Julho de 2011
Leia a entrevista com Tânia Ganho Gomes da Silva
e, a seguir, o conto "Perfeita simetria":
01 – Nome completo: Tânia Ganho
Gomes da Silva, da cidade de Lisboa - Portugal, e participou com o conto
“Perfeita simentria”.
'Tânia Ganho Gomes da Silva, mas, como diz o
meu pai a brincar, "sou filha da mãe", porque só
uso o apelido Ganho, que é do lado materno. Embora tenha muito
orgulho em ser Gomes da Silva como o meu pai, sempre me identifiquei
com o facto de Ganho ser um nome inventado. Parece que um antepassado
meu, que se chamava Ganhão, resolveu um dia começar a
assinar Ganho (que se lê com o A fechado) e assim nasceu toda
uma família, que se espalhou pelo mundo fora. De vez em quando,
recebo e-mails de Ganhos de Angola ou do Brasil a perguntar se é
verdade que somos todos da mesma família. É muito divertido
e sempre me inspirou uma sensação reconfortante de pertencer
a uma espécie de tribo.
Nasci em Coimbra, mas a minha cidade do coração é
Lisboa. Preciso do Tejo, da luz branca e do mar para me sentir em paz.
E depois de ter vivido em cidades tão grandes e aceleradas como
Paris e Londres, aprecio cada vez mais a escala humana de Lisboa, que
tem tudo de uma grande capital, mas aliado ao ritmo calmo de uma pequena
cidade. Sinto-me em casa em Lisboa e, ao mesmo tempo, ainda vejo tudo
com o deslumbramento do turista.'
02 – Qual o motivo de escrever este conto? Escreveu com
a finalidade deste Concurso (ou não)?
Tânia Ganho Gomes da Silva: Este conto,
"Perfeita Sintonia", foi uma encomenda. Pediram-me para escrever
um conto sobre o amor, para publicar numa antologia, e eu dei por mim
a contar uma história sobre uma relação que era
tudo menos de amor, uma relação "instantânea",
como há tantas hoje em dia, em que tudo se passa à superfície,
nada vai além da fachada, da pele, da química. Escrevi
este conto para a filha que não tenho - se tivesse uma filha
adolescente, acho que esta é uma espécie de "mensagem"
que eu gostaria de partilhar com ela. Estranhamente, na mesma semana
em que soube que afinal a antologia não seria lançada
(o velho problema da falta de patrocínios), vi um anúncio
do Concurso de Contos de Araçatuba e tive uma intuição
muito forte de que devia enviar o texto.
03 – O que passará a significar esta premiação
em sua vida?
Tânia Ganho Gomes da Silva: Este prémio
teve um significado muito íntimo para mim, foi como que uma recompensa
depois de tantos anos a trabalhar muito e muito sozinha, longe do meu
país, fora do meio literário. Quando recebi a notícia
de Araçatuba, tinha acabado de fazer um balanço de vida
(aqueles balanços que toda a gente faz quando se aproxima dos
40) e chegado à conclusão de que a escrita é essencial
para mim, por isso encarei o prémio como uma confirmação
da vocação que sinto desde os 12 anos. Foi um empurrãozinho
para eu continuar a trilhar o meu caminho tranquilamente, mas com tenacidade.
04 – O que é ser um escritor? Dê uma palhinha
sobre o mundo das Letras...
Tânia Ganho Gomes da Silva: É
viver desdobrado, multiplicado, apropriar-se de todos os sentimentos,
explorar todos os "e se" do mundo, encarnar todos os sonhos
impossíveis, interpretar todos os papéis. É observar
tudo e sentir uma empatia profunda com os outros e uma distância
lúcida em relação a si próprio. É
sofrer e pensar "este sofrimento seria interessante para uma personagem",
como fazem os actores. É pôr gente viva em palco. É
dar vida.
05 – É possível já ter acesso ao
seu conto? Gostaria de vê-lo aqui publicado no site? – se
sim, envie-me.
Tânia Ganho Gomes da Silva: Claro.
06 – Tem algum livro publicado? Ou ideia de quando vai
publicar o primeiro/ou o próximo?
Tânia Ganho Gomes da Silva: Tenho três
livros publicados - "A Vida Sem Ti" (2005), "Cuba Libre"
(2007) e "A Lucidez do Amor" (2010) -, três romances
contemporâneos nos quais, através de histórias muito
íntimas, centradas em personagens femininas fortes, abordo temas
mais latos que me suscitam uma série de interrogações,
como o choque entre culturas, a violência doméstica, o
amor e a guerra, o medo. O meu próximo livro, que sairá
em 2012, intitula-se "A Mulher-Casa" e é sobre sentimentos
violentos, é um livro sobre paixões e pulsões.
Meu blog é SITE
DA AUTORA
PERFEITA SIMETRIA
Com um marcador preto traçou-lhe círculos
no peito, com um bisturi cortou-lhe a pele elástica e leitosa,
com um olhar apreciativo coseu-a. Quando ela acordou, fez-lhe uma carícia
nos cabelos rubros e explicou-lhe como seria a vida daí em diante.
Ela quis beijá-lo, mas não o fez, guardando-se para o
ex-amante, a quem serviria a sua metamorfose como um prato frio. Voltou
para casa com passinhos de gueixa, porque o seu centro de gravidade
mudara e ainda não encontrara o justo equilíbrio. Levou
a chave à porta e o esforço de levantar o braço
fê-la sorrir – sentia-se uma boneca presa a um marionetista
invisível. Passou as noites seguintes imóvel na cama,
contemplando a sua nova topografia, envolta em faixas brancas como um
busto de gesso. Poderiam expô-la numa galeria, agora, e Chris
seria o primeiro a aplaudi-la. A mulher artificial.
Adriana tinha queda por pés-rapados e oportunistas.
O homem que lhe deu um novo corpo foi o único que, em vez de
lhe pedir alguma coisa, se dispôs a oferecer-lhe tudo; ela, porém,
ainda não estava pronta para receber, primeiro tinha de ajustar
contas com o passado. Precisava de closure, um ritual para encerrar
definitivamente a sua história com Chris, que não era
pé-rapado, apenas oportunista.
Conheceram-se através de amigos comuns,
um casal de franceses que os convidou para uma festa em noite de Santo
António. Julie e Loïc viviam numa casa na Graça,
com paredes vermelhas e um pátio bordejado de flores. Adriana
passou o serão a conversar com Chris, cuja pronúncia de
Oxford a deslumbrou, além dos seus atributos físicos mais
óbvios: Chris tinha um tronco imenso e imberbe, de omoplatas
assimétricas, um corpo de 1,90m criado a duches frios, jogos
de râguebi e campeonatos de remo. Depois do jantar, Loïc
pôs um dos seus CD de techno e entregou-se a uma dança
desarticulada com Julie; Chris e Adriana ficaram a observá-los,
saboreando um vetusto vinho do Porto. Como a música estava muito
alto, ressoando na noite quente do pátio lisboeta, Chris sussurrava-lhe
ao ouvido. Tomada por um impulso, Adriana encostou as mãos às
omoplatas dele – uma subida e saliente, a outra retraída
e enviesada – e pousou-lhe um beijo no pescoço nu. Sem
a fitar, ele ofereceu-se à boca dela. «Descobriste o meu
ponto fraco», sussurrou.
O rosto de Loïc surgiu entre eles, embriagado.
Tirando as medidas ao decote de Adriana, perguntou-lhe, numa voz entaramelada:
«Os teus seios são perfeitos como parecem?» Adriana
fixou-o, séria. Inspirou fundo e compôs o rosto num sorriso
que se queria enigmático e confirmativo. Antes que Loïc
pudesse acrescentar alguma coisa, Chris arrebatou-a e conduziu-a para
o quarto de hóspedes. Deitou-a no colchão estendido nas
traves do soalho e, quando ela sentiu as mãos aproximarem-se
do decote, levantou-se, acendeu a luz ambarina do candeeiro e apagou
o foco clínico do teto. Fechou os olhos para não ver a
cara de Chris quando lhe despisse o sutiã e percebesse que o
34B afinal era um 32A, ilusão criada por duas bolsas de gel inseridas
nas copas. Os gestos dele interromperam-se por uma fração
de segundo. Adriana abriu os olhos e ele sorriu, abanando a cabeça
quase impercetivelmente. «Vocês e as vossas artimanhas»,
murmurou.
Para o calar, ela fez o que fazia sempre para
compensar a falta de formas: esmerou-se, provando que é bem verdade
que as mulheres perfeitas são monos na cama, e as imperfeitas,
despudoradas. Ele veio-se e ficou dentro dela, com o coração
sincopado a querer fugir do peito assimétrico, num orgasmo longuíssimo
em que Adriana o sentiu todo – cada espasmo, cada estremecimento
– como se o orgasmo fosse seu. Instantes depois, ela ergueu-se
para se vestir, mas ele puxou-a para os seus braços e disse:
«Fica.» Cobriu-a de beijos ternos como se fossem namorados
e não amantes recém-descobertos, sussurrando: «A
nossa simetria é perfeita.»
Quando, de manhã, ele acordou com o sexo
dentro da boca dela, afastou-a de si, levantou-lhe o queixo com um gesto
suave e disse, solene: «Vamos fazer um filho.» Adriana fitou-o,
aturdida. Com quatro palavras banais, Chris compusera uma frase que
a apanhou como o laço do vaqueiro apanha uma rês incauta,
e ela entregou-se à ilusão de que aquele homem era capaz
de amar. O seu cérebro, porém, era mais lúcido
do que o coração e, quando sentiu o sexo de Chris começar
a contrair-se para ir buscar o esperma, desencaixou-se dele num gesto
rápido e masturbou-o. Ele veio-se nas mãos dela e, em
pleno orgasmo, Adriana leu-lhe a perplexidade nos olhos.
Ela preferia a franqueza às falsas expetativas
e, durante um ano, acolheu-o em sua casa sempre que ele lhe enviava
um e-mail a dizer que ia a Lisboa, convencida de que, com o tempo, a
sua presença se tornaria indispensável e Chris a chamaria
para viver consigo em Londres. No final do verão, recebeu um
convite para um churrasco no apartamento dele, em Notting Hill. Quando
a excitação amainou, percebeu, frustrada, que era impossível
arranjar voos para daí a uma semana. Perguntou-se se ele teria
feito de propósito, enviado o convite sabendo que não
passaria de uma figura de estilo. Depois do dito barbecue, falaram uma
vez ao telefone e ela achou-o distante; provavelmente conhecera alguém
e estava nesse momento a dizer a outra mulher Vamos fazer um filho.
O contato reduziu-se, daí em diante, a SMS frios e formais.
Um dia, Adriana estava a almoçar à
frente da televisão, quando passou uma reportagem sobre o Dia
do Vinho do Porto. As imagens mostravam um grupo de estrangeiros rosados
sorrindo à beira-Tejo, em redor de cálices de tinto. Num
dos vivos, viu Chris em grande plano e, quando a câmara fez zoom
out, descobriu que, junto dele, se encontrava uma English rose. Estavam
lado a lado, sem se tocarem, mas havia uma intimidade de amantes –
namorados – entre os dois corpos. Como se tratava de um canal
de notícias, a reportagem repetiu-se de hora a hora. Chris estava
em Lisboa e acompanhado. Adriana pegou no telemóvel e enviou-lhe
uma mensagem: «You look great on tv, every hour on the hour.»
Ele ligou-lhe, explicando-se; ela respondeu: «Cresce e esquece-me,
Chris.»
Assim foi, durante meses. Até que voltou
a receber um e-mail dele.
Veste-se diante do espelho com
gestos lentos e premeditados. Exatamente a mesma roupa que levava na
noite em que ele lhe disse que a simetria entre os seus corpos era perfeita.
Quer criar um efeito de déjà vu, que ele a veja e diga:
É a mesma mulher, mas há algo que mudou. Tudo mudou, pensa,
olhando-se ao espelho. Inspira fundo e apaga as luzes. Quando sai do
táxi, à frente da Bica do Sapato, no Cais da Pedra, já
Chris está há meia hora à sua espera. Ele levanta-se
assim que a vê e fita-a com um olhar avaliador; os seus olhos
escorregam até ao decote e, por uma fração de segundo,
exprimem perplexidade. Ele estende as mãos e acolhe-a num abraço
apertado, ao qual ela se submete; o perfume de Chris continua o mesmo,
vertiginoso.
Adriana pede champanhe e os pratos e sobremesas
mais caros da ementa. A cada gole de Moët & Chandon, vê
Chris soltar os gestos. Quando a garrafa chega ao fim, ele ousa roçar
os dedos nos lábios dela, que o deixa gravar-lhe na boca as impressões
digitais. Os olhos dele perscrutam-na e Adriana quase acredita que é
a sua alma que ele quer penetrar e não o corpo. O chão
torna-se líquido e, quando ela julga que vai cair, Chris sussurra:
«Vamos para tua casa?» «Não», responde,
«um hotel.» A conta vem para a mesa e ela, que sempre se
ofereceu para pagar metade, pousa os cotovelos no tampo e fita o rio
escuro e espesso. Não mexe um músculo, apenas as suas
pestanas batem a um lento e triste compasso. Apanham um táxi
à frente da velha estação de Santa Apolónia.
Ele puxa-a para os seus braços, ela afunda-se nas proporções
de colosso, no calor da garrafa de champanhe que ele bebeu praticamente
sozinho. Chris costumava dizer, a brincar, que ela era um cheap date,
porque bebia muito pouco comparada com as inglesas; pois, hoje, não
é um cheap date. Os dedos dele acariciam-lhe ao de leve o braço
nu, num ritmo constante e encantatório. O taxista pergunta-lhes
o destino. Ela diz o nome de um hotel e, desta feita, o seu critério
não é o preço, a vingança, é simplesmente
o simbolismo do endereço: Avenida da Liberdade.
Chris pede a melhor suite – como se já
tivesse compreendido as regras do jogo e o preço que ela traz
inscrito numa etiqueta que arrasta pelo chão a cada passo –,
beija-a no elevador, abre a porta do quarto e afasta os reposteiros
para o lado, acolhendo o clarão de Lisboa. A cama ilumina-se
como o centro de um palco e a ópera que Adriana julgara cómica,
subitamente, não a faz rir. Sente-se engolida por uma tristeza
imensa. Ele beija-lhe o pescoço, as clavículas, o espaço
entre as clavículas onde o sangue lateja. Tira-lhe o top pela
cabeça e observa-a: o sutiã branco de renda que deixa
ver o peito à transparência, os mamilos que se oferecem
ao toque dele, a pele arrepiada. Desapertando-lhe o sutiã, dá
um passo atrás para a contemplar. Ela é uma estátua,
um busto perfeito numa galeria, e ele sorri, admirativo. «São
lindas», diz, e palpando as mamas que antes não existiam,
exclama: «São a tua cara.» E, de repente, Adriana
percebe que Chris está confuso, já não sabe como
se faz amor instantâneo, esquece-se de medir o pó, juntar
água, mexer… Envolve-a num abraço mudo e, numa voz
rouca, emocionada, sopra-lhe ao ouvido: «És extraordinária.»
Ela fita-o e, sentindo as lágrimas roçarem-lhe
as pestanas, abana a cabeça: «Game’s over, Chris.»
Ele não percebe. Observa-a, estupefato, enquanto ela pega no
sutiã e passa os braços pelas alças, aperta o fecho
atrás, veste o top e agarra na carteira. «Desculpa»,
diz, e contra todas as suas expetativas, o sentimento é sincero.
Dirige-se para a porta. Leva a esperança de que ele a retenha,
mas Chris permanece imóvel a meio do quarto, quando ela sai para
o corredor e deixa o passado nas suas costas. O clique da porta a fechar-se
é um derradeiro suspiro.
Apanha um táxi perante o olhar desconcertado
do rececionista do hotel e o desinteresse da mulher de leste que lava
o degrau da entrada. No silêncio denso das ruas que desfilam,
desertas, pela janela do automóvel, Adriana pensa no homem que
com um marcador preto lhe desenhou círculos no peito e, quando
ela acordou, lhe fez uma carícia nos cabelos e explicou como
seria a vida dali em diante. O homem que não queria cortá-la
com um bisturi, porque a achava perfeita como a natureza a fizera.
No dia seguinte, procurá-lo-ia. Estava
livre.
18/08/2011
Coordenação:
Prof. Pedro César Alves, Araçatuba/SP.
*



"Quem não lê
não pensa,
E quem não pensa será
para sempre um servo."
ESTOU
MUITO
FELIZ!
Copyright
Editor Prof. Pedro César Alves.
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