TEXTOS DO AUTOR

 

 

 

 

 

 

TEXTOS

 

de

 

JOSÉ HAMILTON

 

JOSÉ HAMILTON

 

 

Novembro de 2011

AVELHANTAR...

'Viver e não ter a vergonha de ser feliz', assim disse o poeta-cantor.
Mas envelhecer é perder o viço, avelhantar...perder a frescura.
Se bem que tem cada velho fresco por aí....
Uma vida é cheia de tudo; não é vida, quando falta o tudo.
O que é tudo na vida?
Acho que tudo se resume em viver cada minuto como se fosse o último, tendo anseios e tentar vivê-los e se não conseguir, substituí-los por novos. Continuar buscando aquele sonho. Como na seara, nem tudo se colhe, mas o que se tira dela sempre fortalece e ajuda a viver.
Cantar e cantar e cantar....
Perder o viço... Nada de perder o viço; conservá-lo sempre e há meios interessantes para fazê-lo.
Por exemplo: ter uma religião, mas nunca usá-la como uma apólice de seguros; tenha forças para enfrentar as vicissitudes da vida, nunca busque refúgio em nenhuma religião. Tenha uma como meio para alcançar forças e ajudá-lo na busca da felicidade.
Nietzsche disse que quando se olha o tempo como se olha um abismo, o abismo fica de olho em você.
Um erro que todos cometem na vida é procurar um geriátra quando atinge uma idade mais avançada. Há que se procurar um na mocidade, para que ele oriente sobre a melhor maneira de se levar a vida a caminho da velhice.
Penso como o João Ubaldo Ribeiro, este negócio de melhor idade é bobagem, eufemismo tonto: chega-se à velhice mesmo.
Os avanços na tecnologia, na medicina em seus mais amplos segmentos estão à disposição de todos para uma velhice plena de forças e felicidade.
Mais do que manter o seu corpo saudável, mantenha a sua mente. O resto lhe será dado por acréscimo.
Como manter uma mente saudável.?
Primeiro mantendo o corpo e este lhe dará o apoio necessário para lutar. Nas artes em geral você encontrará o alimento para a sua mente.
Não sabe pintar? Tente a escultura. Tem uma voz desgraçada de ruim? Aprenda a tocar violão ou outro instrumento. Na literatura se não gosta de ler, aprenda a gostar Não demora está fazendo poesia, escrevendo crônica ou conto, participando de concursos de literatura, recitando poesias em saraus. Dona Emília Goulart já ganhou concursos e escreveu livro. Está prontinha para a Academia de Letras.
Ganhadoras de concursos temos a Marianice Paupitz, a Wanilda Borghi, a Ana Zaher, o Anísio Canola.
Não vá para o além do combinado sem tentar; lute para ser feliz e quando for, vá com um sorriso no rosto. Coisa mais feia é defunto com cara de tacho.
Quer um exemplo: conheci uma senhora, viúva, à beira da depressão; nada a animava, a motivava. Um dia foi a um destes bailes de terceira idade arrastada por uma amiga. Na segunda vez não foi fácil convencê-la. Já na terceira foi mais fácil e assim...
Um dia, quando estava saindo para o baile, o filho gritou:
- Mãe, o Tião telefonou. Mãeeeee, quem é o Tião?
- Cuida da sua vida, moleque, mas que diabo!
E o filho viu a mãe indo lépida, com a bundinha arrebitada, ao encontro do baile...ou do Tião.
O sofrimento nos torna amargos, atrapalha a nossa saúde e, sozinhos, não conseguimos encontrar nossos Tiãos ou Tianas, que algumas vezes são escolhas pessoais que devemos fazer para viver com dignidade. A solidão, o estar só não se coaduna com o ser social que somos.
Hoje, no mundo, os idosos ultrapassam a cifra de 20% da população e não adianta Estatutos que lhes protejam se não sacudirem o lombo e entrarem na nova era que lhes é apresentada.. É preciso que os idosos sintam a necessidade de defenderem os seus direitos, lutem para serem respeitados
Lute, caso necessite, por um trabalho decente.
Não necessita?
Uai, corra atrás de um bailezinho mesmo que não seja lá estas coisas....será indecente se você quiser. Mas tudo bem, passa uns tempos no purgatório e zera a conta com Ele.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Outubro de 2011

ELA

Em busca de poesia
ela caminha.
Vai só e desprovida
de remorsos
Mas vaga entre escombros.
Não dá mais para voltar.
Ela sabe.
Sabe que a poeria da estrada
camufla...
Mas tenta preservar os sonhos.
Ela pressagia
que tudo pode acontecer
de repente.
Pode recomeçar
como um dia começou.
Sempre se sentiu tão segura
e agora
nao sabe o que fazer.
Para tirar dela esta agonia
só uma linda e terna
poesia.
A dor do amor no coração
desta mulher...
Coitada
chega a dar dó.
Tem medo de sonhar com
o impossível
como se com o possivel
fosse preciso sonhar.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Junho de 2011

HOMOSSEXUALISMO:

EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE OU ERRO DE DEUS?

- Nos dias atuais, muito se fala sobre os direitos das pessoas do mesmo sexo que formam um casal, de terem uma situação civil que lhes determinem direitos e deveres, já que proverão um patrimônio comum e deverão ter o respeito da sociedade à qual pertencem.
Não fora, acho, a situação vista pelo prisma religioso, não haveria maiores problemas posto que a sociedade se organiza por um arcabouço de leis que lhe oriente a atividade, a dinâmica social, a interação.
-Bem, mas quando se fala em casal se fala em família?
- Sim, fala-se em família e é só ver o que fala o mestre Aurélio: pessoas unidas por laços de parentesco, pelo sangue ou por ALIANÇA... ipso facto!
Mas voltemos às questões religiosas: elas dizem que Deus criou o homem e a mulher para que repovoassem a terra pela procriação e c’est finit. Tudo o mais é safadeza porque como dois.... um menino e uma “menina” poderão procriar?
Como pode ser safadeza?
Alguém, sabendo de antemão que viveria em uma sociedade sendo marginalizado, muitas vezes perseguido física e moralmente iria ESCOLHER ser homossexual?
Então o que há é muito discurso e em todos os tratados encontra-se o termo ACREDITA-SE ao invés do SABE-SE; realmente o discurso é diversificado e muitas vezes, falta-lhe lógica.
Assim para afastar-me da linha do acredita-se e aproximar-me da do sabe-se, enveredo-me pelas possibilidades levantadas pela ciência e opto por aceitar que a questão é genética; são fatores hormonais que determinam a atração sexual por pessoas do mesmo sexo. Ninguém foi capaz de determinar e isolar tais fatores e fica difícil falar em mutação ou evolução da espécie, mas Cristo, é o que há de mais lógico.
Há quem diga que Deus colocou um espírito feminino em um corpo masculino. Olha, se alguém provar que Deus é Corintiana eu acredito, pois só um danado destes poderia fazer tamanha sacanagem.
Na verdade, nenhuma das teorias para explicar o fenômeno possui raízes muito profundas, mas umas vão mais a fundo que outras. Assim, as explicações que levam a favor da predisposição genética são mais lógicas e passiveis de aceitação.
Existe o homossexualismo no reino dos animais e ai eu pergunto: eles escolheram, fizeram opção por morderem a fronha?
Pesquisas abalizadas mostram que entre os camundongos existe em grande escala e tudo indica que é para evitar a superpopulação. Melhor falar sobre por esse prisma científico do que vir com a prosa de que a ciência não explica o caso à luz da palavra de Deus.
Li de uma lésbica que os pais dela não sabiam da sua condição de homo e que sofria muito pela situação em que vivia, um tormento constante. De um amigo homo ouvi que ele, apesar de ter vencido as primeiras barreiras de rejeição, ainda sofre por não ser aceito em certas mesas. E escolheram viver assim, são safados?
Então, perguntar se uma pessoa tem o direito de ser homossexual me parece perda de tempo, pois ela seria de qualquer forma, tendo ou não direito. Logo, que ela seja com os seus direitos reconhecidos por lei.
Quanto menos o sujeito entende do assunto, quanto mais sem condição de lidar com as diferenças humanas, mais homofóbico ele é e quando a rosca aperta para valer, ele parte para o fundamentalismo religioso.
Como diz um amigo meu: se o meu padeiro me respeita e me entrega um pão muito gostoso, que diferença faz ele, o padeiro, ser vi... homo ou não. Homo é politicamente correto.
Para finalizar essas mal traçadas reitero que não se avalia o caráter de ninguém pela sua condição sexual e reitero mais ainda: não se trata de opção. Ainda acredito mais nessa do que em outra teoria, mas, aposto, é a única que está mais próxima da verdade, A ciência vai prová-lo um dia.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Junho de 2011

O PORTÃO

- Oi, você por aqui.
- Pois é, estava passando, vi você aí quietinho, resolvi fazer um carinho.
- Ah. Legal, obrigado.
- Como vai a vida?
- Nada muda. Sempre a mesma rotina. Daqui a pouco já estou longe de novo.
- Rotina? Andando pelo mundo, você vê a cada momento uma coisa nova, um fato acontecendo.
- Bem, é verdade. Outro dia havia um grupo de alpinista escalando o Himalaia, veio uma tempestade que não estava no programa e foi o caos. Mas vi atos de desprendimento, de solidariedade e de amor ao próximo que me deixaram sensibilizada... Justamente no meu turno de serviço. Só, meu amigo, que vejo também tanto desamor. Tem gente que pensa que fazendo amor, está amando. Ainda se fizesse um amor que prestasse!
- Você a tem visto por ai?
- Olha, por mais que preste atenção, não tenho.
- Onde ela se enfiou...
- Quando eu cheguei você estava pensando no que ou em quem?
- Mais no que do que em quem. Quando penso em quem, penso nela.
- Menino, não foi você mesmo quem escreveu aquela poesia 'Escombro', na qual uma voz diz baixinho: 'filho tire-a do ombro, pois é escombro, coloque-a no coração e vá ser feliz outra vez'?
- Foi. Fazer a poesia foi fácil. Tirá-la do ombro está sendo outros quinhentos...
- Você está com vontade de chorar? Então chora, já vi você chorando tantas vezes... Outro dia quase parei para um papo, mas você estava uma desgraça e eu não estava melhor. Só que eu trago as tristezas do mundo em mim, posto que as vejo sempre no meu caminhar. Mas você, meu amigo, sofre de tonto que é.
- Mas eu também estou achando você triste e quer saber, não sei a razão, uma vez que semeia a poesia e o amor nos corações enamorados.
- Criatura, a esta hora todos os dias, entristeço-me. Fim de jornada, sei que vou ser esquecida.
- Ah! Deixa mão de coisa. Nunca vi ninguém tão cantada em verso e em prosa como você.
- Mas diga: você não tem visto... Tem ou não?
- Que coisa de doido. Já não disse que, apesar de procurar, não a vejo. Até que gostaria de poder dizer onde ela está. Mesmo que estivesse entre os lençóis, cruzando os dedinhos dos pés com alguém. Quem sabe assim você criasse jeito e se arrumasse na vida.
- E você minha amiga, como tem se arrumado sem ele?
- Com as migalhas, como sempre foi... O desgraçado só aparece quando termina minha jornada. Leves e míseros carinhos que até chegam a me excitar, mas que.... Engolirei para sempre os meus orgasmos. Serão sempre só meus.
- Como diz uma pessoa da vossa literatura: “para isso caminhamos a vida inteira: para chegar ao lugar de onde partimos. E quando chegamos, é a surpresa. É como se nunca o tivéssemos visto”.
- Uai! Bonito, quem é a pessoa?
- É o... o... ah! sim: o Rubem Braga.
- Ah! tá. Só podia!
- Uai amiga, então é bom para você. Todo dia é um novo dia e assim a sua esperança se renova.
- Quer saber, estou com o sa... Perdão, estou com a paciência esgotada de ter a minha esperança renovada. Não preciso de esperança, preciso de uma boa noite só de amassos... Que seja só umazinha.
- Vichi, a coisa é mais grave... Vamos mudar de assunto.
- O que você está vendo de bom neste momento?
- Lá no sertão, um retireiro está indo tirar o leite das suas vacas. Leva o café quentinho que a patroa fez, também as peias, necessárias ao trabalho. Você sabe o que é uma peia, seu anarfa? Uma enfermeira termina o turno e caminha só pela rua indo para a sua casa. Está triste pois a paciente do quarto doze faleceu ao dar à luz... Mas ela fez o que pode e isso a conforta.
- Vejo ainda a professora Rita Lavoyer preparando uma palestra sobre bullyng... grande Rita! Olha lá o Ze Marcos Taveira já trabalhando no ciadosblogueiros com todo o carinho e o Beltrão afinando o seu violão.
- Mais o que você está vendo?
- Vejo um maridão preparando-se para o trabalho...deve ser bancário.
- Vai, conta, o que ele está fazendo.
- Mas você continua o mesmo safado de sempre... É isso que você está pensando. Prestasse e não dormiria sozinho.
- Falar em dormir sozinho, presta mais atenção por ai, quem sabe....
- Quem sabe eu não sei. Eu sei que desisto.
- Olha quem está chegando.
- Já percebi. Já deu sinal de vida há algum tempo. O filho da ... é bonito, sabe esquentar as coisas, meus hormônios entram em ebulição. Quer saber, xau. Quando ele aparece, “me voi” e assim será sempre... Vingo-me, levando comigo o romantismo da minha presença.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Junho de 2011

O PORTÃO

Se a memória não me prega uma peça, lembro-me que a primeira lição de uma aula de filosofia fala sobre a felicidade e à sua busca. Todavia essa busca implica em desenvolvimento.
O que é desenvolvimento?
Mestre Aurélio ensina que é crescimento, progresso e dá até um verbete: desenvolução. Nunca o ouvi na vida mas está lá.
É esse então o caminho especial que Deus nos legou para o nosso crescimento e por meio dele, alcançarmos a felicidade.
E o que é felicidade?
Recorrendo ainda ao mestre: ventura, contentamento, boa fortuna.
Então, para compreender as coisas, saber trabalhar com elas e ser feliz, é preciso um grau de conhecimento. Ter uma cultura que seja o bastante para que possa ser instrumento do desenvolvimento do ser humano.
Mas cultura não é apenas saber ler e escrever ou ser PhD em um segmento do saber, mas principalmente “estar inserido no complexo de códigos e padrões que regulam a ação humana individual e coletiva, tal como se desenvolvem em uma sociedade ou grupo específico e que se manifestam em todos os aspectos da vida: modo de sobrevivência, normas de comportamento, crenças, instituições, valores espirituais, criações materiais e outros”.
Não vendo na ciência um meio que supra suas necessidades, o homem busca respostas para as suas perguntas no esoterismo, no misticismo, pois segundo ele, nesses caminhos pode estar a explicação de todas as manifestações da natureza.
Então, à primeira vista, parece que o caminho é suave, sem fazer alusão à famosa cartilha na qual iniciei para chegar até a estas mal traçadas.
São amplas as alternativas que se oferecem a todos nós.
Mas então, como explicar o desencontro, a tamanha insensatez que parece ser as características mais marcantes do ser humano. Parece que ele tem prazer de se confrontar com a miséria do mundo, que via de regra, ele mesmo dá origem. A explicação repousa, a meu ver, no interior de cada um.
Não adianta adquirir toda a cultura do mundo se não houver a preocupação de respeitar-se. Somos únicos na face da terra mas vivemos em sociedade e estamos, assim, ligados por menos que queiramos.
Percebe-se que não existe caminho suave, não existe entrada sem fechadura e que algum portão, em algum momento, não se abriu para que o homem pudesse alcançar-se. A consciência é um guia e também a guardiã do portão; ele estará aberto ou fechado quanto maior for a consciência do homem quanto às suas responsabilidades para consigo e, como decorrência, para com os seus iguais.
Essa responsabilidade dependerá de cada um, do empenho e de como se enxerga. Drumond disse: “Mas se desejarmos fortemente o melhor, e principalmente lutarmos pelo melhor, o melhor vai se instalar em nossas vidas. Sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura”.
Ainda lembrando o grande escritor, a gente aprende muito no portão fechado.
Aprende muito mas a considerar o que se vê pelo mundo, tanta discórdia, tanta beligerância, tanto descaso de uns mais favorecidos para com outros e quanta falta de fé, fica-se sem saber se o muito preconizado pelo grande escritor possa ser o bastante.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Março de 2011

RECORDAR É VIVER

Eu hoje sonhei com...
Retornar, rever e ficar tomado por uma gostosa emoção... Mesmo que a princípio doa um pouquinho.
Seja a velha igreja da infância ou ao distante Líbano; eu também já vivi um momento assim... Acho que todos o vivemos.
Um dia resolvi abraçar o sacerdócio... Levado pelas mãos de um padre da cidade, eu e mais alguns meninos, fomos para o seminário diocesano de Lins.
Fiquei lá algum tempo e assisti às inúmeras transformações físicas que o imóvel foi sofrendo com o tempo. Lembro-me que ele era quadrado. Uma entrada que dava para um pátio onde não havia nada; à esquerda algumas salas de aulas e a capela. Na outra extensão, o refeitório e à direita, mais salas de aula, sanitários, uma mesa de pingue- pongue e o apartamento do padre que nos ministrava aulas de música e era o regente do coral de três ou quatro vozes que fazia sucesso nas cerimônias na catedral. No piso superior, dormitórios e o apartamento do padre responsável pela disciplina e professor de latim. O danado ficava a noite inteira matando gato, no bosque de eucaliptos que havia ao lado ou bem-te-vi, sentado nos braços da santa que mais tarde foi colocada em um jardim, feito naquele pátio vazio. Era estudar, praticar esportes e rezar. Sai do seminário. Mais tarde fui trabalhar na indústria farmacêutica, assumi uma supervisão de equipe e fui trabalhar em Lins.
- Ah! Vou visitar o velho seminário... Não era mais .
Entrei pela mesma portaria da minha infância. Adentrei ao jardim, já não tão bonito. A santinha ainda estava lá. Sei não, mas acho que ela piscou para mim. Revi tudo como se estivesse acontecendo naquele momento. Vi-me jogando futebol, saindo da capela ou entrando no refeitório, levando bronca por alguma peraltice, xingando o latim. Se já estava morto, o desgraçado...
“Vi” o Batistela, o Amantéa, o Ficoto, o Eusígnio, o Gomes, o Cláudio, que morreu sacerdote recentemente, também o padre Lino, o padre Kondó, o monsenhor Pazzeto, nosso reitor. O Joaquim, hoje meu cunhado.
Quando me dei conta, soluçava.
Percebi que alguém chegou atrás de mim... Ficou em silêncio por algum tempo. Nada disse.
Quando percebeu que estava mais calmo, colocou a mão no meu ombro e perguntou:
- As lágrimas são de tristeza ou felicidade?
Olhei, era um jovem padre.
- São de saudade. Aqui vivi um bom tempo da minha vida.
Ele me levou a ver... Melhor, rever tudo.
E fui embora, feliz da vida.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Fevereiro de 2011

CANTINHO DO CÉU

Um lugar bem assim,
verdadeiro pedaço do céu.
Deus nos legou isso, aqui.
Nele, eu tenho você comigo.
Passo os meus momentos contigo
e da vida, depressa, esqueço.
Ali, naquela relva macia,
protegidos do sol ardente,
Dei o beijo mais quente
que o homem, jamais deu.
Tocado pela beleza singular
amei você, como ninguém amou.
Vendo o pássaro no ninho
e no arbusto, a lebre escondida.
Na campina, acho, sentida
a lamentação de um xororó.
É toda uma poesia presente,
ali, bem no meio da mata.
E foi Deus quem escreveu.
Eu, apenas a declamei
encostado nesse corpo seu.
O momento, sim, foi curtinho
mas teve, da eternidade, o jaez.
Curti, ao seu lado, as maravilhas
com a maior que o bom Deus fez.
E, no embalo de uma paixão vivida
Zelei pelo sono seu.
Quando o lambari veio à tona
Para saber por quem a natureza parou
Viu um grande sorriso em seu rosto
E outro, no meu, muito bem posto
Éramos dois que Deus abençoou.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Fevereiro de 2011

PODER DA PALAVRA

Foi em GRANDE SERTÃO, VEREDAS que Guimarães Rosa escreveu que viver é perigoso.
Falar também pode ser.
Tem até aquele ditado que anuncia que quem fala o que quer, ouve o que não quer... isso, quando não recebe uma bala.
- Hein! Fala o que quer e ainda recebe uma bala, tá doido?
- Bala, do inglês Bullet, sua anta.
Alguém já disse que as pessoas não foram preparadas para escutar o que falam. São poucos os que “se escutam”; daí, o alto grau de desgraceira que o fato provoca.
Segundo o mestre AURÉLIO, palavra é a unidade mínima com som e significado, que pode, sozinha, constituir enunciado.
Ela pode sozinha anunciar lindas coisas, se houver a boa vontade das pessoas; assim, só usando verbos em ar: reatar, consolar, curar, educar, namorar. Todavia, se a pessoa não se escuta, podemos ter: destruir, desunir, mentir, denegrir...
A palavra pode fazer com que surja o amor, mas também o ódio.
Um grupo de palavras pode redundar em Ave Maria, gratia plena, dominus tecum, benedicta tui in mullieribus et...
Uma palavra sozinha: tramp, morra... mas pode ser: amor, querida, mamãe, filha...
Ela pode dar confusão entre pessoas e entre povos; ela pode dar prazer à vida e fazê-la menos perigosa. Basta que nos ouçamos antes de dispará-la, pois aí ela pode ser bala... não a de chupar. Pensar para falar é fundamental.
Rubem Alves, citando Guimarães Rosa diz que feiticeiro é aquele que diz uma palavra e, pelo puro poder dessa palavra, sem o auxílio das mãos, o dito acontece.
Entre os normais, quando a palavra é mal usada, acontece o dito e a desdita.
- Certo. Então o melhor é ficar de boca fechada, até porque, segundo consta, com ela fechada, mosquito não entra e ainda que o silêncio é ouro e finalizando, se falar fosse mais importante que ouvir, a gente teria duas bocas.
Mas falar é preciso.
Sobretudo nos dias atuais que compõem a chamada era da comunicação.
Nunca as pessoas se comunicaram tanto; a tecnologia favorecendo o falar, aproximou fronteiras e a distância está na tecla do enter.
Tem muita gente que se preocupa em falar bonito, quando deveria se preocupar com o pertinente, o correto; palavras de conforto e incentivo e fazer-se acompanhar de gestos e expressões que transmitam carinho. Quando houver motivo justo para um descontentamento, fazê-lo com parcimônia e respeito pelo próximo.
Apenas para não deixar de fora, nenhum lugar-comum, ainda temos o: é conversando que a gente se entende.
Mas não é somente falar, é preciso fazê-lo com coerência.
- Mano, o que é coerência?
- É conexão, harmonia entre as partes que compõem um todo, é a existência de um nexo entre os pensamentos.
- Ah! Tá. E o que é ênfase?
- Ênfase é energia, vitalidade, realce no jeito de falar; é triste ficar ouvindo uma voz monocórdica , como se estivesse em um Ora pro nobis...ora pro nóbis...
- Pois é mano, havia tudo isso, todos estes "trens" aí que você falou: energia, ênfase, realce na palavra adeus, no momento em que ela foi embora.
Não fosse o dom da palavra, quem sabe...

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Janeiro de 2011

NA NOITE... PASSOS

Na noite
as sombras das árvores
projetam-se nas calçadas...
Ouça:
passos lentos, trôpegos
...errantes
Levam
não conduzem.
Mesmo assim
são passos.
Só passos.
Um destino terão.
Se alguém esperar
muito melhor.
Não havendo...
Ouça,
lá se vão
os passos.
Alguém caminha...
Trôpego, errante.
Buscando,
sempre buscando,
incessantemente buscando.
O tempo?
Ah! o tempo
pode esperar.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Janeiro de 2011

CREIO SIM, ORA VEJA...

O que ser místico?
É ser crente; crer em uma religião ou em fenômenos e ainda em coisas sobrenaturais.
Bastou a razão não explicar e teremos um material para o místico se ocupar; geralmente ele buscará o entendimento crendo, acreditando em algo ou entidade que o ligue ao divino, ao sobrenatural.
Buscar explicação pela ciência não basta. Se a explicação não vem pela ciência, pelo saber, terá que vir de outra forma, pois sem resposta imediata, o místico não fica. Evoluir pelo conhecimento e pela compreensão gradativa que só a ciência propicia não se encaixa no amor maior, amplo, que o místico diz possuir e que segundo eles, carece aos demais.
O poder do ser humano me parece, se consubstancia no que ele sabe e não no que ele crê. O místico, todavia, vive mais em função do que ele acredita. Já ouvi dizer que todos somos místicos quando queremos a explicação do que nos cerca, quando queremos saber o porquê das coisas. Eu quero sim, saber, mas me valho da ciência, pois esta exige que aceitemos as suas leis, suas verdades provadas até aquele momento, coisa que as religiões não fazem. O dogma da Santíssima Trindade, acredita quem quiser. Eu, por exemplo, acredito.
- Uai! Então que diabo de conversa fiada...
Bem, eu creio, mas não é um creiiiiiiiioooo assim e a culpa é mais Dele que minha. Quem mandou que me desse o livre arbítrio, a inteligência e, sobretudo, me fizesse um fã daquele apóstolo que precisava ver para crer. Tudo é fruto de uma Deidade. Acreditei até que aparecesse um cabra, muito do safado, chamado Darwin. Bagunçou minha cabeça. Arrumou uma encrenca com a igreja, foi excomungado, depois foi perdoado pelo João XXIII que até pediu desculpas para a família dele.
Digo com sinceridade: gostaria de crer, sem reservas, integralmente...juro por Deus. E olha que sou ex-seminarista. Dizem que somos os piores...
De vez em quando me pego orando, sobretudo nos momentos de maior angústia e logo fico envergonhado e imaginando Ele me dizendo:
Uai Zé Mirto, você não vale a comida que come, só Deus, quer dizer, eu mesmo, tendo dó da sua alma.Não acredita piamente e vem agora com esta xurumela toda.Vai procurar o caminhão do qual você caiu, negão.
Acham que gosto desta situação?
Tenho do lado de lá, se é que existe mesmo um lado de lá, pessoas que me amaram muito e que assim, sabem da minha angústia, das minhas dúvidas...nunca vieram me avisar:
- Sujeito, toma tento.
E não é de hoje a história. Vem de longe.
Sabem o que Kami? É a parte insubstancial de uma coisa ou pessoa....é a nossa alma, acho. É por isso que quando a alma doe, não tem analgésico que dê jeito...ela é insubstancial.
Sabem o que prega o xintoísmo?
Prega o culto natural de mitos e lendas nas quais ninguém acredita sinceramente, mas veneram totalmente...pode?
Não é mais ou menos o que fazem....deixa pra lá, que já fui excomungado uma vez pelo bispo. Lembram da história da laranja, da faca e do garfo?
Não quero virar as costas para a herança cultural que recebi da minha família, para toda uma criação esmerada e até porque....e se é tudo verdade?
Chego no céu e faço ou falo o quê para o Homem? Digo que mesmo com a minha crença meia-boca, procurei fazer o que Ele pregou, vai bastar?
E pior, olho por cima dos ombros Dele e vejo o Consa todo pimpolho junto aos anjinhos e suas harpinhas, cantando Lenha e, reclamando, ouço:
- Uai sujeito, você foi Secretário da Cultura em governo do PT?

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Dezembro de 2010

CONSCIÊNCIA CÓSMICA

O que diz o Aurélio, não o Rosalino, mas o dicionário sobre o que vem a ser consciência: senso de responsabilidade, percepção, conhecimento... basicamente conhecimento.
E o que diz sobre Cosmos? Responde pura e simplesmente: universo. Curto e grosso. Mas o Wikipedia traz mais algumas coisas, tais como: um universo e seu conjunto, toda a estrutura universal, é a totalidade de todas as coisas ordenadas.
E o que estuda a Cosmologia?
É um ramo da astronomia que estuda a origem, a estrutura e a evolução do universo a partir da aplicação de métodos científicos.
Bem, o que é consciência cósmica, então?
Iluminação mística é também conhecida por consciência cósmica. Aquela é um dos principais objetivos dos estudantes de misticismo. Um estudante de misticismo, então, é um místico.
E o que é um místico?
O iniciado que alcançou o segredo foi chamado de místico.
Por definição é a prática, estudo e aplicação das leis que unem o homem à natureza e a Deus. Para estudo de Deus temos a Teologia e para ao que nos une à natureza, temos todas as ciências. Não estariam misturando tudo e fazendo um balaio de gatos?
Ainda não entendi o porquê de se considerar uma consciência cósmica.
Bem, li que um senhor chamado Richard Bucke chegou em casa, estava tranquilo e de repente se viu envolvido em uma nuvem flamejante e colorida. Em seguida, sentiu imensa felicidade e iluminação intelectual e isso marcou profundamente a sua vida. Daí em diante, passou a possuir uma nova faculdade chamada de Consciência Cósmica, ou seja, uma nova capacidade.
Como diria aquele locutor Milton Leite: Mééééééúuuu Déééééús!!!
No tal de Bucke apareceu esta faculdade e a teoria dessa corrente de pensamento diz que, no início, ela aparece em um só individuo. À medida que o tempo passa, outros vão adquirindo-na até que ao fim de milhares de anos, todos os indivíduos a terão.
To fu. Do jeito que sou azarado, consciência cósmica em mim... Jamais.
Que fique claro, eu sou criacionista-Deista. Assim como a Igreja Católica Apostólica Romana o é. Explico em resumo: tudo foi feito segundo a lei de Darwim, conforme narram as suas experiências e teorias mas, aconteceu pela vontade de um SER maior. Assim ficam felizes gregos e troianos.
Consciência cósmica tem a ver com ciência? Acho que não, pois no caso há suposições, achismos e que tais. Conhecimento é outra coisa. Eu não acho que dois mais dois totalizam quatro. Eu sei.
Reflexão é função do intelecto... estou tentanto, gostaria de entender sobre estas coisas, mas, quem sabe ainda não atingi, e talvez nunca o consiga, a iluminação.
- Hein! Eu? Babaca... ué, até pode ser.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Novembro de 2010

VELHO NO BLOG

Lugar de velho é ao lado do berço do neto ou com a tesoura e o regador, cuidando do canteiro de flores, no jardim... 'véio' no blog, definitivamente, não dá certo.
Falam em conflito de gerações e outras teorias que, no final, dizem a mesma coisa. Nada disso, não há conflito... Apenas separação de jeitos de ser.
Falando nesse tipo de comunicação, um senhor, mesmo com o espírito ainda de trinta anos, como eu, resolve abrir um blog para postar as suas crônicas, contos e poesias. Não se atem aos temas sisudos, compenetrados como deveria ser com um 'cabra' da sua idade. Aventura-se por assuntos, digamos, mais feceninos, justamente para ter acesso a esta geração mais liberal, menos comprometida com valores 'inventilados' – se o Maggi pode, eu posso também – e o que acontece?
Outro dia postei no meu espaço uma crônica, 'Só quarenta', com um final que sugeria uma bela cantada por parte da dama, coisa só possível em nossos dias, enfatizando a igualdade de direitos, mostrando que se há o interesse de uma mulher por um homem, ela também pode se insinuar. Mostrando ainda que não há mais posições fixas de caça e caçador, que a ação demonstrará quem é um e quem é outro no jogo da sedução.
Pois muito bem, uma linda e talentosa fofa disse, no comentário: "Oi, comenta lá no meu blog."
Ela nem leu o meu texto, nenhuma consideração fez, nada que tivesse sugerido que, ao menos o nome, tivesse lido.
Mas, se dúvida, leia os comentários trocados entre eles: "Oiii foooofa, qui chiqui!", ou então: "Ameeeeeeiiii!!!", também tem: "Nooooosssaaa, você aaaaaaarrraaasssouuuu!!!!"; não falta o: "Vvocê estááá bombannnndooo, querida!!!".
E entre pessoas mais maduras a gente tem que tomar cuidado. Ou você concorda com o que é dito ou cala a boquinha; você pode falar o que quiser, desde que concorde.
Temas polêmicos, que são os que dão margem à troca de opiniões não geram comentários pertinentes, não são esmiuçados a contento e, quase sempre, vê-se a superficialidade dos comentário.
Quantas vezes eu mudei a minha opinião por ter prestado atenção em uma que confrontava a minha.
- Ah! Então você não tem personalidade, é dos que mudam com facilidade.
Não mudo com facilidade, mudo com a força e a consistência da opinião contrária a minha.
Jovem não lê velho porque o papo desse não é Funk, noir, sepulturesco, havvy. Velho gosta mais de Silvio Caldas do que de Alice Cooper. Velho não lê velho porque se acha superior, mais gostosão da bala chita, mais intelectual.
Resultado: vou continuar com o meu blog e escrever só para mim. Afinal, mais lúcido e inteligente que eu....quem?

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Novembro de 2010

SÓ QUARENTA

Há quem diga que os tempos mudaram.... para pior.
Licenciosidade, liberalidade e afins, seriam as características do mundo de hoje.
Não acho. Para mim nada mudou porque na sua essência o ser humano é sempre o mesmo. Da msma forma que a Cleópatra deu em cima do Marco Antônio, a Lurdinha parte pra cima do Joaquim, da farmácia.
Ainda acho que a mulher de hoje é mais ousada e o homem mais atrevido.
Escuta, você já ouviu falar de Calígula, o rei dos bacanais?
Creso era um sujeito chegando aos quarenta, alto, forte e sobretudo usava uma camisa Armani e um cinto, combinando com uma capanga da Gucci. Não era moralista e, como se diz no MSN, disponível.
Sônia, alta, morena, boca carnuda, olhos verdes e com capacidade suficiente para perceber que ali estava a metade que lhe fora tirada por Zeus, naquela história contada por Platão em 'O banquete'. Aquela que conta o mito do narcisismo, fala de androgenia.
O encontro foi casual. Restaurante cheio, nenhum lugar para ela e Creso, sozinho, convidou-a para a sua mesa.
Depois daquele papo inicial, meio assim-assim, os temas foram ficando cada vez mais consistentes e quando deram por conta, estavam falando sobre comportamento humano.
Ela, advogada bem-sucedida e ele um psicanalista afastado da clínica, por precisar cuidar dos negócios da família. O pai, velho e doente, não poderia fazê-lo mais.
- Então, Sônia, a sua amiga Lurdinha não participaria dos bacanais do Calígula?
- Não tenha tanta certeza. De qualquer forma Cleópatra tiraria a roupa na frente de uma webcan?
Dando boas gargalhadas, esgotaram o tema.
- Vou chamar o maitre. Você já pensou no que comer? perguntou Creso.
- Acho que uma boa massa cairia bem.
- Eu estava pensando em um peixe, acompanhado de um bom vinho tinto.
- Creso, peixe com vinho tinto? Sempre ouvi que esse tipo de carne fica melhor com vinho branco.
- Em princípio, sim. Ocorre que se o tinto tiver baixa quantidade de ferro, não deixará o gosto residual amargo na boca. O vinho branco não tem o tanino do tinto, mas é a alta quantidade de ferro que constitui o problema.
- Nossa, você é um excelente gourmet. Como costuma ser a sua alimentação habitual?
- Não sou um glutão, prefiro comidas mais leves.
E conversando alegremente, chegaram ao final da refeição.
- Posso te levar para casa, Sônia?
- Ah! Que pena. Estou com o meu carro no estacionamento ali da esquina. O do restaurante estava lotado.
- Bem, então eu vou levá-la ao carro.
Ceso já estava entrando na garagem da sua casa, quando o celular tocou.
- É a Sônia. Queria te avisar que eu peso quarenta quilos.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Novembro de 2010

ÁI JESUS!

Língua danada essa nossa.
Perguntei outro dia, antes da realização do segundo turno, para um professor de Português, como ficaria se a senhora Dilma ganhasse a eleição para o mais alto cargo do executivo: teríamos uma presidente ou uma presidenta?
Eu já tinha ido ao pai... ao dicionário e visto o que diz o mestre Houaiss sobre o assunto e lá está que a palavra pode ser presidente para o masculino e para o feminino.
Li ainda que, segundo os assessores mais próximos, como Dilma sempre disse preferir a denominação presidenta, a regra deve ser esta e que a norma pode ser estabelecida em uma reunião da equipe.
E mais. Um senhor Fábio Arruda disse que presidenta é foneticamente feio mas que para agradar a madame, isso possa pegar.
Sendo um substantivo comum de dois o que definirá o termo é o artigo O ou A. Foi assim que a dona Areostina Pinheiro me ensinou... mas o Volp registra a palavra presidenta, tornando correta as duas formas.
Mas, porém que pode ser todavia ou contudo ou o próprio porém existe um senhor chamado Marcelo Onofre dizendo que no português existem os particípios ativos como derivativos verbais. Por exemplo, continua o Marcelo, o particípio ativo do verbo atacar é atacante; de pedir é pedinte, de cantar é cantante, o de existir é existente, e pergunta: qual é o particípio ativo do verbo ser? Responde: e ente.
Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade (lembrei-me do Heitor Gomes, ele tem entidade, ruim mas tem).
Diz ainda: quando queremos designar alguém com capacidade para exercer ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raíz verbal os sufixos ante, ente ou inte. Logo a pessoa que preside é presidente e não presidenta, independentemente do sexo que tenha.
Arremata: diz-se capela ardente, estudante, paciente, adolescente.
Pelo visto, não fica o termo a ser usado à mercê da vontade das pessoas. A ser assim, vira bagunça.
Nem bem tomou posse e já tumultua o coreto. Espero que fique por aí, senhora... Cristo! e agora?

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Outubro de 2010

POIS É

VERMELHO - ARAÇATUBAOuvir um mal informado, um infeliz de pouca cultura falar inverdades, até que dá para aceitar.
O que não desce é ouvir de pessoas de “fina stampa” uma avalanche de bobagens e dentre elas: Ah! Em Araçatuba não se faz nada pela cultura e quando se faz é para atender aos interesses de meia dúzia.
Nesse caso, tem mais coisa envolvida... e ela não é boa.
Vejamos uma coisa que não é boa: os interesses menores de políticos menores ainda. O pior é vislumbrar que eles poderão ser atendidos nas suas vergonhosas pretenções.
Quando foi que tanto foi feito pela cultura de Araçatuba, quando foi que os projetos buscaram atender aos interesses da classe menos favorecida, quando foi que ela foi levada tanto à periferia?
Como não sou um Emile Zolá, não farei aqui uma série de J”accuse mas um só: acuso certos políticos derrotados na última eleição de quererem vingarem-se do povo de Araçatuba e região, tirando-lhes senão o único, um dos raros secretários que realmente está lutando por ele.
Só espero que Deus ilumine mais ainda QUEM de direito para que não se deixe levar por esses coitados que só pensam nos seus interesses mesquinhos, até porque, de hoje em diante, eles pouco poderão oferecer, haja vista a “expressiva” votação que tiveram.
Então, a Culturaça, o Projeto Guri, o Curso de Balé, o Folclorata, a Semana da Literatura, os literatos ilustres que estão sendo convidados para palestras, os eventos musicais levados ao povo nos mais diversos locais da cidade, o incentivo aos músicos, artistas plásticos, todos os esforços na recuperação e modernização dos espaços de cultura; o Festara, que ora terminou e que trouxe magníficas peças, lotando o Thati Coc quase todos os dias, é nada?
Montar uma equipe competente e trabalhadora como a que existe, conhecedora dos mínimos detalhes em todos os segmentos para a administração de uma Secretaria de Cultura é nada?
PelamordeDeus!.
Demitir o secretário da Vultura e dizer ao povo de Araçatuba: 'Dane-se!'
E isso pode ser fatal, mormente considerando-se que nova liderança política mostra sua mãozinha fora da manga. E o “cara” é bom no que faz.
O povo de Araçatuba, sobretudo os eleitores conscientes que a cada dia aumenta de número, saberá dizer 'MUITO OBRIGADO' ao “quem de direito” se ele mantiver o seu competente auxiliar na administração e deixar que rolem pelo ralo da vida aqueles que só sabem fazer politicalha.
Dizem que político é aquele que faz de uma solução, um problema...
Merde! Não é que é mesmo...

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Outubro de 2010

IPÊ FLORIDO

Olha, o pé de ipê voltou a florir.

Talvez seja a natureza prestando uma homenagem à primavera. Ou seria...

Toshiro era um otorrinolaringologista prestando serviço na universidade; preparava médicos residentes. Retornava para a sua casa e viu a árvore plantada por Mariana, sua esposa, também médica.

Parou o carro no acostamento, fechou os olhos e...

Mariana, uma mulher suave, com um rosto simetricamente perfeito, recebera da sua avó um lindo anel de jade, que combinava com a cor dos olhos e sua pele morena. Transferiu ao mimo, todo o amor que sentia pela mulher que a criara.

Um dia, estando de serviço no ambulatório do hospital, notou que um paciente olhava insistentemente para o seu anel. Apesar de não ter dado importância ao fato, comentou-o em casa.

O esposo professava uma filosofia que pregava uma máxima que Mariana aceitou pelo amor ao marido: uma pessoa nunca deve ter nenhuma de suas partes separadas do corpo sob pena de procurá-la durante a eternidade.

Como poderia aceitar isso sendo médica?

Ela e tampouco a família deram importância à crença.

A ligação de Mariana com aquela árvore...

Sempre, ao ir para o trabalho, se despedia sorrindo do pé de ipê. Parecia que esse preparava um lindo tapete amarelo para vê-la passar.

Voltando tarde, depois de uma noite muito desgastante, ao dobrar a esquina, notou um corpo caído ao lado de uma bicicleta.

- Meu Deus! E agora? Presto socorro ou não?

Obrigada pelo senso profissional e retidão de caráter, desceu do carro e aproximou-se da suposta vítima.

Um único golpe e a sua jugular foi aberta.

Encontraram o corpo e nele faltava ... o dedo.

As diligências policiais foram difíceis mas, o mais complicado, foi que Toshiro queria encontrar o que faltava ao corpo para enterrá-lo completo, para que a alma da falecida não vagasse errante pelo tempo que não finda...nada.

O tempo passou e nele, o ipê não floriu.

Aquelas flores amarelas que enquadravam a residência, dando-lhe ares de uma pintura de Renoir, não mais apareceram. Pudera, a mais bela...

O médico-professor foi ao depósito buscar uma peça, que nada mais é do que uma parte do corpo humano, conservada em formol, para ilustrar uma aula de anatomia.

Na busca do que precisava, notou que dentro de um vidro estava um dedo, bem conservado.

Durante a noite sonhou com Mariana: 'Amor, aquele dedo no depósito é o meu.'

Sem se dar conta, estava em pé no quarto escuro. Chorando. De imediato correu para o hospital.

Os trâmites jurídicos para que entrasse na posse daquilo que significava a paz para a sua amada e ainda o deferimento à sua pretensão de exumação do corpo, foram difíceis. Afinal, a tese do patrono da causa, fugia à normalidade: Mariana precisa daquele dedo para completar o seu corpo e deixar de vagar por uma eternidade que mal começara.

Com a pertinente autorização legal, correu em busca do dedo... onde estaria? Havia sumido.

Mesmo em desespero, nada disse às autoridades.

O caixão foi aberto. Ao lado da mão incompleta, um dedo em avançado estado de putrefação.

Como o vidro do carro estava aberto, uma flor vinda do pé de ipê, trazida pelo vento, pousou em seus lábios... Será?

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Outubro de 2010

JESUS TE AMA...

No que passou pela porteira de entrada da fazenda, Luizão avistou a velha figueira. Sentiu duas coisas, simultâneas: um arrepio no couro cabeludo e... não é possível!

Capataz da fazenda Quatro Marcos, tinha aos seus cuidados uma turma de peões para cuidar das mais variadas atividades do empreendimento; tinha o respeito dos patrões e dos seus comandados.

Dona Esmeridiana, a patroa, gostava muito do seu funcionário. Sempre que o via saindo para a lida, acenava-lhe com a mão e dizia: 'Vá com Deus, meu filho, Jesus te ama.'

Imediatamente, Juvêncio, seu auxiliar, dizia:

- Que ama, ama. Mas ninguém sabe o porquê.

- Sujeitinho mais filho de uma...

Ocorre que Luizão, mesmo sendo responsável e competente no trabalho, era um glosador desmedido. Nada ficava sem uma piada de sua parte; ninguém escapava da sua boca maldita.

Era comum nas tardes quentes, depois do serviço, ficarem reunidos na frente da casa da fazenda, comendo uma carninha, acompanhada de uma pinga produzida ali mesmo, tocando uma viola e recordando os hits sertanejos. Nesses momentos, vocês que falam tanto em poesia, deveriam estar presentes... iriam, de fato, vivê-la.

Entremeando as músicas, sempre uma história "cabeluda”; ou era a tropa, que na guerra do Paraguai havia passado por ali ou era o “seo” Lurdinho, que tinha caído no poço e morrido aos berros que ninguém escutou.

Era aí que o Luizão fazia das suas. Mandava todos se calarem e dizia estar escutando, ou o berro do Lurdinho ou a marcha da tropa.

- Escuuutem, os soldados estão chegando...

E sempre havia algum tonto para “ escutar” mesmo o que ele alegava.

Um dia, Crispina, uma crioulinha danada e dotada por Deus de todas as linduras deste mundo foi buscar ovo perto do chiqueiro. Passando pelo poço artesiano escutou uma voz vinda lá do fundo: 'Crispiiiina, me dá um beijo?'

Ficou desmaiada “um ano”. Mais tarde, soube-se que o desgraçado do Luizão tinha entrado no poço para limpá-lo e ao sair, viu a aproximação da menina... Aprontou.

Sabe-se que jiboia não é cobra peçonhenta. Um dia, Marcão, o mecânico da fazenda, estava em baixo do caminhão trocando uma ponta de eixo. O capataz levado da breca, devagar, colocou uma daquela sobre a barriga do coitado. Até esse perceber que era uma cobra inofensiva, passou por momento de terror verdadeiro.

Assim, Luizão ia brincando com as coisas deste mundo e... do outro.

Um dia, Maneco chegou assustado, cavalo em desabalada carreira, ofegante. Tinha ido até à vila comprar umas coisinhas, ficou de prosa com alguns amigos e se atrasou. Ninguém gostava de chegar tarde na fazenda. Naquela figueira depois do mata-burro havia um “trem" qualquer.

- Patrão, ao passar pela árvore, senti que a marcha do cavalo ficou mais pesada. Tive a impressão que havia alguém na garupa.

Luizão escutou e sapecou:

- Foi aquele seu namorado que morreu o ano retrasado, Maneco. Ele veio fazer uma visitinha.

A turma glosou, Maneco xingou e vaticinou: vai brincando seu cabra safado. Um dia...

Mas que o quê. Ele não acreditava em coisa do outro mundo.

Luizão foi cuidar de outra fazenda do patrão no longínquo Pará. Ficou muitos anos sem vir até onde começara a sua vida.

Um dia, estava de férias e resolveu rever a antiga turma. Chegou na vila já tarde da noite e pegou o cavalo deixado à sua disposição. Estava ansioso para chegar à sede.

Vinha despreocupado, esquecido das velhas histórias, assobiando baixo.

Destravou a tranca da porteira, passou, tornou a fechá-la e...

Lá está a velha figueira! - exclamou.

Quando passava pela grande sombra da árvore:

- Vichi Maria! Valha-me Nossa Senhora!

Em seguida ao arrepio, o cavalo estancou a marcha e ele ouviu:

- Seja bem vindo, Luizão, Jesus te ama.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras..

 

Sembro de 2010

É QUESTÃO DE PERGUNTAR: ATÉ QUANDO?

Quatro da manhã levanta o cidadão
Queria um banheiro - banheiro: não tem não,
Tem privada de buraco... lava as partes com sabão
Sai correndo pra labuta.
E dinheiro pro transporte...
O coitado, não tem não!
Seus filhos vão pra escola pra comer: nunca tem pão!
E os panfletos tão na rua só falando de eleição...
O coitado tem certeza - melhoria, não vem não!
Tem voltade de apelar, mas se apega na oração
Inda bem que os seus pais sem dinheiro pra deixar
Llhe deixaram educação e, e apesar dos contratempos
Bandidagem? Não vai não...
E ste é o pobre retrato de um sofrido cidadão.

Mas é questão de perguntar: até quando?
Não se concebe que estes problemas não tenham soluções, sobretudo nos dias contemporâneos, nos quais as ciências alcançaram tão alto grau de excelência. É revoltante ainda ouvir dizer que para fazer isso ou aquilo é necessário que se tenha vontade política. Por que não tê-la, nunca a tiveram então? Cabe a pergunta, uma vez que os problemas são sempre os mesmos e as soluções são sempre as mais utópicas e distantes da realidade. Por isso, persistem. Vejamos a questão da educação. Quem não quer que o seu filho tenha acesso à uma boa educação? Mas o que se ouve é que educação não dá voto. Talvez por isso é que 3% das comarcas não possuam Vara de Infância e Juventude, mais de oitocentas mil crianças entre 7 e 14 anos de idade estão fora da escola e ainda se espera que até 2011 a frequência às creches chegue a 50% e 80% na pré-escola; estarrece ainda a informação que em muitas cidades o secretário da Educação não sabe qual é o orçamento para a sua propria pasta. Ah! estes números já diminuiram; pode ser, mas não desapareceram.
Segundo reportagem de revista semanal, municípios onde se gastou mais com educação, os prefeitos tiveram menos chance de se reelegerem ou elegerem seus sucessores. A que ponto chegamos. Bem feito para mim, para você e para todos nós.
Só um lembrete, o rap acima conclama a que se tome cuidado, quem um dia derrubou uma Bastilha, bem pode cismar de derrubar uma Brasília.
Hein! você votou direito? fez a sua parte? Não vendeu seu voto?
Hoje já somos muitos a fazer isso mas ainda é pouco. Quem sabe amanhã sejamos todos e aí o Brasil deixará de ser o país do futuro.... mas se este tênis novo no seu pé foi trocado pelo seu voto, que Deus te perdoe, porque eu quero mais é que você se dane!

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras..

 

Setembro de 2010

OUTRO

Uma estrela percorria o firmamento
Na planície verde, um jumento.
No quarto vazio, em um computador, outro.
Em outro, lendo um monte de merda
Outro...

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras..

Setembro de 2010

FELIZ NATAL

José e Cláudio, todos os anos, logo no primeiro dia das férias, colocavam as respectivas famílias nos carros e iam para alguma praia. Gostavam muito de ir para Florianópolis. Alugavam sempre a mesma casa na Lagoa da Conceição, quase ali onde a beira-mar se divide, uma indo para as Canasvieiras e a outra para a Joaquina. Como se diz: na boca do gol.

Um belo ano as férias vieram com certo atraso e tiveram que viajar no dia 24 de dezembro, véspera do natal. Saíram já pelo meio do dia e “se mandaram”, mas como íam com crianças e adolescentes, as paradas eram obrigatórias, o que atrasava a viagem. Era férias, não havia pressa e a alegria reinava.

Por volta das onze horas começaram a procurar um lugar decente para descansar e fazer a ceia natalina. Rodaram mais um pouco e minutos antes da meia noite viram um restaurante, típico de beira de estrada e: "é aqui mesmo né Zé".

- Vamos nessa!

Desceram, examinaram o local... meio esquisito

- Você queria o quê, o meu! Um Fasano aqui neste fim de mundo?

Não era bem o local, sua parte física... era mais os freqüentadores. Havia algo que, se não estava errado, também não estava muito explicado.

- Quer saber, é época de confraternização, de aceitação do próximo, de desarmar os espíritos.

Pediram lá o que comer e enquanto esperavam, ficaram se distraindo com as cervejas, que estavam bem geladas.

Tanto a filha de um quanto a do outro, já meninotas, foram ao banheiro e demoraram mais que o normal; quando já iam ver o que estava acontecendo, as duas apareceram maquiadas; uma maquiagem forte, típica das mulheres da vida airosa:

- Pô meu, que diabo é isso?

- Quem fez isso em vocês?

- Ah! Duas moças que disseram que somos bonitas e fizeram esta maquiagem na gente.

Para não ferir suscetibilidades, deixaram como estava. Assim que fossem embora, parariam para remover aquela desgraceira. O problema foi convencer a mãe de uma das meninas a esperar: elas estão com cara de biscate...

Enquanto discutiam o fato, o filho de um deles, aí por volta dos cinco anos, sem que os pais vissem subiu por uma escada e sumiu lá pra cima.

- Quem vai buscar?

- Eu não vou, vai você.

Vai você, não vou e de repente o menino desce:

- Pai, tem um homem e uma mulher pelados lá em cima, ele está em cima dela, apertando ela na cama e acho que está batendo na coitada...

O menino não tinha terminado a palavra coitada e as mulheres saíram arrastando tudo, jogando pratos e copos no chão na correria para o carro... morrendo de vergonha.

- Ah! Meu Deus. Praga de menino, ele não está matando ninguém.

- Uai pai, o que eles estão fazendo, então?

- Eles estão... estão... Já com a sua mãe lá no carro, coisa ruim!

Bem, alguém tinha que pagar as despesas. Houve uma certa demora, ainda havia pratos solicitados que não tinham sido servidos. Procurava-se a possibilidade de embalá-los para viagem, não havia esse tipo de atendimento.

- E aí, vão morar no rende-vouz agora, seus safados. Gostaram de alguma puta?

Os dois chefes de família, homens honrados, saíram sob os xingamentos das “meninas “ e as gargalhadas dos homens presentes. Puta que o pariu, vésp... que véspera que nada, no dia de natal. E o Jesus menino vendo esta desgraceira toda.

Culpado? Só se foi Deus. Quem poderia imaginar que a gente estava parando, para passar a virada de natal, em um puteiro...

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras..

 

Setembro de 2010

PALAVRAS DE AGRADECIMENTOS

É comum ouvir dizer que impera um mau gosto danado em relação às artes em geral, e à música, em particular.

Já li também que a população tem o que prefere, ou seja, nos restaurantes e locais de som ao vivo, impera o sertanejo e outros ritmos “menos nobres”. Como em arte não há juízo absoluto para julgamento, o que é bom pra mim, pode não ser bom para outro... então! Ocorre que o que é bom para mim, está difícil de encontrar... ou estava.

Estava, e não é só graças a Deus.

Os movimentos que trazem arte de boa qualidade estão num crescendo, que dá gosto de ver e o porquê é evidente: o povo gosta do que é bom e prestigia. Vários pólos irradiadores de cultura estão se movimentando e interagindo, o que dá mais força à causa.

A presença da Secretaria da Cultura nesse papel é formidável, como incentivadora e gestora de inúmeros movimentos pela cidade.

Não só nos eventos culturais do seu próprio calendário, como a Culturaça, realizados nos bairros da cidade, nos quais todos os segmentos da arte estão presentes, assim como o Folclorata, no qual o folclore de Araçatuba é mostrado à população. Ainda há outros. Também auxilia, dentro das suas limitações, outras atividades. Ainda recentemente, trouxe o duo formado por Euclides Marques e Luizinho sete cordas que apresentou choros, marchas, valsas e sambas, emocionando uma praça tomada por pessoas amantes da boa música.

Outro momento marcante foi a presença do grupo Raízes do Samba, mas samba de raiz, aquele que é eterno. São integrantes: Beltrão (violão e voz), Rafael (cavaco), Alex (percussão e voz), Antônio Carlos (pandeiro), Osmar e Chu (timba e voz). Apresentaram-se como convidados: José Soares, Deana Inazawa, Regina Rocha, Suelly Rodrigues. Comemoraram com brilhantemente o centenário de Adoniram Barbosa e Noel Rosa.

Outro grupo que conta com o apoio da Secretária da Cultura é o Amigos da Seresta, ainda sob a batuta do professor Beltrão e coordenado por Aurélio Rosalino. Nesse, além daqueles do Raízes, ainda Amauri Santos, Maria José, Daniele, Ana Lúcia, Elaine Alencar, Lúcio Colichio, Mario Eugênio, Marilurdes Campezzi, José Hamilton Brito e Antônia Andreoti. A apresentadora dos espetáculos do grupo é sempre Maria Lucia.

Dando incentivo e apoio a tudo o que se faz em prol da cultura, como sempre, a Folha da Região, a Ciadosblogueiros e o site Aracatuba e Regiao. A todos, obrigado.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras..

 

Setembro de 2010

CALA A BOCA, MAURICE...

Uma Academia de Letras tem a finalidade de cultivar a língua e a literatura nacional. Temos a nossa aqui em Araçatuba e os objetivos acima mencionados, ela luta por cumprir.

Fui buscar no discurso de Machado de Assis, no longínquo julho de 1987, a certeza de que os nossos acadêmicos procuram atender ao apelo que o grande escritor fez no seu discurso de posse, como presidente:

“Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles o transmitam aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira”

Fiat lux....lux, no caso, o Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Criador e criatura, hoje, esquecendo ligeiros e ocasionais percalços, se integram em cultivar a língua e a literatura nacional. Ultimamente, também a literatura “ da casa”, posto que diversos autores da cidade tiveram suas vidas e obras levadas às escolas na Semana da Literatura. O meu grupo, já no ano passado, falou da escritora Rita Lavoyer. Este ano, falamos de Marilurdes Martins Campezzi e de José Geraldo Martinez.

A meninada quis saber sobre eles, o que faziam, onde moravam, disputaram os seus livros e se entusiasmaram... parece que desconheciam que aqui temos os nossos escritores e que eles são tão bons quanto.

“os confrades e confreiras que, até agora, mais deram respaldo a Helio Consolaro nesta significativa obra que é o Grupo Experimental da AAL... foram Cecília Ferreira, Tito Damazo e Lúcia Piantino”.

Ainda estão presentes; mais diretamente Cecília Ferreira, Marilurdes Campezi, Yara Pedro e mais à distância, mas nunca negando uma palavra de incentivo e carinho os demais, dentre os quais, destaco por imperioso, o professor Tito, a acadêmica Maria Luzia Vilela, minha querida amiga e a minha também muito querida, professora Maria Aparecida Baracat.

Mas voltemos ao Maurice, que outro não é senão o Maurice Druon, escritor que escreveu o sanguinário Chat dês Partisans; o cidadão, na velhice, deu uma de machista, bombardeando a entrada das mulheres na Academia Francesa de Letras. Dizia que elas, se admitidas, fariam grupos “ tricotando” durante as discussões sobre o dicionário.

Mon Dieu! Não seria “ bunitinho” ver a Lula, a Cecília, a Yara, a Cidinha, a Pinhatino, dona Maria Luzia, fazendo os seus tricozinhos durante as reuniões acadêmicas?

Ainda bem que o Maurice perdeu a batalha; esteja onde estiver, o danado deve estar vendo o que estão fazendo as nossas acadêmicas.

...E Deo Gratias!

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras..

 

O QUE FAZER?

Trabalhou a vida inteira. Amava o que fazia; era uma atividade dinâmica. A competição, acirrada. Justificava-se tanta garra com a necessidade de ganhar o sustento da família. Havia, no íntimo, uma mola poderosa que o impelia cada vez a dedicar-se mais. Queria, na verdade ser o melhor. A estrela que mais brilhasse. Ser apontado como o de carreira mais promissora. Havia sempre dois ou três que deveriam ser observados, pois eram os que com ele mais competiam pelo lugar mais alto no podium. Não há quem não queira o sucesso e isso não é pecado. Colocar o produto no melhor ponto de venda, fazer a operação mais lucrativa e fazer convergir sobre ele os olhos admirados dos superiores. Ganhar os prêmios e comissões, chegar em casa e ver o orgulho estampado nos rostos da esposa e dos filhos. Quantas noites em claro, lutando para entender o desgraçado do tal de ciclo RAA, uma maldita de uma renina que sob a ação de um angiotensiógeno se tranformava em angiotensina um e que... puxa vida. E não soubesse essas desgraceiras todas pra ver. Mais era bom chegar nas convenções e ganhar o videocassete dado ao primeiro lugar na simulada médica.

Quantas foram as madrugadas nas quais pegava o carro e ia cobrir o setor de trabalho ou para as reuniões de ciclo, nas quais os resultados eram cobrados , os novos objetivos traçados e as avaliações de conhecimento eram feitas.

Toda essa carga de responsabilidade, tendo, em muitas ocasiões, um filho doente no berço ou uma dívida pendente.

Havia, é verdade, toda uma assessoria auxiliando na preparação do profissional e dando-lhe suporte mas, em quantos momentos foi decisivo o fato dele se bastar. Não tinha essa de se tornar celebridade, mas quando os holofotes o procuravam nos eventos internos da empresa, tudo se ajustava na cabeça, as emoções do reconhecimento fazendo esquecer todas as agruras.

A alternância entre os momentos de doçura e os de amargura era tão repentina, que não havia tempo para o prazer ou o sofrer... Mas o pouquinho de prazer que se conseguia, era eterno. Esquecia-se do resto.

Mas essas coisas não são próprias somente dessa atividade. E daí, não se está falando de todas, mas de uma só... A dele.

De repente, um flash de amargura vem com o quantum de tempo já ido. Olha em volta, vê uma garotada, vê antigos colegas, competidores dignos já com os chinelos e pensa: está chegando a hora. Quando chegará a minha ?

- Deus, afaste este cálice de mim.

Mas Ele não tem muito a ver com isso, tudo fruto da nossa própria organização de vida. Será procurado para dar conforto nas horas de amargura, servir de lenitivo, fazer o papel de Pai.

De repente e não mais que de repente.. "cadê você, cadê você... outros repetem as suas jogadas... no vídeo taipe da vida, a história gravou".

Um dia, levantou-se para a jornada diária de trabalho. Como fazia sempre, foi barbear-se.
No espelho, o "outro" lhe disse, quase que sussurrando:

- Vai dormir, seu tonto. Você já era.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras..

 

 

Agosto de 2010

O SUPINO?

O dia mais difícil da sua vida, foi o ontem.

Nele, veio ao mundo em um lar, família classe média, proprietária de terras, gente boa e trabalhadora.

Perto da casa, um rio, uma cachoeira pequena, um remanso onde havia uma bacia natural na qual as mulheres lavavam as roupas.

A vida corria, como se diz: legal.

Um dia, ainda recente na memória apesar do tempo, o menino ficou em pé na porta da cozinha, com as pernas e braços abertos. O cachorro da casa, não tendo por onde passar, passou por entre as suas pernas e o levou junto lá pra baixo..., a casa ficava mais elevada, para evitar os danos do rio, nas enchentes.

Um braço quebrado. Era tarde, quase por anoitecer. Seu tio, colocou-o nas costas e foi rumo à estação para pegar “o noturno”; esse, já havia partido. Restou uma caminhada de mais de vinte quilômetros até a cidade, onde os cuidados médicos seriam tomados.

O tempo passou, o braço sarou e a vida mudou.

Já meninão, foi estudar para ser padre, por influência do meio no qual vivia e porque alguns amigos disseram que iam, foi também.

Rezar, estudar, praticar esportes. Quando não era assim, era praticar esportes, estudar e rezar. Vocês sabem o que é o supino? Pois é: ele sabe.

Nos retiros espirituais, por ocasião da semana de carnaval, incomunicabilidade por três dias consecutivos. Formava-se grupo de três seminaristas que caminhavam pelas dependências do seminário, sob observação dos padres e a única coisa permitida era rezar o rosário. Havia um puxador e os outros ficavam com os ora pro nóbis.

Ave Maria, cheia de graça: “Cacete, você me deu uma paulada naquele lance”, o senhor é convosco "Ah! Você que é frouxo”, bendita sois vós: “Frouxo é sua mãe”.

E assim oravam, conversavam e acho que Nossa Senhora ria lá de cima... Corja!

Havia um padre que gostava de vinho. No ofertório, o coroinha colocava três gotas no cálice. O padre ficava esperando, olhando com cara de bravo. O menino colocava mais um pouquinho... nada. O padre ali, olhando feio. O jeito era derramar. Um dia, na sacristia, o padre disse:

- Olha, “firio” io non vô ti excomungá. Vô te quebrar a cara, desgraciato. O vinho é seu?

Deus dispôs e o menino saiu do seminário; aliás, Ele não dispôs. Na verdade, pôs um rabo de saia no caminho do já adolescente, em uma das últimas férias. Viram, contaram para o pároco da cidade e a igreja perdeu, quem sabe, um bispo ou até mais. Mas o que aprendeu, serviu para a vida. Ficou sabendo a respeito de uma língua, que já era morta; mas o que deu de trabalho, a desgraçada. Foi ali que ficou sabendo do supino, do dativo, do ablativo e outras figuras...

Uma vez, tomando o café da manhã na companhia do bispo, estava descascando a laranja com garfo e faca. A maldita escapou, correu pela mesa, bateu no bule de café, caiu tudo na roupa do santo homem. Foi excomungado. Virou Corintiano.

Ad aeternum. Por sinal, aeternum está no acusativo, regido pela preposição ad.

Bem, no seminário a matemática não era lá muito estudada. Padre, já que não aprende a somar, também não multiplica. A divisão que pregam não necessita de cálculos. Só restou ao ex-seminarista, o clássico. Depois fez um curso de Letras e por fim, de Direito.

Do ontem até hoje... se não caiu do céu, também não teve que cavucar muito. Se houve alguma dificuldade, foi ontem e ele, já era.

O que tinha que fazer na vida, já fez.

Agora, prest’enção nos filhos e netos... só observando.

Ah! Sim. E o supino?

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras..

 

SENHORES E SENHORAS

Aqui fala o comandante deste vôo, que ora decola rumo às eleições; façam um bom percurso e que Deus nos ajude.

É comum ouvir de pessoas de “fina stampa” que eleição é isso e aquilo, que o voto não deveria ser obrigatório, que nas eleições as pessoas deveriam ir para um retiro, que não há renovação de políticos e o resultado é a repetição de velhos vícios.

Quem entra para uma disputa eleitoral, acusa o opositor de fazer política com as “ mãos sujas”; bastou ganhar uma eleição e está lá: não há sabão suficiente.

O cenário não muda, os atores não mudam e o que é pior, permanecemos presos às nossas ultrapassadas convicções: não votar é ruim e outras.

Em verdade, digo: não votar com consciência é pior.

Outro dia li uma manchete: "a esquerda somos nós”; e eu pensando que esse negócio de direita, centro e esquerda, hoje, fosse coisa de mão de trânsito. Nada disso, sem essas baboseiras, como um político-raposa vai filosofar.

"Falando assim, até parece que o PSDB está à esquerda do PT."

"Mas nós estamos à esquerda mesmo”.“O PT não é esquerda. Já foi.”

Parece coisa do Heráclito.

- Uai, esse eu não conheço, candidato a quê?

- Não é candidato, é um filósofo maluco que dizia que o que é, não é. O que não é, é. O que... sei lá mais o quê. Ou seja, para ele tudo se origina na oposição dos contrários.

Quando a Rita Lavoyer deu essa aula de filosofia no Grupo Experimental, pensei: “Tadinha, ficou igual.”

Quando um governante é pego com a mão na botija, diz que cometeu equívocos. Quando é o adversário, aí sim: é safado, corrupto.

E o Congresso, as comissões parlamentares de inquérito, como diz famosa música: “tudo acabado e nada mais...”

Chegou a um ponto a encrenca, que uma política aqui da vizinhança disse: “hoy, resulta que es lo mismo ser derecho que traidor”.

Eis a confirmação do que disse aquele maluco: é mas não parece. Parece mas não é. Deus!

Então, o que se presume, é que deve haver por parte das pessoas de boa vontade, preocupação para que desenvolvam esforços no sentido de convencer a sociedade a se mobilizar para acabar com a ideia que eleição é porcaria, que todos os políticos são corruptos e que nada mais vale a pena. Somos frutos da política vinte e quatro horas por dia. Ao dar uma descarga, haverá injunções de ordem política no fato.

Na eleição, vá para um retiro, não vote e você verá aumentar o número de crianças na rua, o número de desabrigados, maior delinqüência, maior lotação dos presídios, mensalidades escolares mais caras, menos salas de aulas... e o culpado é você. Sem tirar nem por.

Há quem diga que: “político de carreira é aquele que faz de cada solução, um problema”.

Não sei se é verdade ou não. Para que não corramos o risco, vejamos se entre os nomes a serem sufragados na eleição vindoura, existe algum que não se encaixe nesse perfil.

Parece que as coisas estão melhorando. Enquete da Folha da Região mostra que 47,16% acompanham a vida política. Somemos os 36,93% que procuram se informar e teremos um quadro animador.

É bem verdade que os retiros ficarão vazios mas uma oração estará sendo rezada na postura consciente de um eleitor exercendo a sua cidadania.

Talvez seja por onde começar a ter consciência no ato de votar.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras..

 

A LÁGRIMA

Uma lágrima é uma lágrima e nada mais. Um pouco de h2O, impregnada de elementos químicos. Nas aulas de anatomia, sua vida é contada, suas qualidades enaltecidas.

Mas é em outro contexto que a lágrima ou o que ela reflete ocupa um espaço, uma maior exploração: o poético. Poesia em toda parte e de todas as formas e se não a citam nominalmente, sugerem-na.

"E só agora, a partir de agora, posso lhe dar meu colo, tardio de mãe, minha voz solitária, e essa lágrima quente enterrada há mais de um século no aperto inexplicável desse coração de cor vermelho”, na poesia “menino de couro”, de Hila Godinho. Lágrima citada e sugerida; quase sempre mostrando um coração em frangalhos.

Lágrima de alegria, não dá poesia.

Talvez porque, segundo Rubem Alves “os olhos dos poetas são sempre olhos que se despedem”.

São vertidas por saudade, por existir uma distância, por falta de encanto, por um lugar vazio, um leito frio, por medo de perder, de sofrer e até, de ser.

Elas ocupam sempre um lugar que ficou vazio em nossas vidas. Lágrima e solidão combinam mais que arroz com feijão.

Ah! Foste embora. Deixaste esta vida e foste para o além, onde um dia nos encontraremos, frente aos anjos e arcanjos... Deus do céu!

Lágrima de alegria incontida... alguém conhece algum poema famoso que fale de alegria incontida? Frente aos que falam de miséria, de desgraça, não pagam nem placê.

Lágrima de amor... existe? Tá certo, existe pela falta dele.

Há quem diga que lágrima não faz mal, que lubrifica os olhos e coisa e lousa. Olho lubrificado, alma enferrujada.

Não dá outra. Se for para escolher, eu escolho os colírios.

Às vezes a gente chora por um bom motivo: lágrima por um justo orgulho. Ver um filho se formando, um neto nascendo e outros mais... mas não, poesia não dá; faltam boas rimas para esse tipo.

Quando, dentro da gente, mora um sentimento bonito, alegria, a poesia, se feita, não faz sucesso... parece praga, sio!

A não ser em velório, onde se chora acompanhado de outras pessoas, sempre quando a lágrima aparece você está sozinho. “Na solidão sozinha, eu acordei...” o que tem de poesia começando mais ou menos assim.

Lágrimas de esperança... serão lágrimas doces ou amargas?

O que é esperança? Esperar o que se deseja, mas ainda não tem? Expectativa? Ter fé em conseguir?

Sabe, esse papo de lágrima, já deu o que tinha que dar.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras..

 

Julho de 2010

PELAMORDEDEUS!

Sentimento é uma disposição de afeto com relação a algo ou a alguém e se manifesta em determinadas circunstâncias; pergunto, houve durante esta Copa do mundo um sentimento de brasilidade, como se viu por exemplo, em 1958 ou 1970?
Houve emoção exacerbada como de outras vezes?
Sentimento e emoção caminham juntas e não havia sentimento suficiente para gerar uma forte emoção na torcida brasileira desta feita.
Tratava-se de uma Seleção Brasileira ou de brasileiros do Milan, do Barcelona, da Inter de Milão; nessa Seleção, quantos jogadores atuavam no São Paulo, no Corinthians, no Palmeiras, no Inter de Porto Alegre, no Botafogo ou Cruzeiro, clubes que estão presentes no cotidiano de todos nós, nas conversas nos botecos ou nos campos das várzeas?
Quem poderia despertar maior sentimento na torcida, o Kaká ou o Ganso, o Luiz Fabiano ou o Kleber, o Josué ou o Hernanes, o Juan ou o Miranda, o Júlio César ou o Vitor; os “estrangeiros” estão alheios à realidade da pátria e quase sempre, são os piores, fisicamente falando. Onze craques não fazem um time. O que faz um time é uma boa seleção de valores e um bom treinamento.
Não é só o Galvão, é a imprensa inteira a mais valorizar quem trabalha na Europa e cercanias. Onde já se viu: na Fórmula Um o carro é estrangeiro, a estrutura também, assim como a infra-estrutura e todo o capital envolvido e o Bueno a berrar feito um tarado: Brasiilll! Brasiill!! Brasiiilll!!!
No futebol brasileiro, ou mais precisamente, na imprensa esportiva brasileira tem uns “trecos” que não dá para entender. Sei não que diabo de escolas de jornalismo estes caras cursaram. Vivem falando em renovação:
- Que é isso, sio, o Ricardo Teixeira esta há mais de trinta anos na Confederação Brasileira de Futebol; ou sai ou a gente tira o sujeito de lá. Ele é a desgraça.
Imediatamente perguntam:
- E ai Kfouri, quem você acha que é o melhor nome para assumir como técnico na renovação pretendida pela CBF.
- Uai, Felipão ou Luxemurgo.
Má“ que bela renovação, cacete.
São bons nomes?
São, claro. Mas se é para renovar, por que não considerar nomes que nunca estiveram lá e que possuem “curricula” abonadores? Quem foi o técnico mais vitorioso nestes últimos anos no Brasil, senão o Muricy Ramalho? O que dizer do jovem e competente Silas ou ainda do bom trabalho do Mano Menezes ou ainda Dorival Nunes?
Para cada jogador que trabalha fora, temos aqui um de valor correspondente; é só convocar os melhores do momento e dar-lhes bom treinamento... Será, como diz o seu Zé: 'macuco no emborná'.
Haverá mais identificação, como consequência, mais envolvimento entre Seleção e torcida e as emoções transbordarão e serão inesquecíveis, como já se viu.
Gostei quando disseram que a Copa da África foi a bafana, bafana e aqui será a afana, afana. Estádio novo com dinheiro público... Tá bom.
Querem que o meu Tricolor gaste seiscentos milhões de reais para sediar uma abertura da Copa. Vão sediar abertura na... na... então, lá mesmo.
É por essas e outras que estou gostando cada vez mais de pescar.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras..

 

UM LUGAR ESPECIAL

Todas as vezes que o litlle Joe quer impressionar uma linda jovem ele a leva até à margem de um grande lago, de onde se descortina uma visão encantadora. Se amar é bom e lindo, ali há a potencialização do prazer.

Quando a lindinha se embasbaca com o espetáculo, o desg... quer dizer, o jovem vaqueiro alia um sorriso número 38 com um olhar 55 e dá o retoque final no seu empreendimento de sedução. Pena que quase sempre, no final do capítulo, a coitadinha morre ou sai de cena. Acho que o produtor ou o diretor do filme tem uma queda pelo artista e... quem usa, cuida.

Aqui um parêntese para um fato e uma pergunta. O fato: Ponderosa é uma imensidão de cactus e pedra. Como aquele povo ficou milionário com gado? São quatro e mais um cozinheiro chinês. Chaparral ainda tem muitos empregados, se vê algumas vacas que adoram comer galho seco e pedra; isso, sem falar no Cochise e sua corja enchendo o... a paciência. Acho que fazendeiro brasileiro gosta mesmo é de chorar de barriga cheia.

Um lugar especial para viver... Aqui temos um.

Não viveria melhor à beira mar, desfrutando as visões paradisíacas das chapadas ou os encantos das quedas de água, como as de Iguassu ou Iguaçu, como preferir.

Não há beleza em nenhum canto se na alma não mora o encanto. (Se você conhece quem tenha dito esta frase, ponha aspas. Eu não ponho.)

Outro dia, levei uma dama para ver a luz da lua incidindo no filete de água do nosso riozinho Machado de Mello. Cercava-nos o silêncio da madrugada. Vislumbrávamos pequenas flores dando sinal de vida com a iminente presença do sol. Fiz como litlle Joe, armei meu sorriso 38 mas não deu tempo de armar o olhar:

- Vamos embora...

Ela não se sentiu amada, diriam uns. Tenha paciência, outros. Mas em mim não aconteceu uma profunda dor ou estado de torpor, não fiquei cheio de frustrações e dúvidas, como acontece nas grandes tragédias, nada de crise exsistencial. Pensei: não dá com Maria, procuremos Sofia.

Só que não é bem assim. Não se leva a vida dando de ombros. Assim como existem estradas que se bifurcam, temos a que convergem.

Procurarei então o ponto de convergência no meu caminho e lá, por certo, encontrarei alguém que, na pior das hipóteses, queira, porque gosta, ver o “ Machadinho” nas noites de lua.

Assim: beber um chope no Bola ou comer um cupim casqueirado na Chopompeu e na madrugada, ver o riozinho e o sol nascer... seria um belo começo para uma segura indução a um fim sabido e desejado.

Como diz uma letra do Roberto: "Se o amor está, tudo faz sentido, tudo é permitido, tudo fica em paz". Mas é preciso que tenhamos sensibilidade para ver encanto em qualquer canto, senão, ainda lembrando o Rei: “Quando o amor não está, sob a luz da lua, as pequenas ruas, já não são iguais”.

JOSÉ HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras..

 

Coordenação: Prof. Pedro César Alves, Araçatuba/SP.

 

*

ABRAÇOS!

 

 




restaurante recife

 

"Quem não lê não pensa,

E quem não pensa será para sempre um servo."

 

ESTOU MUITO FELIZ!

 

Copyright Editor Prof. Pedro César Alves.

Todos os direitos reservados - 2010-2011.

 

 

 

Contamos com conteúdo diversificado que atende aos propósitos dos pesquisadores e empresas que ajudam-nos.

 

 

 

LINKS

 

DEIXE O SEU

COMENTÁRIO

 

 

 

NESTA PÁGINA

 

* AVELHANTAR

* ELA

* HOMOSSEXUALISMO: EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE OU ERRO DE DEUS?

* OI

* O PORTÃO

* RECORDAR É VIVER

* CANTINHO DO CÉU

* PODER DA PALAVRA

* NA NOITE... PASSOS

* CREIO SIM, ORA VEJA...

* CONSCIÊNCIA CÓSMICA

* VELHO NO BLOG

* SÓ QUARENTA

* ÁI, JESUS!

* POIS É

* IPÊ FLORIDO

* JESUS TE AMA...

* É QUESTÃO DE PERGUNTAR: ATÉ QUANDO?

* OUTRO

* FELIZ NATAL

* PALAVRAS DE AGRADECIMENTOS

* CALA A BOCA, MAURICE...

* O QUE FAZER?

* O SUPINO

* SENHORES E SENHORAS

* A LÁGRIMA

* PELAMORDEDEUS!

* UM LUGAR ESPECIAL