TEXTOS DO AUTOR

 

 

ENTREVISTADO

 

RIBEIRO TENGUNA

 

RIBEIRO TENGUNA

 


01) Quem é RIBEIRO TENGUNA?

Tenguna: Ribeiro Tenguna faz parte da nova geração de autores angolanos, membro da Brigada Jovem de Literatura de Angola (B.J.L.A.), e do Grupo Experimental, da Academia Araçatubense de Letras.

Publicou os livros: “QUANTO VALE A VIDA DO AFRICANO” e “A ÚLTIMA VIRGEM”. Escreveu também poemas para rádios de Angola. Ficou em segundo lugar no Concurso Nacional de Poesia “Nação Coragem”, da Televisão Pública de Angola, com o poema “Nunca Vencerão Angola”. Algumas de suas obras estão em duas das mais prestigiadas editoras angolanas, algumas não podem ser publicadas em seu país de origem, devido a polêmica com que aborda certos assuntos. Participou da Antologia “Experimentanea 6”, não deixando de citar os textos que escreveu no Jornal Folha da Região. É especialista em Resolução de Conflitos, tendo se formado como Formador de Formadores em Resolução de Conflitos, pela ONG Centre For Common Ground In Angola. Uma fusão de duas organizações: Search for Common Ground, com sede em Washington DC, Estados Unidos da América, e o European Centre for Common Ground, com sede em Bruxelas, Bélgica. Com uma vasta experiência no campo da resolução de conflitos e criação de consensos, operando em vários países do mundo, como Burundi, Libéria, Serra Leoa, Ucrânia, Macedônia, Gaza, Jordânia, Turquia, Indonésia, Bélgica e nos Estados Unidos da América. Engajou, durante muito tempo, em trabalho humanitário. Conviveu e ensinou por vários anos senhoras carentes, ao dedicar-se como professor voluntário de alfabetização da ONG Alfalit Internacional, Inc., uma organização sem fins lucrativos, baseado em fé, que prevê programas para os mais necessitados do mundo em Alfabetização, Educação Básica, Pré, Saúde, Nutrição e da Comunidade de Desenvolvimento na América Latina, as Caraíbas, África, Portugal, e os Estados Unidos. Exerceu também as funções de Oficial de Projetos e Secretário Geral da ONG Acção Nacional para o Desenvolvimento da Evangelização (ANDE), no intuito de diminuir a mortalidade infantil e materna durante a gravidez, numa luta continua para partos seguros das mulheres angolanas. É, ainda, formado em Gestão de Empresas, Teologia e estuda Engenharia.

 

02) Antes de começar a falar do seu trabalho, o que o Sr. tem a falar da sua cidade?

Tenguna: Minha cidade é Luanda. Ela é diferente de todas as que ja conheci. A cidade é costeira e linda. O entardecer de Luanda é mágico. Nela encontramos o Miradouro da Lua, uma maravilha aos olhos de quem vê a formação de falésias que permite uma vista incrível sobre o mar angolano, principalmente ao pôr-do-sol. Em se falando de Araçatuba, digo que é uma pétala de rosa regada pelo rio Tietê.

 

02) Vou acrescentar uma palhinha aqui: E como é viver em um país AFRICANO?

Tenguna: Tenho dito que viver em um país como Angola é conhecer o bem e o mal. O bem porque Angola é um dos países mais belos do Planeta, cujas riquezas cultural e mineral são insuperáveis. O mal porque se quiseres conhecer um país onde a vida humana não é valorizada vá à África e à sua rainha, Angola.



03) O Sr. gosta mais de ler, de escrever, ou de desenhar e pintar? Por quê?

Tenguna: Já pintei na adolescência. Hoje gosto mesmo de ler e escrever. Porque considero a escrita um dom que Deus me deu, por acho mais fácil escrever do que pintar.

 

04) Quanto ao que escreve, o Sr. tem preferência por quais temas? Por quê?

Tenguna: Eu gosto de utilizar o livro como arma em prol da liberdade. Por isso escolho temas polêmicos para abordagem em meus livros. A razão para issoé que, como defendia José Saramago - Prêmio Nobel da Literatura em 1998 - “o livro não pode mudar a humanidade”. Eu concordo com ele, por isso escrevo para ajudar o ser humano a refletir sobre sua capacidade de maltratar o semelhante. Meus livros expressam os problemas da África, pois temos que lutar para que eles não sejam irreversíveis.

 

05) Com quem se identifica mais em suas obras? Por quê?

Tenguna: Machado de Assis, porque muitos que lêem meus livros e até manuscritos ainda não publicados dizem que escrevo como ele. Meus contos e críticas são vistos pelos especialistas como sendo de influência machadiana.

 

06) Como foi a ideia de começar a escrever?

Tenguna: Minha ideia de começar a escrever surgiu por acaso. Na adolescência. Eu estava apaixonado por uma moça, à quem me referi no poema: “Negra da Minha Infância”, no “Experimentanea 6”. A carta que escrevi caiu nas mãos do pai da menina e ele me chamou. E ao invés de ralhar-me, ele elogiou minha carta e disse que eu tinha potencialidades de ser um grande escritor. Na 8ª Série, eu fiz uma redação que intrigou meu professor. Ele me disse que eu deveria comparecer na sala dos professores. Quando encontrei-o, ele me perguntou se eu tinha plagiado minha redação. Quando o convenci que não, ele me elogiou e disse que eu seria bom escritor. Mas a auge da ideia, surgiu na época em que eu alfabetizava mulheres carentes e vendia livros no mercado. Eu lia muito nessa época. Quando percebi, já participava na Brigada Jovem de Literatura de Angola e na União dos Escritores Angolanos. Convivi com escritores consagrados, como o português Ricardo Manuel, John Bela, Avô Ngola e outros. Ricardo Manuel escreveu em 2004, no prefácio de minha obra: NAS RUAS DE LUANDA, O MEU ROMANCE (Editora Nzila), que: “Ribeiro Tenguna, com o tempo, que o ser jovem permite, poderá vir a ser um apreciável homem de letras, e, porque só o facto importantíssimo do ‘querer ser’ é já bastante e, também porque ser génio nem todos o conseguem. E andam por aí em buscar de lugar ao Sol! Aposto no Ribeiro Tenguna. Não pare!... O futuro é seu!” Outra pessoa me incentivou foi a minha crítica literária, professora de português, Drª Luisa Dolbeth e Costa. Com ela, dei meus primeiros passos

 

07) O que o motiva a escrever? Tem alguma mania ao fazer? Algum “cantinho” especial?

Tenguna: O que me motiva a escrever é a injustiça social. Foi pensando nisso que escrevi o livro “QUANTO VALE A VIDA DO AFRICANO”. Nesse vamos publicar os livros “OS DITADORES MAIS CRUÉIS DA HISTÓRIA DA ÁFRICA” e “O MENINO QUE QUERIA VER A COPA DO MUNDO EM ÁFRICA.” Não tenho nenhuma mania, mas prefiro escrever com uma máquina de datilografia e não com computador. Também gosto de andar a pé para refletir sobre o que escrever. E muitos assuntos são me revelados nos sonhos. Então, muito do que escrevo é uma mistura daquilo que sonho e a influência da rica cultura africana.

 

08) Com toda certeza o Sr. já ouviu críticas sobre o seu trabalho. Como as encara?

Tenguna: Já ouvi muitas críticas. Eu não considero muito a crítica de familiares e amigos, eles nunca nos falam a verdade. Quando se trata de meus livros, eu prefiro pessoas que critiquem as minhas fraquezas para melhorá-las. Mas todas as críticas, boas ou más nunca me abalaram, pelo contrário, sempre serviram como incentivo para melhor minha maneira de escrever. Eu aprendi muito com críticas, e tenho aprendido ainda.

 

09) Falando sobre seus trabalhos, como decide sobre os títulos?

Tenguna: Meus títulos nunca são definitivos. Mudo-os sempre ao decorrer do trabalho.

 

10) Como o Sr. estabelece uma relação entre o título e a obra? Por exemplo, em “Quanto vale a vida do Africano” e em “A última viagem”?

Tenguna: Em “Quanto vale a Vida do Africano”, o título como o conhecemos foi concebido no final da obra. O tema provisório era outro. Em “A Última Virgem”, idem. Em ambos os casos, escolhi a ideia centra de cada obra para o título.

 

11) Depois que coloca o título, em algum momento já quis mudar o título da apresentação? – como dos citados acima?

Tenguna: Mudei de título em todos os momentos.

 

12) Que reação (sensação) o Sr. tem ao ver o livro terminado?

Tenguna: O fim de uma obra não significa o “fim”. Meus trabalhos nunca terminam, sempre penso que devia ter feito algo mais.

 

13) A obra "Quanto vale a vida do Africano" teve inspiração em quê? Ou em quem?

Tenguna: Eu nunca me inspiro em pessoas. Apenas em “Nas Ruas de Luanda, o meu Romance”, fui inspirado pela Teca, personagem principal da trama. A obra “Quanto Vale a Vida do Africano”, não é fictícia. A história se baseia em acontecimentos verídicos ocorridos em África e Alemanha. Eu vejo uma situação verídica e pesquiso a respeito até fazer um trabalho consistente.

E na obra "A última viagem?" teve inspiração em quê? Ou em quem?

Tenguna: “A Última Virgem” é uma descrição dos tempos de guerra em Angola. E minha inspiração foi um tribo africana, os mucubais.

 

14) O Sr. ao preparar as suas obras tem em mente passar algum aprendizado?

Tenguna: O escritor português Ricardo Manuel leu minha intenção com as seguintes palavras: “Ribeiro Tenguna, anseia através da escrita transmitir mensagens salutares aos jovens como ele mas, desviados dos rumos certos da Vida”. Agora que estou amadurecendo, minha intenção é abordar temas que ajudem a minorar a situação de calamidade do continente-berço.

 


15) Como é o "retorno" por parte dos apreciadores da boa arte da escrita? Deixa-o satisfeito?

Tenguna: Sim, estou satisfeito. As críticas são boas. Mas estou sempre estudando para melhorar e agraciar meus leitores com novidades.

 

17 - O senhor participa de algum grupo de estudo ou associação cultural?

Tenguna: Sou membro da Brigada Jovem de Literatura de Angola. Sou também membro da JMPLA em Angola. Faço parte do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras. Sou professor da ONG Alfalit Internacional, Inc., e ONG ANDE. Também sou um dos líderes da Igreja Evangélica Presbiteriana Ebenezer e membro da Igreja Evangélica Luz para as Nações.

 

18) Aos estudantes, o que indica?

Tenguna: Livros: Bíblia Sagrada, Quanto Vale a Vida do Africano? de Ribeiro Tenguna, Muito Longe de Casa (Memórias de um menino soldado), de Ishmael Beah e do filme: As palavras que eu nunca te teria dito.

 

19) Qual recado deixaria aos leitores do site?

Tenguna: Que o medo nunca nos silencie.

 

20) Como se pode ter contato com o seu trabalho?

Tenguna: Meu trabalho está disponível no Google. Vários sites estão vendendo para África e Europa, o leitor brasileiro pode encontrar em:

BIBLIOTECA 24 x 7 - AMAZON

 

21) Para terminar a nossa entrevista, comente a frase: QUANDO O MEDO SILENCIA UMA NAÇÃO, ALGUÉM DEVE DIZER A VERDADE!

Tenguna: A frase: “QUANDO O MEDO SILENCIA UMA NAÇÃO, ALGUÉM DEVE DIZER A VERDADE!”, é um grito. É também um incentivo aos jovens africanos, cujos países são dominados por tiranos, e não só isso, é também um apelo dirigido a todos aqueles que estão sendo silenciados no mundo todo. Uma tentativa de dizer aos medrosos de que, o medo não deve nos transformar em covardes. E acrescento ainda, como disse o escritor angolano, José Eduardo Águalusa “... é uma expessão sobre a forma como o medo transtorna as pessoas, transforma as pessoas. Como o medo corrompe. Como o medo destrói as ligações de amizade, as relações familiares. Como as ditaduras e regimes totalitários utilizam o medo não apenas para submeter às pessoas, mas para as degradar. É uma frase sobre o medo"

 

Meus sinceros agradecimentos a Ribeiro Tenguna por atender ao meu pedido cedendo-me esta entrevista.

 

02/11/2010

Coordenação e realização: Prof. Pedro César Alves, Araçatuba/SP.

*

ABRAÇOS!

 

 




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