Setembro de 2010
VIDA, MINA A
SER EXPLORADA
Sempre tive pavor de lugares
fechados. Não permiti que se instalasse em mim a claustrofobia,
mas me incomoda muito a ideia de ficar fechado em qualquer lugar que
seja: elevador, sala de escritório, sala de espera ou coisa assim.
Evitei por anos andar de avião.
Esse negócio de coisa fechada, quinze mil metros de altura e
mais de oitocentos quilômetros por hora é para super-heroi
de histórias em quadrinhos.
Sempre que ouvia o nome do mais conhecido livro de Júlio Verne,
Vinte mil léguas submarinas, ficava imaginando a cena. Aliás,
a bem pouco tempo tivemos notícia de um submarino que teve problemas
mecânicos e, infelizmente, levou à morte toda tripulação.
Dias atrás nos deparamos
com a notícia dos trabalhadores de uma mina de ouro no Chile
que se encontram na mesma situação. Presos numa profundidade
de 700 metros – todos bem, graças a Deus – ficarão
por lá por até 4 meses.
Que situação...
Enterrados vivos, buscam pela
vida. Como no mito clássico de Platão, estão sob
treva e desejam ver a luz. Noite? Dia? Não sabem... Mas o período
é grande e devem restabelecer rotinas, driblar o medo, a angústia,
a expectativa... Terão que tolerar uns aos outros. Unidos deverão
permanecer para que, no apoio mútuo, consigam superar todas as
intempéries.
As famílias, acampadas,
esperam por notícias. Também em união dividem a
dor da separação, tentam, mesmo fora e distantes dos entes
queridos, transmitir energia, força, ânimo... Também
tiveram que mudar suas rotinas. Tiveram que se adaptar à nova
cena que lhes foi imposta.
Quanta coisa a aprender, não?
Quantas vezes não estamos
afundados, também, em problemas e nas dificuldades diárias
e precisamos nos apoiar uns nos outros para conseguirmos continuar caminhando?
Quantos momentos estamos na escuridão e precisamos de uma ponta
de luz, por menor que seja, mas que traga um pouco de esperança?
Quantas famílias estão irmanadas por compartilharem dor
semelhante?
Noutra ponta, o que é
preciso acontecer para que nos juntemos para um bem comum? Quando tiraremos
nosso traseiro da cadeira e nos colocaremos sob vigília para
que alcancemos objetivos bons para a coletividade? O que será
capaz de nos tirar da situação de comodismo e morbidez
e nos encaminhar para acampamentos de solidariedade, fraternidade e
justiça? O que será preciso acontecer para que valorizemos
as pessoas que estão à nossa volta e que, às vezes,
passam como transparentes por nós?
A vida é ouro. Mina a
ser explorada cotidianamente.
Antonio Luceni é
mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores
– UBE.
* Luceni
escreve neste espaço toda semana.
ELEIÇÃO
NA FLORESTA
Este ano é ano de eleição
na floresta. Momento importante para todos definirem quem irá
comandar o grupo nos próximos quatro anos. Uma assembléia
foi convocada pelo Leão. E quem foi dar a notícia foi
a D. Tartaruga, mas com ordens severas: apenas para alguns bichos, já
que, por conta da lerdeza de D. Tartaruga “não daria”
para convidar a todos.
Bichos reunidos, o Rei Leão
passou a fala aos candidatos.
Quem primeiro se apresentou foi
o Curupira. E não quis saber de brincadeira, não. Já
saiu entoando bem alto o seu slogan para que todos o gravassem bem
- Para a floresta continuar
andando pra frente, Curupira presidente!
E todos aplaudiam, e todos festejavam...
O candidato falava bem, era popular entre os habitantes da floresta.
Mas alguém, lá no meio do povo, observou um detalhe: a
natureza do Curupira era a de andar para trás. Por que estava
dizendo aquelas coisas, então? E por que os outros bichos não
prestavam atenção no que o candidato dizia e se levavam
apenas pelo falatório?
Em seguida, veio uma candidata.
Era novidade na floresta. Por muitos anos somente bichos do sexo masculino
reinavam por ali. Ela tinha pressa, já que não podia ficar
por muito tempo fora d’água.
- Vocês já me conhecem
porque quem me ouve nunca mais me esquece. Um grito daqui, outro de
lá, não adianta resistir porque eu vou te pegar! Meu canto
é doce, minha boca também, Iara é meu nome, quero
ser teu bem!
Uma voz sedutora, um canto sedutor.
Assim, a Mulher-Iara já estava arrancando os corações
dos marmanjões, quando o Saci se intrometeu.
- Vamos parar de ladainha, vamos
parar de blá, blá, blá... nosso objetivo neste
dia é escolher em quem melhor votar. Esse canto é lindo
demais, eu também quase caio nele, mas como moleque levado que
sou, não caio em qualquer converseiro.
Cheio de rimas para poder provocar,
o Moleque Saci saiu a argumentar.
- Seu Curupira, não me
leve a mal, mas essa sua conversa é tão mole que já
tá fazendo o boi dormir. Onde já se viu? Querer o bem
do Brasil não é somente falar, tem que mostrar serviço.
Há tantos anos no poder, e o que o senhor fez? Sua única
responsabilidade era proteger a floresta. E olha aí? Tá
quase toda desmatada. Fiquei sabendo que o senhor anda de conversa com
uns tais grileiros...
- E você, Mulher-Iara?
Sei que é boa de conversa (e de outras coisinhas mais!), mas
na hora do vamu vê, pula do barco e deixa a gente a ver navios.
E a assembléia começou
a pegar fogo com a chegada do Saci. Sua fama de bagunceiro e arruaçador
estava mais do que comprovada. Era réplica daqui, era tréplica
de lá e ninguém queria saber de parar... Até que
se ouviu um uivado no meio da floresta. Todos pararam e ficaram escutando.
Quando de repente...
- Vamos parar com essa bagunça
aqui. Quem é o mais corajoso da floresta? Quem é que deixa
caçador e grileiro com os cabelos em pé? Quem é
que se mistura com os humanos e passa despercebido e, à noite,
à meia-noite, volta para colocar as coisas em ordem? Eu, é
claro!
O Lobisomem não deixou
por menos.
Depois, veio o Boitatá,
que de cara foi chamado de mentiroso pelo grupo, já que de boi
não tinha nada, era uma cobra! A Cuca quis se pronunciar, mas
não teve a menor chance. Disseram que o lugar dela era no Sítio
do Pica Pau Amarelo.
Depois de muita discussão,
decidiram: a floresta era um lugar democrático, por isso todos
podiam ser candidatos.
E a primeira a votar foi a Mula-sem-cabeça.
Disseram que ela votou num determinado candidato só porque ele
tinha lhe prometido um chapéu. É mole?!
Mas que ela vai ganhar um chapéu,
ela vai! Ah, vai!
Antonio Luceni é
mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores
– UBE.
* Luceni
escreve neste espaço toda semana.
21ª BIENAL
INTERNACIONAL DO LIVRO
- UM MARCO EM
MINHA VIDA
De
12 a 22 de agosto, em São Paulo, acontece a 21ª edição
da Bienal Internacional do Livro, uma das mais importantes do mundo.
O evento é integrado por diferentes ações, que
vão desde palestras, mesa de discussão, apresentações
culturais, lançamentos e compra de livros, além de contato
com livreiros, editoras, escritores, ilustradores e muito mais.
Há espaços e atividades
para os mais diferentes públicos: crianças, jovens, adultos,
idosos, professores, gestores escolares, intelectuais das mais variadas
áreas e gente simples, que curte uma boa leitura.
Sábado, dia catorze,
estive com um grupo de colegas da Secretaria Municipal de Educação
de Araçatuba e alunos dos cursos de Pedagogia e Artes Visuais
da Faculdade Uniesp, Birigui. A maior parte presente pela primeira vez
numa Bienal de Livros. No final, perguntei se gostaram, mas não
era nem preciso perguntar. Todos estavam com sacolas cheias de livros
e muitas histórias para contar.
Na ocasião, também,
lancei dois de meus livros e, junto com as escritoras Marilurdes Martins
Campezi (Lula) e a Wanilda Borghi (representada), tomamos posse do Núcleo
da União Brasileira de Escritores – UBE em Araçatuba
e região.
Foi um momento particularmente
especial para mim. Eu que há muitos anos venho acompanhando a
Bienal de Livros como visitante estive presente neste ano como colaborador
do evento. Receber o crachá de escritor e ser empossado coordenador
do Núcleo UBE em Araçatuba foi um dos melhores presentes
que recebi até hoje.
Ficava feliz sendo acotovelado
e “atropelado” nos corredores do Anhembi e nos estandes
das editoras. Causava-me emoção ver tanta gente sentada,
debruçada num balcão, em filas enormes de caixas para
folhear, ler e comprar livros.
Fico feliz de verdade quando
vejo tanta gente se alimentado de arte, se humanizando por meio da literatura,
da música, do teatro, do cinema, da pintura... Isso significa
que quanto mais acesso pudermos dar às pessoas para que usufruam
de bens culturais, tão mais mergulharão nesse prazer.
“É no mundo possível
da ficção que o homem se encontra realmente livre para
pensar, configurar alternativas, deixar agir a fantasia. Na literatura
que, liberto do agir prático e da necessidade, o sujeito viaja
por outro mundo possível. Sem preconceitos em sua construção,
daí sua possibilidade intrínseca de inclusão, a
literatura nos acolhe sem ignorar nossa incompletude.”
É com as palavras do
escritor Bartolomeu Campos de Queirós em seu “Manifesto
por um Brasil literário” que gostaria de encerrar este
artigo. Também na esperança de que TODOS e TODAS que trabalham
com Educação, com Arte, com formação de
pessoas entendam e deem valor ao trabalho com as artes de modo geral
e, mais particularmente, com a literatura, isto é, a arte da
palavra. Afinal, somos todos PALAVRAS.
Antonio Luceni é
mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores
– UBE.
* Luceni
escreve neste espaço toda semana.
SARAMAGO PARA
O CORPO E A ALMA
José
de Sousa Saramago nasceu em Portugal em 1922. Era para ter sido registrado
com o mesmo nome do pai, mas o tabelião acrescentou o apelido
que o deixaria conhecido no mundo todo: Saramago, que também
dá nome a uma planta que serve de alimento para os pobres em
tempos difíceis. Aí, as disgressões de sempre:
a) Desde o início estava
fadado a agir do lado mais fraco, o lado da precariedade da vida. Se
saramago era ração para pobres, Saramago também
o foi. Eu que sou plebeu, que não tenho pedigree, vira-lata cultural
e intelectual. A mim me interessa a piadinha do boteco de esquina aos
mais cátedros níveis intelectuais. Saramago serviu para
matar minha fome.
b) Meu Deus! Mais uma vez essa:
literatura como alimento para famintos. Lembro-me de seu Ensaio sobre
a cegueira. Quase fiz par com a multidão de zumbis do livro,
tal forte e eficaz a estrutura do texto sem paragrafações,
travessões ou quaisquer outros artifícios linguisticos
que contribuissem para uma leitura às “claras”. Mas
a esperança apareceu no final do túnel (vindo de um amuado,
um final surpreendente).
c) Na possibilidade de os menos
afortunados se colocarem na vida e se fazerem escutar por meio da literatura.
Assim como milhões de brasileiros, Saramago era de origem humilde,
quase não pode cursar uma faculdade e seu primeiro livro, segundo
informações ventiladas na mídia, conseguiu aos
19 anos, com dinheiro emprestado de um amigo. Quanta demora para um
encontro com algo que faria parte da sua vida e morte (ele estava lá,
nas mãos de alguns em meio à multidão, se despedindo
de seu criador. Agora, é a criatura que irá continuá-lo).
d) Um comunista, um revolucionário
que usou de uma arma tão eficaz a ponto de censurá-lo
em seu próprio país e, mesmo não sendo formal a
postura, o exílio foi sua melhor opção. É,
a palavra é penetrante e eficaz como uma espada de dois fios.
Livros seus foram proibidos (mas o homem escrevia ficção,
minha gente). Quem tem medo de lobo mau?!
Fiquei pensando nessas coisas.
Fiquei pensando o quanto saramago faz bem pra gente. Fiquei pensando
o quanto Saramago teria deixado falta se não passasse por aqui.
Agora, está noutra parte do universo provocando, observando tudo,
quem sabe escrevendo um novo livro? De uma coisa podemos estar certos:
vai continuar alimentando muita gente. (20/6/2010)
Antonio Luceni é
mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores
– UBE.
* Luceni
escreve neste espaço toda semana.
EU PRATICO LEITURA
Entre os dias 4 e 8 deste mês
tivemos mais uma edição da Festa Literária Internacional
de Paraty – FLIP, no Rio de Janeiro. Desde 2003, a FLIP tem recebido
importantes nomes das literaturas brasileira e internacional para lançar
livros, discutir ideias, propor situações diversas sobre
os mais diferentes temas e interesses culturais, sociais, intelectuais
e outros “ais”...
O nome já algo atraente,
não é mesmo, estimado leitor? Perceber o contato com a
literatura como uma “festa” – que de fato é!
– traz uma série de outros pensamentos: antes da festa
há que se organizar tudo: o cardápio, os convidados, o
local para acomodar todo mundo, as cores, os sabores e os sons de tudo
que vai estar na festa e, de forma mais objetiva, a festa, propriamente.
Ainda não tive oportunidade
de participar de nenhuma edição da FLIP. Sempre que penso
em estar lá, acabo envolvido com algum outro compromisso que
me impede. (Coisas de escola). Fico como aquele cara ou menina que tá
doido(a) pra se aproximar de uma paquera, mas só fica de longe,
espiando... Uma hora o “beijo” acontece.
A partir do dia 12 e até
22 de agosto teremos a 21ª edição da Bienal Internacional
do Livro de São Paulo. Dá uma alegria danada dizer este
número, sabia? Ainda por cima sobre algo relacionado ao livro
(impresso, principalmente).
Contrariando os catastrofistas
e apocalípticos de plantão, o velho e gostoso livro impresso
continua a fazer adeptos e a encher (do verbo fazer pensar diferente
e melhor) nossos corações e mentes das mais fantásticas
e inebriantes sensações... Rompendo fronteiras, quebrando
tabus, intercambias culturas e pensares, propiciando encontros...
Da Bienal de São Paulo
sou freguês antigo e comigo levo todos os anos amigos, alunos...
Em muitos casos, pela primeira vez. E sabe o que acontece? Se encantam
também. (E olhe que nem precisa de 25 de março no roteiro,
hein?!).
Eu sonho (e parafraseando Mário
Sérgio Cortella, não deliro) com livros invadindo as vidas
das pessoas em todos os espaços por onde circulam: escolas, igrejas,
praças, shoppings, centros comunitários... Eu sonho que,
no lugar de uma arma ou cigarro de maconha e pedra de craque, nossas
crianças e adolescentes carreguem livros sob os braços,
que em cada semáforo, ao invés de pedirem esmolas, participem
de campanhas voluntárias de distribuição de livros
de literatura para os que ainda não tiveram acesso a eles. Eu
sonho que o entusiasmo das ideias – e quantas delas estão
nas páginas brancas ou coloridas de livros – possa substituir
a maquinação e planejamento do mal (sequestros, assaltos,
desvios de dinheiro público etc. etc. etc.).
E não só sonho,
faço minha parte nas aulas que ministro, nas palestras que profiro,
nos artigos que escrevo, como estou fazendo aqui. Espero, também,
prezado leitor, que você pratique o verbo “ajudar alguém
a se interessar por leitura”.
Caminhemos...
Antonio Luceni é
mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores
– UBE.
* Luceni
escreve neste espaço toda semana.
Julho de 2010
VÓ JANOCA
E VÔ NEUZIM
Amanhã é dia dos
avós. Aproveitando o embalo da data, decidi dedicar o espaço
de hoje aos nossos queridos velhinhos. Parabéns àqueles
que contribuíram para com nossa vinda ao mundo. Sintam-se abraçados
por mim.
Q uero falar, também,
da minha relação com meus avós. Vó Júlia
e vô Mocim são os pais de meu pai. Com a vó Júlia,
eu e meus irmãos, tivemos algum contato. Bem pouco. Éramos
muito crianças e o máximo que fizemos foi atormentá-la,
coitada, com diabrices. Na ocasião, estava em São Paulo
para cirurgia de catarata. Já o vô Mocim, quase não
nos relacionamos. Só meu irmão mais velho, o Lúcio,
construiu uma afetividade mais profunda com ele. Os dois, hoje, descansam
em paz.
Já os pais de minha mãe
são nossos segundos pais. Desde que nos entendemos por gente
temos contato com eles. Já chegamos a morar um tempo na mesma
casa, na saudosa Chácara Piloto, no Jardim TV. Que tempo bom
foi aquele. Trepar em mangueiras, goiabeiras e comer fruta do pé.
Moer e tomar caldo de cana escondido. Chupar jabuticaba e comer caquis
geladinhos, guardados por minha vó.
A vó Janoca e o vô
Neuzim sempre estiveram presentes em nossas vidas, nos abençoando
e contribuindo com nossa formação. Quantos apertos passamos
na infância e esses velhinhos lá, nos ajudando. Criamos
uma relação bastante forte. Acho que vamos continuar ligados
sempre. Não vai ter nada que nos separe.
Adoro ouvir meu avô contando
os causos dele. São história lindas que, se tiver oportunidade,
irei escrevê-las um dia. Minha avó, sempre ali do ladinho
dele, interrompendo-o para corrigir-lhe um nome ou data equivocada (não
sei como ela guarda tanta informação e de modo tão
preciso).
Já carregaram tantas coisas
nas costas... lenha, lata d’água, trouxas de roupas ora
para mudanças repentinas arrumadas pelo meu avô, ora para
um açude ou poço próximo para serem lavadas, quaradas
e estendidas em alguma cerca de pau sob o sol escaldante que rapidamente
secava tudo.
Mas carregaram outras coisas
também. Uma família inteira. Até hoje dão
guarida para este ou aquele filho que precisar. Casa de fartura, sempre
que alguém chega já lhe é oferecido um café,
uma bolacha, um pão...
Já disse antes e não
canso de repetir: amo vocês, vó Janoca e vô Neuzim.
Deus os abençoe sempre.
Antonio Luceni é mestre em Letras
e escritor, membro da União Brasileira de Escritores –
UBE.
* Luceni
escreve neste espaço toda semana.
PARA LÁ
E PARA CÁ
Para lá: a saudade de
uma parte da gente que, ao longo do tempo, acabou nos cativando com
risos e ransos, com delicadezas e rudezas, com saliva, com hormônios,
com verdade e mentiras...
Para cá: sustento, dinâmica
de vida, círculo de amizades (e desafetos também!), patrimônio
(não muito porque o leão deixa pouco), outra parte da
gente, apesar do convívio diário, procuramos não
deixar virar rotina porque, como sabemos, esta nos cega.
Para lá: vez ou outra
(uma ou duas vezes ao ano, no máximo), entre escapadas quase-férias,
lacunas no corre-corre de ações que não param nunca...
Novidades, nomes e pessoas desconhecidas, comidas e temperos diferentes
(imaginem que um dia comi uma “cereja traveco”, feita de
mamão).
Para cá: quase um GPS.
Itinerários gravados, rotas praticamente automáticas,
paisagens repetidas feitas figurinhas a serem trocadas, sabores e cores
já vistos, as mesmas vozes, as mesmas queixas, as mesmas provocações...
Lá: uma utopia.
Cá: o mundo real.
Lá ou cá?
Os dois. Precisamos de ambos para o equilíbrio
da vida.
O cá às vezes é
o lá de alguém (ora bom ora ruim). E vice e versa, entende?
Antonio Luceni é mestre em Letras
e escritor, membro da União Brasileira de Escritores –
UBE.
* Luceni
escreve neste espaço toda semana.
FAMÍLIA
A Espanha é a campeã
2010 da Copa do Mundo. Pra não dizer que não falei...
Há algumas semanas estamos sendo bombardeados
por, pelo menos, duas notícias que, no mínimo, servem
para que pensemos em várias coisas; entre as quais: família.
Estou me referindo aos casos “Mércia”
e “Eliza”. Nos dois casos, a família é o eixo
da discussão. E se não é o centro, passa-se por
ela. No caso “Mércia”, uma família presente,
dedicada e corroborativa para pensar e elucidar o assassinato da advogada.
No caso “Eliza”, famílias truncadas e, até
certo ponto, desequilibradas, tanto por parte do algoz quanto da vítima.
A grande falência social, a meu ver, passa
pelo âmbito familiar. E não estou defendendo aqui a forma
tradicional de se enxergar ou se constituir família. Não.
Estou propondo o (re)pensar de uma microssociedade familiar que pode
(e pragmaticamente tem) optar por várias nuanças, sob
múltiplas possibilidades...
Fui criado numa família muito simples,
entre cinco irmãos e meus pais. Passamos por muitas dificuldades
na vida: moramos sempre nas periferias das cidades onde vivemos, ganhávamos
roupas e calçados, era comum reaproveitarmos cadernos e outros
materiais escolares de um ano para outro, às vezes na mesa não
tínhamos variedade para comer, ficávamos com o singular
alimento que nos era oferecido.
Na contramão do cenário acima, sempre
fomos muito unidos (e até hoje é assim). Tínhamos
as discussões de praxe que todas as crianças e adolescentes
têm, mas sempre nos respeitávamos muito. Herança
que nos foi deixada desde cedo pelo meu pai Cícero e minha mãe
Maria.
Em meio às adversidades da vida e a possibilidade
de debandarmos para o lado ruim da sociedade – e os exemplos aqui
são desnecessários – sempre optamos pelo caminho
da honestidade, do caráter, da fraternidade. Talvez você
pense, prezado leitor, que estou falando de sacrossantos humanos que
beiram a angelical parcela privilegiada de escolhidos d’outro
mundo. Talvez alguém ache um exagero falar de altruísmo,
seriedade, ombridade e tantas outras coisas “fora de moda”
e por vezes “piegas” nessa sociedade tão desconfortante
(na ausência de adjetivo mais claro!).
Mas existem, sim. São importantes, sim.
É possível, sim. Nós devemos acreditar que, para
além das aberrações a que somos submetidos diariamente
nos telejornais, é viável criar e educar filhos e pessoas
num caminho de retidão e de gente de boa fé.
Antonio Luceni é mestre em Letras
e escritor, membro da União Brasileira de Escritores –
UBE.
* Luceni
escreve neste espaço toda semana.
DE VOLTA AO
MUNDO REAL
Tudo parecia um sonho: arquibancadas
cheias, gente também cheia de energia. Um pedaço de couro
inflado. Homens de um lado para o outro sob uma perseguição
sem fim, atrás de um objeto não muito valioso (ao menos
do ponto de vista financeiro) como se estivessem a correr atrás
de um frango para matar a fome (lembro-me da cena inicial do Cidade
de Deus).
Por algumas semanas foi assim. Mudaram toda nossa
rotina: bancos fechando ou abrindo mais tarde, ruas congestionadas em
horário que nem era de pico ainda, buzinhas infernais (apelidas
de um nome que mais parecia o diminutivo de uma matriarca) e estouros
que ora nos faziam saltar da cadeira.
Os comentários eram sempre os mesmos: “Você
viu, a gente vai chegar lá!”, “Nossa, foi chorado,
mas valeu!”; e outros nem tão animadores assim: “Pura
sorte!”, “Com um time desse, até eu ganharia!”...
O sonho que até essa altura era azul, agora
estava ficando mais, digamos assim, alaranjado. E ele se tornou realidade.
No começo: animação, entusiasmo, força...
Depois, a verdade: o amarelo invadiu nossa gente. Todo mundo amarelou
de medo. Então foi assim: azul x laranja = azul (1º tempo).
Azul x laranja = amarelo de medo (2º tempo). Azul x laranja = laranja
(final).
Laranja na final? Todo mundo passou mal! Todo
mundo de cá, porque de lá(ranja), só alegria. Alegria
geral, alegria na geral, alegria fatal! Ora(nge)nte! Tá com sede?
Bebeu água? Não? Tomo guaraná? Suco de caju? Não!
Suco de laranja!
Murchos, coitados, nem quiseram falar. Cada um
voou para seu lugar. Comemorar o quê? A gente até quis
torcer, né? Mas já sabia, ou não sabia, minha gente?
Ficou pra outra vez. Quem sabe, aqui no Brasil?
Mas com gente séria, que tá a fim de jogar. Se não:
não dá!
Nosso consolo: los hermanos! Foi a glória.
De 4 a zero. Não poderia ser melhor! E as expressões?
E as feições no final do jogo? E que jogo! Os branquinhos
incansáveis, correndo atrás da bola. 3 a zero, jogo ganho?
Não! Correram mais, até o último segundo: luta.
Nessa tal de globalização e numa
festa como essa em que as nações se enfrentam para uma
guerra do bem, acho que temos muito que aprender com outros países.
Bem-vindos de volta ao mundo real!
Antonio Luceni é mestre em Letras
e escritor, membro da União Brasileira de Escritores –
UBE.
* Luceni
escreve neste espaço toda semana.