar tudo: o cardápio, os convidados, o local para acomodar todo mundo, as cores, os sabores e os sons de tudo que vai estar na festa e, de forma mais objetiva, a festa, propriamente.

Ainda não tive oportunidade de participar de nenhuma edição da FLIP. Sempre que penso em estar lá, acabo envolvido com algum outro compromisso que me impede. (Coisas de escola). Fico como aquele cara ou menina que tá doido(a) pra se aproximar de uma paquera, mas só fica de longe, espiando... Uma hora o “beijo” acontece.

A partir do dia 12 e até 22 de agosto teremos a 21ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Dá uma alegria danada dizer este número, sabia? Ainda por cima sobre algo relacionado ao livro (impresso, principalmente).

Contrariando os catastrofistas e apocalípticos de plantão, o velho e gostoso livro impresso continua a fazer adeptos e a encher (do verbo fazer pensar diferente e melhor) nossos corações e mentes das mais fantásticas e inebriantes sensações... Rompendo fronteiras, quebrando tabus, intercambias culturas e pensares, propiciando encontros...

Da Bienal de São Paulo sou freguês antigo e comigo levo todos os anos amigos, alunos... Em muitos casos, pela primeira vez. E sabe o que acontece? Se encantam também. (E olhe que nem precisa de 25 de março no roteiro, hein?!).

Eu sonho (e parafraseando Mário Sérgio Cortella, não deliro) com livros invadindo as vidas das pessoas em todos os espaços por onde circulam: escolas, igrejas, praças, shoppings, centros comunitários... Eu sonho que, no lugar de uma arma ou cigarro de maconha e pedra de craque, nossas crianças e adolescentes carreguem livros sob os braços, que em cada semáforo, ao invés de pedirem esmolas, participem de campanhas voluntárias de distribuição de livros de literatura para os que ainda não tiveram acesso a eles. Eu sonho que o entusiasmo das ideias – e quantas delas estão nas páginas brancas ou coloridas de livros – possa substituir a maquinação e planejamento do mal (sequestros, assaltos, desvios de dinheiro público etc. etc. etc.).

E não só sonho, faço minha parte nas aulas que ministro, nas palestras que profiro, nos artigos que escrevo, como estou fazendo aqui. Espero, também, prezado leitor, que você pratique o verbo “ajudar alguém a se interessar por leitura”.

Caminhemos...

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

Julho de 2010

VÓ JANOCA E VÔ NEUZIM

Amanhã é dia dos avós. Aproveitando o embalo da data, decidi dedicar o espaço de hoje aos nossos queridos velhinhos. Parabéns àqueles que contribuíram para com nossa vinda ao mundo. Sintam-se abraçados por mim.

Q uero falar, também, da minha relação com meus avós. Vó Júlia e vô Mocim são os pais de meu pai. Com a vó Júlia, eu e meus irmãos, tivemos algum contato. Bem pouco. Éramos muito crianças e o máximo que fizemos foi atormentá-la, coitada, com diabrices. Na ocasião, estava em São Paulo para cirurgia de catarata. Já o vô Mocim, quase não nos relacionamos. Só meu irmão mais velho, o Lúcio, construiu uma afetividade mais profunda com ele. Os dois, hoje, descansam em paz.

Já os pais de minha mãe são nossos segundos pais. Desde que nos entendemos por gente temos contato com eles. Já chegamos a morar um tempo na mesma casa, na saudosa Chácara Piloto, no Jardim TV. Que tempo bom foi aquele. Trepar em mangueiras, goiabeiras e comer fruta do pé. Moer e tomar caldo de cana escondido. Chupar jabuticaba e comer caquis geladinhos, guardados por minha vó.

A vó Janoca e o vô Neuzim sempre estiveram presentes em nossas vidas, nos abençoando e contribuindo com nossa formação. Quantos apertos passamos na infância e esses velhinhos lá, nos ajudando. Criamos uma relação bastante forte. Acho que vamos continuar ligados sempre. Não vai ter nada que nos separe.

Adoro ouvir meu avô contando os causos dele. São história lindas que, se tiver oportunidade, irei escrevê-las um dia. Minha avó, sempre ali do ladinho dele, interrompendo-o para corrigir-lhe um nome ou data equivocada (não sei como ela guarda tanta informação e de modo tão preciso).

Já carregaram tantas coisas nas costas... lenha, lata d’água, trouxas de roupas ora para mudanças repentinas arrumadas pelo meu avô, ora para um açude ou poço próximo para serem lavadas, quaradas e estendidas em alguma cerca de pau sob o sol escaldante que rapidamente secava tudo.

Mas carregaram outras coisas também. Uma família inteira. Até hoje dão guarida para este ou aquele filho que precisar. Casa de fartura, sempre que alguém chega já lhe é oferecido um café, uma bolacha, um pão...

Já disse antes e não canso de repetir: amo vocês, vó Janoca e vô Neuzim. Deus os abençoe sempre.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

PARA LÁ E PARA CÁ

Para lá: a saudade de uma parte da gente que, ao longo do tempo, acabou nos cativando com risos e ransos, com delicadezas e rudezas, com saliva, com hormônios, com verdade e mentiras...

Para cá: sustento, dinâmica de vida, círculo de amizades (e desafetos também!), patrimônio (não muito porque o leão deixa pouco), outra parte da gente, apesar do convívio diário, procuramos não deixar virar rotina porque, como sabemos, esta nos cega.

Para lá: vez ou outra (uma ou duas vezes ao ano, no máximo), entre escapadas quase-férias, lacunas no corre-corre de ações que não param nunca... Novidades, nomes e pessoas desconhecidas, comidas e temperos diferentes (imaginem que um dia comi uma “cereja traveco”, feita de mamão).

Para cá: quase um GPS. Itinerários gravados, rotas praticamente automáticas, paisagens repetidas feitas figurinhas a serem trocadas, sabores e cores já vistos, as mesmas vozes, as mesmas queixas, as mesmas provocações...

Lá: uma utopia.

Cá: o mundo real.

Lá ou cá?
Os dois. Precisamos de ambos para o equilíbrio da vida.

O cá às vezes é o lá de alguém (ora bom ora ruim). E vice e versa, entende?

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

FAMÍLIA

A Espanha é a campeã 2010 da Copa do Mundo. Pra não dizer que não falei...
Há algumas semanas estamos sendo bombardeados por, pelo menos, duas notícias que, no mínimo, servem para que pensemos em várias coisas; entre as quais: família.
Estou me referindo aos casos “Mércia” e “Eliza”. Nos dois casos, a família é o eixo da discussão. E se não é o centro, passa-se por ela. No caso “Mércia”, uma família presente, dedicada e corroborativa para pensar e elucidar o assassinato da advogada. No caso “Eliza”, famílias truncadas e, até certo ponto, desequilibradas, tanto por parte do algoz quanto da vítima.
A grande falência social, a meu ver, passa pelo âmbito familiar. E não estou defendendo aqui a forma tradicional de se enxergar ou se constituir família. Não. Estou propondo o (re)pensar de uma microssociedade familiar que pode (e pragmaticamente tem) optar por várias nuanças, sob múltiplas possibilidades...
Fui criado numa família muito simples, entre cinco irmãos e meus pais. Passamos por muitas dificuldades na vida: moramos sempre nas periferias das cidades onde vivemos, ganhávamos roupas e calçados, era comum reaproveitarmos cadernos e outros materiais escolares de um ano para outro, às vezes na mesa não tínhamos variedade para comer, ficávamos com o singular alimento que nos era oferecido.
Na contramão do cenário acima, sempre fomos muito unidos (e até hoje é assim). Tínhamos as discussões de praxe que todas as crianças e adolescentes têm, mas sempre nos respeitávamos muito. Herança que nos foi deixada desde cedo pelo meu pai Cícero e minha mãe Maria.
Em meio às adversidades da vida e a possibilidade de debandarmos para o lado ruim da sociedade – e os exemplos aqui são desnecessários – sempre optamos pelo caminho da honestidade, do caráter, da fraternidade. Talvez você pense, prezado leitor, que estou falando de sacrossantos humanos que beiram a angelical parcela privilegiada de escolhidos d’outro mundo. Talvez alguém ache um exagero falar de altruísmo, seriedade, ombridade e tantas outras coisas “fora de moda” e por vezes “piegas” nessa sociedade tão desconfortante (na ausência de adjetivo mais claro!).
Mas existem, sim. São importantes, sim. É possível, sim. Nós devemos acreditar que, para além das aberrações a que somos submetidos diariamente nos telejornais, é viável criar e educar filhos e pessoas num caminho de retidão e de gente de boa fé.

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

DE VOLTA AO MUNDO REAL

Tudo parecia um sonho: arquibancadas cheias, gente também cheia de energia. Um pedaço de couro inflado. Homens de um lado para o outro sob uma perseguição sem fim, atrás de um objeto não muito valioso (ao menos do ponto de vista financeiro) como se estivessem a correr atrás de um frango para matar a fome (lembro-me da cena inicial do Cidade de Deus).
Por algumas semanas foi assim. Mudaram toda nossa rotina: bancos fechando ou abrindo mais tarde, ruas congestionadas em horário que nem era de pico ainda, buzinhas infernais (apelidas de um nome que mais parecia o diminutivo de uma matriarca) e estouros que ora nos faziam saltar da cadeira.
Os comentários eram sempre os mesmos: “Você viu, a gente vai chegar lá!”, “Nossa, foi chorado, mas valeu!”; e outros nem tão animadores assim: “Pura sorte!”, “Com um time desse, até eu ganharia!”...
O sonho que até essa altura era azul, agora estava ficando mais, digamos assim, alaranjado. E ele se tornou realidade. No começo: animação, entusiasmo, força... Depois, a verdade: o amarelo invadiu nossa gente. Todo mundo amarelou de medo. Então foi assim: azul x laranja = azul (1º tempo). Azul x laranja = amarelo de medo (2º tempo). Azul x laranja = laranja (final).
Laranja na final? Todo mundo passou mal! Todo mundo de cá, porque de lá(ranja), só alegria. Alegria geral, alegria na geral, alegria fatal! Ora(nge)nte! Tá com sede? Bebeu água? Não? Tomo guaraná? Suco de caju? Não! Suco de laranja!
Murchos, coitados, nem quiseram falar. Cada um voou para seu lugar. Comemorar o quê? A gente até quis torcer, né? Mas já sabia, ou não sabia, minha gente?
Ficou pra outra vez. Quem sabe, aqui no Brasil? Mas com gente séria, que tá a fim de jogar. Se não: não dá!
Nosso consolo: los hermanos! Foi a glória. De 4 a zero. Não poderia ser melhor! E as expressões? E as feições no final do jogo? E que jogo! Os branquinhos incansáveis, correndo atrás da bola. 3 a zero, jogo ganho? Não! Correram mais, até o último segundo: luta.
Nessa tal de globalização e numa festa como essa em que as nações se enfrentam para uma guerra do bem, acho que temos muito que aprender com outros países.
Bem-vindos de volta ao mundo real!

Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

 

*

ABRAÇOS!

 

 




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