TEXTOS DO AUTOR

 

GALERIA DOS ENTREVISTADOS

2010

 

2008

 

 

TEXTOS

 

de

 

ANTÔNIO LUCENI

 

 

 

Setembro de 2010

VIDA, MINA A SER EXPLORADA

Sempre tive pavor de lugares fechados. Não permiti que se instalasse em mim a claustrofobia, mas me incomoda muito a ideia de ficar fechado em qualquer lugar que seja: elevador, sala de escritório, sala de espera ou coisa assim.

Evitei por anos andar de avião. Esse negócio de coisa fechada, quinze mil metros de altura e mais de oitocentos quilômetros por hora é para super-heroi de histórias em quadrinhos.
Sempre que ouvia o nome do mais conhecido livro de Júlio Verne, Vinte mil léguas submarinas, ficava imaginando a cena. Aliás, a bem pouco tempo tivemos notícia de um submarino que teve problemas mecânicos e, infelizmente, levou à morte toda tripulação.

Dias atrás nos deparamos com a notícia dos trabalhadores de uma mina de ouro no Chile que se encontram na mesma situação. Presos numa profundidade de 700 metros – todos bem, graças a Deus – ficarão por lá por até 4 meses.

Que situação...

Enterrados vivos, buscam pela vida. Como no mito clássico de Platão, estão sob treva e desejam ver a luz. Noite? Dia? Não sabem... Mas o período é grande e devem restabelecer rotinas, driblar o medo, a angústia, a expectativa... Terão que tolerar uns aos outros. Unidos deverão permanecer para que, no apoio mútuo, consigam superar todas as intempéries.

As famílias, acampadas, esperam por notícias. Também em união dividem a dor da separação, tentam, mesmo fora e distantes dos entes queridos, transmitir energia, força, ânimo... Também tiveram que mudar suas rotinas. Tiveram que se adaptar à nova cena que lhes foi imposta.

Quanta coisa a aprender, não?

Quantas vezes não estamos afundados, também, em problemas e nas dificuldades diárias e precisamos nos apoiar uns nos outros para conseguirmos continuar caminhando? Quantos momentos estamos na escuridão e precisamos de uma ponta de luz, por menor que seja, mas que traga um pouco de esperança? Quantas famílias estão irmanadas por compartilharem dor semelhante?

Noutra ponta, o que é preciso acontecer para que nos juntemos para um bem comum? Quando tiraremos nosso traseiro da cadeira e nos colocaremos sob vigília para que alcancemos objetivos bons para a coletividade? O que será capaz de nos tirar da situação de comodismo e morbidez e nos encaminhar para acampamentos de solidariedade, fraternidade e justiça? O que será preciso acontecer para que valorizemos as pessoas que estão à nossa volta e que, às vezes, passam como transparentes por nós?

A vida é ouro. Mina a ser explorada cotidianamente.

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

* Luceni escreve neste espaço toda semana.

 

ELEIÇÃO NA FLORESTA

Este ano é ano de eleição na floresta. Momento importante para todos definirem quem irá comandar o grupo nos próximos quatro anos. Uma assembléia foi convocada pelo Leão. E quem foi dar a notícia foi a D. Tartaruga, mas com ordens severas: apenas para alguns bichos, já que, por conta da lerdeza de D. Tartaruga “não daria” para convidar a todos.

Bichos reunidos, o Rei Leão passou a fala aos candidatos.

Quem primeiro se apresentou foi o Curupira. E não quis saber de brincadeira, não. Já saiu entoando bem alto o seu slogan para que todos o gravassem bem

- Para a floresta continuar andando pra frente, Curupira presidente!

E todos aplaudiam, e todos festejavam... O candidato falava bem, era popular entre os habitantes da floresta. Mas alguém, lá no meio do povo, observou um detalhe: a natureza do Curupira era a de andar para trás. Por que estava dizendo aquelas coisas, então? E por que os outros bichos não prestavam atenção no que o candidato dizia e se levavam apenas pelo falatório?

Em seguida, veio uma candidata. Era novidade na floresta. Por muitos anos somente bichos do sexo masculino reinavam por ali. Ela tinha pressa, já que não podia ficar por muito tempo fora d’água.

- Vocês já me conhecem porque quem me ouve nunca mais me esquece. Um grito daqui, outro de lá, não adianta resistir porque eu vou te pegar! Meu canto é doce, minha boca também, Iara é meu nome, quero ser teu bem!

Uma voz sedutora, um canto sedutor. Assim, a Mulher-Iara já estava arrancando os corações dos marmanjões, quando o Saci se intrometeu.

- Vamos parar de ladainha, vamos parar de blá, blá, blá... nosso objetivo neste dia é escolher em quem melhor votar. Esse canto é lindo demais, eu também quase caio nele, mas como moleque levado que sou, não caio em qualquer converseiro.

Cheio de rimas para poder provocar, o Moleque Saci saiu a argumentar.

- Seu Curupira, não me leve a mal, mas essa sua conversa é tão mole que já tá fazendo o boi dormir. Onde já se viu? Querer o bem do Brasil não é somente falar, tem que mostrar serviço. Há tantos anos no poder, e o que o senhor fez? Sua única responsabilidade era proteger a floresta. E olha aí? Tá quase toda desmatada. Fiquei sabendo que o senhor anda de conversa com uns tais grileiros...

- E você, Mulher-Iara? Sei que é boa de conversa (e de outras coisinhas mais!), mas na hora do vamu vê, pula do barco e deixa a gente a ver navios.

E a assembléia começou a pegar fogo com a chegada do Saci. Sua fama de bagunceiro e arruaçador estava mais do que comprovada. Era réplica daqui, era tréplica de lá e ninguém queria saber de parar... Até que se ouviu um uivado no meio da floresta. Todos pararam e ficaram escutando. Quando de repente...

- Vamos parar com essa bagunça aqui. Quem é o mais corajoso da floresta? Quem é que deixa caçador e grileiro com os cabelos em pé? Quem é que se mistura com os humanos e passa despercebido e, à noite, à meia-noite, volta para colocar as coisas em ordem? Eu, é claro!

O Lobisomem não deixou por menos.

Depois, veio o Boitatá, que de cara foi chamado de mentiroso pelo grupo, já que de boi não tinha nada, era uma cobra! A Cuca quis se pronunciar, mas não teve a menor chance. Disseram que o lugar dela era no Sítio do Pica Pau Amarelo.

Depois de muita discussão, decidiram: a floresta era um lugar democrático, por isso todos podiam ser candidatos.

E a primeira a votar foi a Mula-sem-cabeça. Disseram que ela votou num determinado candidato só porque ele tinha lhe prometido um chapéu. É mole?!

Mas que ela vai ganhar um chapéu, ela vai! Ah, vai!

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

* Luceni escreve neste espaço toda semana.

 

21ª BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO

- UM MARCO EM MINHA VIDA

 

UBEDe 12 a 22 de agosto, em São Paulo, acontece a 21ª edição da Bienal Internacional do Livro, uma das mais importantes do mundo. O evento é integrado por diferentes ações, que vão desde palestras, mesa de discussão, apresentações culturais, lançamentos e compra de livros, além de contato com livreiros, editoras, escritores, ilustradores e muito mais.

Há espaços e atividades para os mais diferentes públicos: crianças, jovens, adultos, idosos, professores, gestores escolares, intelectuais das mais variadas áreas e gente simples, que curte uma boa leitura.

Sábado, dia catorze, estive com um grupo de colegas da Secretaria Municipal de Educação de Araçatuba e alunos dos cursos de Pedagogia e Artes Visuais da Faculdade Uniesp, Birigui. A maior parte presente pela primeira vez numa Bienal de Livros. No final, perguntei se gostaram, mas não era nem preciso perguntar. Todos estavam com sacolas cheias de livros e muitas histórias para contar.

Na ocasião, também, lancei dois de meus livros e, junto com as escritoras Marilurdes Martins Campezi (Lula) e a Wanilda Borghi (representada), tomamos posse do Núcleo da União Brasileira de Escritores – UBE em Araçatuba e região.

Foi um momento particularmente especial para mim. Eu que há muitos anos venho acompanhando a Bienal de Livros como visitante estive presente neste ano como colaborador do evento. Receber o crachá de escritor e ser empossado coordenador do Núcleo UBE em Araçatuba foi um dos melhores presentes que recebi até hoje.

Ficava feliz sendo acotovelado e “atropelado” nos corredores do Anhembi e nos estandes das editoras. Causava-me emoção ver tanta gente sentada, debruçada num balcão, em filas enormes de caixas para folhear, ler e comprar livros.

Fico feliz de verdade quando vejo tanta gente se alimentado de arte, se humanizando por meio da literatura, da música, do teatro, do cinema, da pintura... Isso significa que quanto mais acesso pudermos dar às pessoas para que usufruam de bens culturais, tão mais mergulharão nesse prazer.

“É no mundo possível da ficção que o homem se encontra realmente livre para pensar, configurar alternativas, deixar agir a fantasia. Na literatura que, liberto do agir prático e da necessidade, o sujeito viaja por outro mundo possível. Sem preconceitos em sua construção, daí sua possibilidade intrínseca de inclusão, a literatura nos acolhe sem ignorar nossa incompletude.”

É com as palavras do escritor Bartolomeu Campos de Queirós em seu “Manifesto por um Brasil literário” que gostaria de encerrar este artigo. Também na esperança de que TODOS e TODAS que trabalham com Educação, com Arte, com formação de pessoas entendam e deem valor ao trabalho com as artes de modo geral e, mais particularmente, com a literatura, isto é, a arte da palavra. Afinal, somos todos PALAVRAS.

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

* Luceni escreve neste espaço toda semana.

 

SARAMAGO PARA O CORPO E A ALMA

José de Sousa Saramago nasceu em Portugal em 1922. Era para ter sido registrado com o mesmo nome do pai, mas o tabelião acrescentou o apelido que o deixaria conhecido no mundo todo: Saramago, que também dá nome a uma planta que serve de alimento para os pobres em tempos difíceis. Aí, as disgressões de sempre:

a) Desde o início estava fadado a agir do lado mais fraco, o lado da precariedade da vida. Se saramago era ração para pobres, Saramago também o foi. Eu que sou plebeu, que não tenho pedigree, vira-lata cultural e intelectual. A mim me interessa a piadinha do boteco de esquina aos mais cátedros níveis intelectuais. Saramago serviu para matar minha fome.

b) Meu Deus! Mais uma vez essa: literatura como alimento para famintos. Lembro-me de seu Ensaio sobre a cegueira. Quase fiz par com a multidão de zumbis do livro, tal forte e eficaz a estrutura do texto sem paragrafações, travessões ou quaisquer outros artifícios linguisticos que contribuissem para uma leitura às “claras”. Mas a esperança apareceu no final do túnel (vindo de um amuado, um final surpreendente).

c) Na possibilidade de os menos afortunados se colocarem na vida e se fazerem escutar por meio da literatura. Assim como milhões de brasileiros, Saramago era de origem humilde, quase não pode cursar uma faculdade e seu primeiro livro, segundo informações ventiladas na mídia, conseguiu aos 19 anos, com dinheiro emprestado de um amigo. Quanta demora para um encontro com algo que faria parte da sua vida e morte (ele estava lá, nas mãos de alguns em meio à multidão, se despedindo de seu criador. Agora, é a criatura que irá continuá-lo).

d) Um comunista, um revolucionário que usou de uma arma tão eficaz a ponto de censurá-lo em seu próprio país e, mesmo não sendo formal a postura, o exílio foi sua melhor opção. É, a palavra é penetrante e eficaz como uma espada de dois fios. Livros seus foram proibidos (mas o homem escrevia ficção, minha gente). Quem tem medo de lobo mau?!

Fiquei pensando nessas coisas. Fiquei pensando o quanto saramago faz bem pra gente. Fiquei pensando o quanto Saramago teria deixado falta se não passasse por aqui. Agora, está noutra parte do universo provocando, observando tudo, quem sabe escrevendo um novo livro? De uma coisa podemos estar certos: vai continuar alimentando muita gente. (20/6/2010)

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

* Luceni escreve neste espaço toda semana.

 

EU PRATICO LEITURA

Entre os dias 4 e 8 deste mês tivemos mais uma edição da Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP, no Rio de Janeiro. Desde 2003, a FLIP tem recebido importantes nomes das literaturas brasileira e internacional para lançar livros, discutir ideias, propor situações diversas sobre os mais diferentes temas e interesses culturais, sociais, intelectuais e outros “ais”...

O nome já algo atraente, não é mesmo, estimado leitor? Perceber o contato com a literatura como uma “festa” – que de fato é! – traz uma série de outros pensamentos: antes da festa há que se organizar tudo: o cardápio, os convidados, o local para acomodar todo mundo, as cores, os sabores e os sons de tudo que vai estar na festa e, de forma mais objetiva, a festa, propriamente.

Ainda não tive oportunidade de participar de nenhuma edição da FLIP. Sempre que penso em estar lá, acabo envolvido com algum outro compromisso que me impede. (Coisas de escola). Fico como aquele cara ou menina que tá doido(a) pra se aproximar de uma paquera, mas só fica de longe, espiando... Uma hora o “beijo” acontece.

A partir do dia 12 e até 22 de agosto teremos a 21ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Dá uma alegria danada dizer este número, sabia? Ainda por cima sobre algo relacionado ao livro (impresso, principalmente).

Contrariando os catastrofistas e apocalípticos de plantão, o velho e gostoso livro impresso continua a fazer adeptos e a encher (do verbo fazer pensar diferente e melhor) nossos corações e mentes das mais fantásticas e inebriantes sensações... Rompendo fronteiras, quebrando tabus, intercambias culturas e pensares, propiciando encontros...

Da Bienal de São Paulo sou freguês antigo e comigo levo todos os anos amigos, alunos... Em muitos casos, pela primeira vez. E sabe o que acontece? Se encantam também. (E olhe que nem precisa de 25 de março no roteiro, hein?!).

Eu sonho (e parafraseando Mário Sérgio Cortella, não deliro) com livros invadindo as vidas das pessoas em todos os espaços por onde circulam: escolas, igrejas, praças, shoppings, centros comunitários... Eu sonho que, no lugar de uma arma ou cigarro de maconha e pedra de craque, nossas crianças e adolescentes carreguem livros sob os braços, que em cada semáforo, ao invés de pedirem esmolas, participem de campanhas voluntárias de distribuição de livros de literatura para os que ainda não tiveram acesso a eles. Eu sonho que o entusiasmo das ideias – e quantas delas estão nas páginas brancas ou coloridas de livros – possa substituir a maquinação e planejamento do mal (sequestros, assaltos, desvios de dinheiro público etc. etc. etc.).

E não só sonho, faço minha parte nas aulas que ministro, nas palestras que profiro, nos artigos que escrevo, como estou fazendo aqui. Espero, também, prezado leitor, que você pratique o verbo “ajudar alguém a se interessar por leitura”.

Caminhemos...

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

* Luceni escreve neste espaço toda semana.

 

Julho de 2010

VÓ JANOCA E VÔ NEUZIM

Amanhã é dia dos avós. Aproveitando o embalo da data, decidi dedicar o espaço de hoje aos nossos queridos velhinhos. Parabéns àqueles que contribuíram para com nossa vinda ao mundo. Sintam-se abraçados por mim.

Q uero falar, também, da minha relação com meus avós. Vó Júlia e vô Mocim são os pais de meu pai. Com a vó Júlia, eu e meus irmãos, tivemos algum contato. Bem pouco. Éramos muito crianças e o máximo que fizemos foi atormentá-la, coitada, com diabrices. Na ocasião, estava em São Paulo para cirurgia de catarata. Já o vô Mocim, quase não nos relacionamos. Só meu irmão mais velho, o Lúcio, construiu uma afetividade mais profunda com ele. Os dois, hoje, descansam em paz.

Já os pais de minha mãe são nossos segundos pais. Desde que nos entendemos por gente temos contato com eles. Já chegamos a morar um tempo na mesma casa, na saudosa Chácara Piloto, no Jardim TV. Que tempo bom foi aquele. Trepar em mangueiras, goiabeiras e comer fruta do pé. Moer e tomar caldo de cana escondido. Chupar jabuticaba e comer caquis geladinhos, guardados por minha vó.

A vó Janoca e o vô Neuzim sempre estiveram presentes em nossas vidas, nos abençoando e contribuindo com nossa formação. Quantos apertos passamos na infância e esses velhinhos lá, nos ajudando. Criamos uma relação bastante forte. Acho que vamos continuar ligados sempre. Não vai ter nada que nos separe.

Adoro ouvir meu avô contando os causos dele. São história lindas que, se tiver oportunidade, irei escrevê-las um dia. Minha avó, sempre ali do ladinho dele, interrompendo-o para corrigir-lhe um nome ou data equivocada (não sei como ela guarda tanta informação e de modo tão preciso).

Já carregaram tantas coisas nas costas... lenha, lata d’água, trouxas de roupas ora para mudanças repentinas arrumadas pelo meu avô, ora para um açude ou poço próximo para serem lavadas, quaradas e estendidas em alguma cerca de pau sob o sol escaldante que rapidamente secava tudo.

Mas carregaram outras coisas também. Uma família inteira. Até hoje dão guarida para este ou aquele filho que precisar. Casa de fartura, sempre que alguém chega já lhe é oferecido um café, uma bolacha, um pão...

Já disse antes e não canso de repetir: amo vocês, vó Janoca e vô Neuzim. Deus os abençoe sempre.

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

* Luceni escreve neste espaço toda semana.

 

PARA LÁ E PARA CÁ

Para lá: a saudade de uma parte da gente que, ao longo do tempo, acabou nos cativando com risos e ransos, com delicadezas e rudezas, com saliva, com hormônios, com verdade e mentiras...

Para cá: sustento, dinâmica de vida, círculo de amizades (e desafetos também!), patrimônio (não muito porque o leão deixa pouco), outra parte da gente, apesar do convívio diário, procuramos não deixar virar rotina porque, como sabemos, esta nos cega.

Para lá: vez ou outra (uma ou duas vezes ao ano, no máximo), entre escapadas quase-férias, lacunas no corre-corre de ações que não param nunca... Novidades, nomes e pessoas desconhecidas, comidas e temperos diferentes (imaginem que um dia comi uma “cereja traveco”, feita de mamão).

Para cá: quase um GPS. Itinerários gravados, rotas praticamente automáticas, paisagens repetidas feitas figurinhas a serem trocadas, sabores e cores já vistos, as mesmas vozes, as mesmas queixas, as mesmas provocações...

Lá: uma utopia.

Cá: o mundo real.

Lá ou cá?
Os dois. Precisamos de ambos para o equilíbrio da vida.

O cá às vezes é o lá de alguém (ora bom ora ruim). E vice e versa, entende?

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

* Luceni escreve neste espaço toda semana.

 

FAMÍLIA

A Espanha é a campeã 2010 da Copa do Mundo. Pra não dizer que não falei...
Há algumas semanas estamos sendo bombardeados por, pelo menos, duas notícias que, no mínimo, servem para que pensemos em várias coisas; entre as quais: família.
Estou me referindo aos casos “Mércia” e “Eliza”. Nos dois casos, a família é o eixo da discussão. E se não é o centro, passa-se por ela. No caso “Mércia”, uma família presente, dedicada e corroborativa para pensar e elucidar o assassinato da advogada. No caso “Eliza”, famílias truncadas e, até certo ponto, desequilibradas, tanto por parte do algoz quanto da vítima.
A grande falência social, a meu ver, passa pelo âmbito familiar. E não estou defendendo aqui a forma tradicional de se enxergar ou se constituir família. Não. Estou propondo o (re)pensar de uma microssociedade familiar que pode (e pragmaticamente tem) optar por várias nuanças, sob múltiplas possibilidades...
Fui criado numa família muito simples, entre cinco irmãos e meus pais. Passamos por muitas dificuldades na vida: moramos sempre nas periferias das cidades onde vivemos, ganhávamos roupas e calçados, era comum reaproveitarmos cadernos e outros materiais escolares de um ano para outro, às vezes na mesa não tínhamos variedade para comer, ficávamos com o singular alimento que nos era oferecido.
Na contramão do cenário acima, sempre fomos muito unidos (e até hoje é assim). Tínhamos as discussões de praxe que todas as crianças e adolescentes têm, mas sempre nos respeitávamos muito. Herança que nos foi deixada desde cedo pelo meu pai Cícero e minha mãe Maria.
Em meio às adversidades da vida e a possibilidade de debandarmos para o lado ruim da sociedade – e os exemplos aqui são desnecessários – sempre optamos pelo caminho da honestidade, do caráter, da fraternidade. Talvez você pense, prezado leitor, que estou falando de sacrossantos humanos que beiram a angelical parcela privilegiada de escolhidos d’outro mundo. Talvez alguém ache um exagero falar de altruísmo, seriedade, ombridade e tantas outras coisas “fora de moda” e por vezes “piegas” nessa sociedade tão desconfortante (na ausência de adjetivo mais claro!).
Mas existem, sim. São importantes, sim. É possível, sim. Nós devemos acreditar que, para além das aberrações a que somos submetidos diariamente nos telejornais, é viável criar e educar filhos e pessoas num caminho de retidão e de gente de boa fé.

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

* Luceni escreve neste espaço toda semana.

 

DE VOLTA AO MUNDO REAL

Tudo parecia um sonho: arquibancadas cheias, gente também cheia de energia. Um pedaço de couro inflado. Homens de um lado para o outro sob uma perseguição sem fim, atrás de um objeto não muito valioso (ao menos do ponto de vista financeiro) como se estivessem a correr atrás de um frango para matar a fome (lembro-me da cena inicial do Cidade de Deus).
Por algumas semanas foi assim. Mudaram toda nossa rotina: bancos fechando ou abrindo mais tarde, ruas congestionadas em horário que nem era de pico ainda, buzinhas infernais (apelidas de um nome que mais parecia o diminutivo de uma matriarca) e estouros que ora nos faziam saltar da cadeira.
Os comentários eram sempre os mesmos: “Você viu, a gente vai chegar lá!”, “Nossa, foi chorado, mas valeu!”; e outros nem tão animadores assim: “Pura sorte!”, “Com um time desse, até eu ganharia!”...
O sonho que até essa altura era azul, agora estava ficando mais, digamos assim, alaranjado. E ele se tornou realidade. No começo: animação, entusiasmo, força... Depois, a verdade: o amarelo invadiu nossa gente. Todo mundo amarelou de medo. Então foi assim: azul x laranja = azul (1º tempo). Azul x laranja = amarelo de medo (2º tempo). Azul x laranja = laranja (final).
Laranja na final? Todo mundo passou mal! Todo mundo de cá, porque de lá(ranja), só alegria. Alegria geral, alegria na geral, alegria fatal! Ora(nge)nte! Tá com sede? Bebeu água? Não? Tomo guaraná? Suco de caju? Não! Suco de laranja!
Murchos, coitados, nem quiseram falar. Cada um voou para seu lugar. Comemorar o quê? A gente até quis torcer, né? Mas já sabia, ou não sabia, minha gente?
Ficou pra outra vez. Quem sabe, aqui no Brasil? Mas com gente séria, que tá a fim de jogar. Se não: não dá!
Nosso consolo: los hermanos! Foi a glória. De 4 a zero. Não poderia ser melhor! E as expressões? E as feições no final do jogo? E que jogo! Os branquinhos incansáveis, correndo atrás da bola. 3 a zero, jogo ganho? Não! Correram mais, até o último segundo: luta.
Nessa tal de globalização e numa festa como essa em que as nações se enfrentam para uma guerra do bem, acho que temos muito que aprender com outros países.
Bem-vindos de volta ao mundo real!

Antonio Luceni é mestre em Letras e escritor, membro da União Brasileira de Escritores – UBE.

* Luceni escreve neste espaço toda semana.

 

 

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