Novembro de 2011
AVELHANTAR...
'Viver e não ter a vergonha
de ser feliz', assim disse o poeta-cantor.
Mas envelhecer é perder o viço,
avelhantar...perder a frescura.
Se bem que tem cada velho fresco por aí....
Uma vida é cheia de tudo; não é
vida, quando falta o tudo.
O que é tudo na vida?
Acho que tudo se resume em viver cada minuto como
se fosse o último, tendo anseios e tentar vivê-los e se
não conseguir, substituí-los por novos. Continuar buscando
aquele sonho. Como na seara, nem tudo se colhe, mas o que se tira dela
sempre fortalece e ajuda a viver.
Cantar e cantar e cantar....
Perder o viço... Nada de perder o viço;
conservá-lo sempre e há meios interessantes para fazê-lo.
Por exemplo: ter uma religião, mas nunca
usá-la como uma apólice de seguros; tenha forças
para enfrentar as vicissitudes da vida, nunca busque refúgio
em nenhuma religião. Tenha uma como meio para alcançar
forças e ajudá-lo na busca da felicidade.
Nietzsche disse que quando se olha o tempo como
se olha um abismo, o abismo fica de olho em você.
Um erro que todos cometem na vida é procurar
um geriátra quando atinge uma idade mais avançada. Há
que se procurar um na mocidade, para que ele oriente sobre a melhor
maneira de se levar a vida a caminho da velhice.
Penso como o João Ubaldo Ribeiro, este
negócio de melhor idade é bobagem, eufemismo tonto: chega-se
à velhice mesmo.
Os avanços na tecnologia, na medicina em
seus mais amplos segmentos estão à disposição
de todos para uma velhice plena de forças e felicidade.
Mais do que manter o seu corpo saudável,
mantenha a sua mente. O resto lhe será dado por acréscimo.
Como manter uma mente saudável.?
Primeiro mantendo o corpo e este lhe dará
o apoio necessário para lutar. Nas artes em geral você
encontrará o alimento para a sua mente.
Não sabe pintar? Tente a escultura. Tem
uma voz desgraçada de ruim? Aprenda a tocar violão ou
outro instrumento. Na literatura se não gosta de ler, aprenda
a gostar Não demora está fazendo poesia, escrevendo crônica
ou conto, participando de concursos de literatura, recitando poesias
em saraus. Dona Emília Goulart já
ganhou concursos e escreveu livro. Está prontinha para a Academia
de Letras.
Ganhadoras de concursos temos a Marianice Paupitz,
a Wanilda Borghi, a Ana Zaher, o Anísio Canola.
Não vá para o além do combinado
sem tentar; lute para ser feliz e quando for, vá com um sorriso
no rosto. Coisa mais feia é defunto com cara de tacho.
Quer um exemplo: conheci uma senhora, viúva,
à beira da depressão; nada a animava, a motivava. Um dia
foi a um destes bailes de terceira idade arrastada por uma amiga. Na
segunda vez não foi fácil convencê-la. Já
na terceira foi mais fácil e assim...
Um dia, quando estava saindo para o baile, o filho
gritou:
- Mãe, o Tião telefonou. Mãeeeee,
quem é o Tião?
- Cuida da sua vida, moleque, mas que diabo!
E o filho viu a mãe indo lépida,
com a bundinha arrebitada, ao encontro do baile...ou do Tião.
O sofrimento nos torna amargos, atrapalha a nossa
saúde e, sozinhos, não conseguimos encontrar nossos Tiãos
ou Tianas, que algumas vezes são escolhas pessoais que devemos
fazer para viver com dignidade. A solidão, o estar só
não se coaduna com o ser social que somos.
Hoje, no mundo, os idosos ultrapassam a cifra
de 20% da população e não adianta Estatutos que
lhes protejam se não sacudirem o lombo e entrarem na nova era
que lhes é apresentada.. É preciso que os idosos sintam
a necessidade de defenderem os seus direitos, lutem para serem respeitados
Lute, caso necessite, por um trabalho decente.
Não necessita?
Uai, corra atrás de um bailezinho mesmo
que não seja lá estas coisas....será indecente
se você quiser. Mas tudo bem, passa uns
tempos no purgatório e zera a conta com Ele.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Outubro de 2011
ELA
Em busca de poesia
ela caminha.
Vai só e desprovida
de remorsos
Mas vaga entre escombros.
Não dá mais para voltar.
Ela sabe.
Sabe que a poeria da estrada
camufla...
Mas tenta preservar os sonhos.
Ela pressagia
que tudo pode acontecer
de repente.
Pode recomeçar
como um dia começou.
Sempre se sentiu tão segura
e agora
nao sabe o que fazer.
Para tirar dela esta agonia
só uma linda e terna
poesia.
A dor do amor no coração
desta mulher...
Coitada
chega a dar dó.
Tem medo de sonhar com
o impossível
como se com o possivel
fosse preciso sonhar.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Junho de 2011
HOMOSSEXUALISMO:
EVOLUÇÃO
DA ESPÉCIE OU ERRO DE DEUS?
- Nos dias atuais, muito se fala
sobre os direitos das pessoas do mesmo sexo que formam um casal, de
terem uma situação civil que lhes determinem direitos
e deveres, já que proverão um patrimônio comum e
deverão ter o respeito da sociedade à qual pertencem.
Não fora, acho, a situação
vista pelo prisma religioso, não haveria maiores problemas posto
que a sociedade se organiza por um arcabouço de leis que lhe
oriente a atividade, a dinâmica social, a interação.
-Bem, mas quando se fala em casal se fala em família?
- Sim, fala-se em família e é só
ver o que fala o mestre Aurélio: pessoas unidas por laços
de parentesco, pelo sangue ou por ALIANÇA... ipso facto!
Mas voltemos às questões religiosas:
elas dizem que Deus criou o homem e a mulher para que repovoassem a
terra pela procriação e c’est finit. Tudo o mais
é safadeza porque como dois.... um menino e uma “menina”
poderão procriar?
Como pode ser safadeza?
Alguém, sabendo de antemão que viveria
em uma sociedade sendo marginalizado, muitas vezes perseguido física
e moralmente iria ESCOLHER ser homossexual?
Então o que há é muito discurso
e em todos os tratados encontra-se o termo ACREDITA-SE ao invés
do SABE-SE; realmente o discurso é diversificado e muitas vezes,
falta-lhe lógica.
Assim para afastar-me da linha do acredita-se
e aproximar-me da do sabe-se, enveredo-me pelas possibilidades levantadas
pela ciência e opto por aceitar que a questão é
genética; são fatores hormonais que determinam a atração
sexual por pessoas do mesmo sexo. Ninguém
foi capaz de determinar e isolar tais fatores e fica difícil
falar em mutação ou evolução da espécie,
mas Cristo, é o que há de mais lógico.
Há quem diga que Deus colocou um espírito
feminino em um corpo masculino. Olha, se alguém provar que Deus
é Corintiana eu acredito, pois só um danado destes poderia
fazer tamanha sacanagem.
Na verdade, nenhuma das teorias para explicar
o fenômeno possui raízes muito profundas, mas umas vão
mais a fundo que outras. Assim, as explicações que levam
a favor da predisposição genética são mais
lógicas e passiveis de aceitação.
Existe o homossexualismo no reino dos animais
e ai eu pergunto: eles escolheram, fizeram opção por morderem
a fronha?
Pesquisas abalizadas mostram que entre os camundongos
existe em grande escala e tudo indica que é para evitar a superpopulação.
Melhor falar sobre por esse prisma científico do que vir com
a prosa de que a ciência não explica o caso à luz
da palavra de Deus.
Li de uma lésbica que os pais dela não
sabiam da sua condição de homo e que sofria muito pela
situação em que vivia, um tormento constante. De um amigo
homo ouvi que ele, apesar de ter vencido as primeiras barreiras de rejeição,
ainda sofre por não ser aceito em certas mesas. E escolheram
viver assim, são safados?
Então, perguntar se uma pessoa tem o direito
de ser homossexual me parece perda de tempo, pois ela seria de qualquer
forma, tendo ou não direito. Logo, que ela seja com os seus direitos
reconhecidos por lei.
Quanto menos o sujeito entende do assunto, quanto
mais sem condição de lidar com as diferenças humanas,
mais homofóbico ele é e quando a rosca aperta para valer,
ele parte para o fundamentalismo religioso.
Como diz um amigo meu: se o meu padeiro me respeita
e me entrega um pão muito gostoso, que diferença faz ele,
o padeiro, ser vi... homo ou não. Homo é politicamente
correto.
Para finalizar essas mal traçadas reitero
que não se avalia o caráter de ninguém pela sua
condição sexual e reitero mais ainda: não se trata
de opção. Ainda acredito mais nessa do que em outra teoria,
mas, aposto, é a única que está mais próxima
da verdade, A ciência vai prová-lo um dia.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Junho de 2011
O PORTÃO
- Oi, você por aqui.
- Pois é, estava passando, vi você
aí quietinho, resolvi fazer um carinho.
- Ah. Legal, obrigado.
- Como vai a vida?
- Nada muda. Sempre a mesma rotina. Daqui a pouco
já estou longe de novo.
- Rotina? Andando pelo mundo, você vê
a cada momento uma coisa nova, um fato acontecendo.
- Bem, é verdade. Outro dia havia um grupo
de alpinista escalando o Himalaia, veio uma tempestade que não
estava no programa e foi o caos. Mas vi atos de desprendimento, de solidariedade
e de amor ao próximo que me deixaram sensibilizada... Justamente
no meu turno de serviço. Só, meu amigo, que vejo também
tanto desamor. Tem gente que pensa que fazendo amor, está amando.
Ainda se fizesse um amor que prestasse!
- Você a tem visto por ai?
- Olha, por mais que preste atenção,
não tenho.
- Onde ela se enfiou...
- Quando eu cheguei você estava pensando
no que ou em quem?
- Mais no que do que em quem. Quando penso em
quem, penso nela.
- Menino, não foi você mesmo quem
escreveu aquela poesia 'Escombro', na qual uma voz diz baixinho: 'filho
tire-a do ombro, pois é escombro, coloque-a no coração
e vá ser feliz outra vez'?
- Foi. Fazer a poesia foi fácil. Tirá-la
do ombro está sendo outros quinhentos...
- Você está com vontade de chorar?
Então chora, já vi você chorando tantas vezes...
Outro dia quase parei para um papo, mas você estava uma desgraça
e eu não estava melhor. Só que eu trago as tristezas do
mundo em mim, posto que as vejo sempre no meu caminhar. Mas você,
meu amigo, sofre de tonto que é.
- Mas eu também estou achando você
triste e quer saber, não sei a razão, uma vez que semeia
a poesia e o amor nos corações enamorados.
- Criatura, a esta hora todos os dias, entristeço-me.
Fim de jornada, sei que vou ser esquecida.
- Ah! Deixa mão de coisa. Nunca vi ninguém
tão cantada em verso e em prosa como você.
- Mas diga: você não tem visto...
Tem ou não?
- Que coisa de doido. Já não disse
que, apesar de procurar, não a vejo. Até que gostaria
de poder dizer onde ela está. Mesmo que estivesse entre os lençóis,
cruzando os dedinhos dos pés com alguém. Quem sabe assim
você criasse jeito e se arrumasse na vida.
- E você minha amiga, como tem se arrumado
sem ele?
- Com as migalhas, como sempre foi... O desgraçado
só aparece quando termina minha jornada. Leves e míseros
carinhos que até chegam a me excitar, mas que.... Engolirei para
sempre os meus orgasmos. Serão sempre só meus.
- Como diz uma pessoa da vossa literatura: “para
isso caminhamos a vida inteira: para chegar ao lugar de onde partimos.
E quando chegamos, é a surpresa. É como se nunca o tivéssemos
visto”.
- Uai! Bonito, quem é a pessoa?
- É o... o... ah! sim: o Rubem Braga.
- Ah! tá. Só podia!
- Uai amiga, então é bom para você.
Todo dia é um novo dia e assim a sua esperança se renova.
- Quer saber, estou com o sa... Perdão,
estou com a paciência esgotada de ter a minha esperança
renovada. Não preciso de esperança, preciso de uma boa
noite só de amassos... Que seja só umazinha.
- Vichi, a coisa é mais grave... Vamos
mudar de assunto.
- O que você está vendo de bom neste
momento?
- Lá no sertão, um retireiro está
indo tirar o leite das suas vacas. Leva o café quentinho que
a patroa fez, também as peias, necessárias ao trabalho.
Você sabe o que é uma peia, seu anarfa? Uma enfermeira
termina o turno e caminha só pela rua indo para a sua casa. Está
triste pois a paciente do quarto doze faleceu ao dar à luz...
Mas ela fez o que pode e isso a conforta.
- Vejo ainda a professora Rita Lavoyer preparando
uma palestra sobre bullyng... grande Rita! Olha lá o Ze Marcos
Taveira já trabalhando no ciadosblogueiros com todo o carinho
e o Beltrão afinando o seu violão.
- Mais o que você está vendo?
- Vejo um maridão preparando-se para o
trabalho...deve ser bancário.
- Vai, conta, o que ele está fazendo.
- Mas você continua o mesmo safado de sempre...
É isso que você está pensando. Prestasse e não
dormiria sozinho.
- Falar em dormir sozinho, presta mais atenção
por ai, quem sabe....
- Quem sabe eu não sei. Eu sei que desisto.
- Olha quem está chegando.
- Já percebi. Já deu sinal de vida
há algum tempo. O filho da ... é bonito, sabe esquentar
as coisas, meus hormônios entram em ebulição. Quer
saber, xau. Quando ele aparece, “me voi” e assim será
sempre... Vingo-me, levando comigo o romantismo da minha presença.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Junho de 2011
O PORTÃO
Se a memória não
me prega uma peça, lembro-me que a primeira lição
de uma aula de filosofia fala sobre a felicidade e à sua busca.
Todavia essa busca implica em desenvolvimento.
O que é desenvolvimento?
Mestre Aurélio ensina que é crescimento,
progresso e dá até um verbete: desenvolução.
Nunca o ouvi na vida mas está lá.
É esse então o caminho especial
que Deus nos legou para o nosso crescimento e por meio dele, alcançarmos
a felicidade.
E o que é felicidade?
Recorrendo ainda ao mestre: ventura, contentamento,
boa fortuna.
Então, para compreender as coisas, saber
trabalhar com elas e ser feliz, é preciso um grau de conhecimento.
Ter uma cultura que seja o bastante para que possa ser instrumento do
desenvolvimento do ser humano.
Mas cultura não é apenas saber ler
e escrever ou ser PhD em um segmento do saber, mas principalmente “estar
inserido no complexo de códigos e padrões que regulam
a ação humana individual e coletiva, tal como se desenvolvem
em uma sociedade ou grupo específico e que se manifestam em todos
os aspectos da vida: modo de sobrevivência, normas de comportamento,
crenças, instituições, valores espirituais, criações
materiais e outros”.
Não vendo na ciência um meio que
supra suas necessidades, o homem busca respostas para as suas perguntas
no esoterismo, no misticismo, pois segundo ele, nesses caminhos pode
estar a explicação de todas as manifestações
da natureza.
Então, à primeira vista, parece
que o caminho é suave, sem fazer alusão à famosa
cartilha na qual iniciei para chegar até a estas mal traçadas.
São amplas as alternativas que se oferecem
a todos nós.
Mas então, como explicar o desencontro,
a tamanha insensatez que parece ser as características mais marcantes
do ser humano. Parece que ele tem prazer de se confrontar com a miséria
do mundo, que via de regra, ele mesmo dá origem. A explicação
repousa, a meu ver, no interior de cada um.
Não adianta adquirir toda a cultura do
mundo se não houver a preocupação de respeitar-se.
Somos únicos na face da terra mas vivemos em sociedade e estamos,
assim, ligados por menos que queiramos.
Percebe-se que não existe caminho suave,
não existe entrada sem fechadura e que algum portão, em
algum momento, não se abriu para que o homem pudesse alcançar-se.
A consciência é um guia e também a guardiã
do portão; ele estará aberto ou fechado quanto maior for
a consciência do homem quanto às suas responsabilidades
para consigo e, como decorrência, para com os seus iguais.
Essa responsabilidade dependerá de cada
um, do empenho e de como se enxerga. Drumond disse: “Mas se desejarmos
fortemente o melhor, e principalmente lutarmos pelo melhor, o melhor
vai se instalar em nossas vidas. Sou do tamanho daquilo que vejo, e
não do tamanho da minha altura”.
Ainda lembrando o grande escritor, a gente aprende
muito no portão fechado.
Aprende muito mas a considerar o que se vê
pelo mundo, tanta discórdia, tanta beligerância, tanto
descaso de uns mais favorecidos para com outros e quanta falta de fé,
fica-se sem saber se o muito preconizado pelo grande escritor possa
ser o bastante.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Março de 2011
RECORDAR É
VIVER
Eu hoje sonhei com...
Retornar, rever e ficar tomado por uma gostosa
emoção... Mesmo que a princípio doa um pouquinho.
Seja a velha igreja da infância ou ao distante
Líbano; eu também já vivi um momento assim... Acho
que todos o vivemos.
Um dia resolvi abraçar o sacerdócio...
Levado pelas mãos de um padre da cidade, eu e mais alguns meninos,
fomos para o seminário diocesano de Lins.
Fiquei lá algum tempo e assisti às
inúmeras transformações físicas que o imóvel
foi sofrendo com o tempo. Lembro-me que ele era quadrado. Uma entrada
que dava para um pátio onde não havia nada; à esquerda
algumas salas de aulas e a capela. Na outra extensão, o refeitório
e à direita, mais salas de aula, sanitários, uma mesa
de pingue- pongue e o apartamento do padre que nos ministrava aulas
de música e era o regente do coral de três ou quatro vozes
que fazia sucesso nas cerimônias na catedral. No piso superior,
dormitórios e o apartamento do padre responsável pela
disciplina e professor de latim. O danado ficava a noite inteira matando
gato, no bosque de eucaliptos que havia ao lado ou bem-te-vi, sentado
nos braços da santa que mais tarde foi colocada em um jardim,
feito naquele pátio vazio. Era estudar, praticar esportes e rezar.
Sai do seminário. Mais tarde fui trabalhar na indústria
farmacêutica, assumi uma supervisão de equipe e fui trabalhar
em Lins.
- Ah! Vou visitar o velho seminário...
Não era mais .
Entrei pela mesma portaria da minha infância.
Adentrei ao jardim, já não tão bonito. A santinha
ainda estava lá. Sei não, mas acho que ela piscou para
mim. Revi tudo como se estivesse acontecendo naquele momento. Vi-me
jogando futebol, saindo da capela ou entrando no refeitório,
levando bronca por alguma peraltice, xingando o latim. Se já
estava morto, o desgraçado...
“Vi” o Batistela, o Amantéa,
o Ficoto, o Eusígnio, o Gomes, o Cláudio, que morreu sacerdote
recentemente, também o padre Lino, o padre Kondó, o monsenhor
Pazzeto, nosso reitor. O Joaquim, hoje meu cunhado.
Quando me dei conta, soluçava.
Percebi que alguém chegou atrás
de mim... Ficou em silêncio por algum tempo. Nada disse.
Quando percebeu que estava mais calmo, colocou
a mão no meu ombro e perguntou:
- As lágrimas são de tristeza ou
felicidade?
Olhei, era um jovem padre.
- São de saudade. Aqui vivi um bom tempo
da minha vida.
Ele me levou a ver... Melhor, rever tudo.
E fui embora, feliz da vida.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Fevereiro de 2011
CANTINHO DO
CÉU
Um lugar bem assim,
verdadeiro pedaço do céu.
Deus nos legou isso, aqui.
Nele, eu tenho você comigo.
Passo os meus momentos contigo
e da vida, depressa, esqueço.
Ali, naquela relva macia,
protegidos do sol ardente,
Dei o beijo mais quente
que o homem, jamais deu.
Tocado pela beleza singular
amei você, como ninguém amou.
Vendo o pássaro no ninho
e no arbusto, a lebre escondida.
Na campina, acho, sentida
a lamentação de um xororó.
É toda uma poesia presente,
ali, bem no meio da mata.
E foi Deus quem escreveu.
Eu, apenas a declamei
encostado nesse corpo seu.
O momento, sim, foi curtinho
mas teve, da eternidade, o jaez.
Curti, ao seu lado, as maravilhas
com a maior que o bom Deus fez.
E, no embalo de uma paixão vivida
Zelei pelo sono seu.
Quando o lambari veio à tona
Para saber por quem a natureza parou
Viu um grande sorriso em seu rosto
E outro, no meu, muito bem posto
Éramos dois que Deus abençoou.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Fevereiro de 2011
PODER DA PALAVRA
Foi em GRANDE SERTÃO,
VEREDAS que Guimarães Rosa escreveu que viver é perigoso.
Falar também pode ser.
Tem até aquele ditado que anuncia que quem
fala o que quer, ouve o que não quer... isso, quando não
recebe uma bala.
- Hein! Fala o que quer e ainda recebe uma bala,
tá doido?
- Bala, do inglês Bullet, sua anta.
Alguém já disse que as pessoas não
foram preparadas para escutar o que falam. São poucos os que
“se escutam”; daí, o alto grau de desgraceira que
o fato provoca.
Segundo o mestre AURÉLIO, palavra é
a unidade mínima com som e significado, que pode, sozinha, constituir
enunciado.
Ela pode sozinha anunciar lindas coisas, se houver
a boa vontade das pessoas; assim, só usando verbos em ar: reatar,
consolar, curar, educar, namorar. Todavia, se a pessoa não se
escuta, podemos ter: destruir, desunir, mentir, denegrir...
A palavra pode fazer com que surja o amor, mas
também o ódio.
Um grupo de palavras pode redundar em Ave Maria,
gratia plena, dominus tecum, benedicta tui in mullieribus et...
Uma palavra sozinha: tramp, morra... mas pode
ser: amor, querida, mamãe, filha...
Ela pode dar confusão entre pessoas e entre
povos; ela pode dar prazer à vida e fazê-la menos perigosa.
Basta que nos ouçamos antes de dispará-la, pois aí
ela pode ser bala... não a de chupar. Pensar para falar é
fundamental.
Rubem Alves, citando Guimarães Rosa diz
que feiticeiro é aquele que diz uma palavra e, pelo puro poder
dessa palavra, sem o auxílio das mãos, o dito acontece.
Entre os normais, quando a palavra é mal
usada, acontece o dito e a desdita.
- Certo. Então o melhor é ficar
de boca fechada, até porque, segundo consta, com ela fechada,
mosquito não entra e ainda que o silêncio é ouro
e finalizando, se falar fosse mais importante que ouvir, a gente teria
duas bocas.
Mas falar é preciso.
Sobretudo nos dias atuais que compõem a
chamada era da comunicação.
Nunca as pessoas se comunicaram tanto; a tecnologia
favorecendo o falar, aproximou fronteiras e a distância está
na tecla do enter.
Tem muita gente que se preocupa em falar bonito,
quando deveria se preocupar com o pertinente, o correto; palavras de
conforto e incentivo e fazer-se acompanhar de gestos e expressões
que transmitam carinho. Quando houver motivo justo para um descontentamento,
fazê-lo com parcimônia e respeito pelo próximo.
Apenas para não deixar de fora, nenhum
lugar-comum, ainda temos o: é conversando que a gente se entende.
Mas não é somente falar, é
preciso fazê-lo com coerência.
- Mano, o que é coerência?
- É conexão, harmonia entre as partes
que compõem um todo, é a existência de um nexo entre
os pensamentos.
- Ah! Tá. E o que é ênfase?
- Ênfase é energia, vitalidade, realce
no jeito de falar; é triste ficar ouvindo uma voz monocórdica
, como se estivesse em um Ora pro nobis...ora pro nóbis...
- Pois é mano, havia tudo isso, todos estes
"trens" aí que você falou: energia, ênfase,
realce na palavra adeus, no momento em que ela foi embora.
Não fosse o dom da palavra, quem sabe...
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Janeiro de 2011
NA NOITE...
PASSOS
Na noite
as sombras das árvores
projetam-se nas calçadas...
Ouça:
passos lentos, trôpegos
...errantes
Levam
não conduzem.
Mesmo assim
são passos.
Só passos.
Um destino terão.
Se alguém esperar
muito melhor.
Não havendo...
Ouça,
lá se vão
os passos.
Alguém caminha...
Trôpego, errante.
Buscando,
sempre buscando,
incessantemente buscando.
O tempo?
Ah! o tempo
pode esperar.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Janeiro de 2011
CREIO SIM, ORA
VEJA...
O que ser místico?
É ser crente; crer em uma religião
ou em fenômenos e ainda em coisas sobrenaturais.
Bastou a razão não explicar e teremos
um material para o místico se ocupar; geralmente ele buscará
o entendimento crendo, acreditando em algo ou entidade que o ligue ao
divino, ao sobrenatural.
Buscar explicação pela ciência
não basta. Se a explicação não vem pela
ciência, pelo saber, terá que vir de outra forma, pois
sem resposta imediata, o místico não fica. Evoluir pelo
conhecimento e pela compreensão gradativa que só a ciência
propicia não se encaixa no amor maior, amplo, que o místico
diz possuir e que segundo eles, carece aos demais.
O poder do ser humano me parece, se consubstancia
no que ele sabe e não no que ele crê. O místico,
todavia, vive mais em função do que ele acredita. Já
ouvi dizer que todos somos místicos quando queremos a explicação
do que nos cerca, quando queremos saber o porquê das coisas. Eu
quero sim, saber, mas me valho da ciência, pois esta exige que
aceitemos as suas leis, suas verdades provadas até aquele momento,
coisa que as religiões não fazem. O dogma da Santíssima
Trindade, acredita quem quiser. Eu, por exemplo, acredito.
- Uai! Então que diabo de conversa fiada...
Bem, eu creio, mas não é um creiiiiiiiioooo
assim e a culpa é mais Dele que minha. Quem mandou que me desse
o livre arbítrio, a inteligência e, sobretudo, me fizesse
um fã daquele apóstolo que precisava ver para crer. Tudo
é fruto de uma Deidade. Acreditei até que aparecesse um
cabra, muito do safado, chamado Darwin. Bagunçou minha cabeça.
Arrumou uma encrenca com a igreja, foi excomungado, depois foi perdoado
pelo João XXIII que até pediu desculpas para a família
dele.
Digo com sinceridade: gostaria de crer, sem reservas,
integralmente...juro por Deus. E olha que sou ex-seminarista. Dizem
que somos os piores...
De vez em quando me pego orando, sobretudo nos
momentos de maior angústia e logo fico envergonhado e imaginando
Ele me dizendo:
Uai Zé Mirto, você não vale
a comida que come, só Deus, quer dizer, eu mesmo, tendo dó
da sua alma.Não acredita piamente e vem agora com esta xurumela
toda.Vai procurar o caminhão do qual você caiu, negão.
Acham que gosto desta situação?
Tenho do lado de lá, se é que existe
mesmo um lado de lá, pessoas que me amaram muito e que assim,
sabem da minha angústia, das minhas dúvidas...nunca vieram
me avisar:
- Sujeito, toma tento.
E não é de hoje a história.
Vem de longe.
Sabem o que Kami? É a parte insubstancial
de uma coisa ou pessoa....é a nossa alma, acho. É por
isso que quando a alma doe, não tem analgésico que dê
jeito...ela é insubstancial.
Sabem o que prega o xintoísmo?
Prega o culto natural de mitos e lendas nas quais
ninguém acredita sinceramente, mas veneram totalmente...pode?
Não é mais ou menos o que fazem....deixa
pra lá, que já fui excomungado uma vez pelo bispo. Lembram
da história da laranja, da faca e do garfo?
Não quero virar as costas para a herança
cultural que recebi da minha família, para toda uma criação
esmerada e até porque....e se é tudo verdade?
Chego no céu e faço ou falo o quê
para o Homem? Digo que mesmo com a minha crença meia-boca, procurei
fazer o que Ele pregou, vai bastar?
E pior, olho por cima dos ombros Dele e vejo o
Consa todo pimpolho junto aos anjinhos e suas harpinhas, cantando Lenha
e, reclamando, ouço:
- Uai sujeito, você foi Secretário
da Cultura em governo do PT?
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Dezembro de 2010
CONSCIÊNCIA
CÓSMICA
O que diz o Aurélio,
não o Rosalino, mas o dicionário sobre o que vem a ser
consciência: senso de responsabilidade, percepção,
conhecimento... basicamente conhecimento.
E o que diz sobre Cosmos? Responde pura e simplesmente:
universo. Curto e grosso. Mas o Wikipedia traz mais algumas coisas,
tais como: um universo e seu conjunto, toda a estrutura universal, é
a totalidade de todas as coisas ordenadas.
E o que estuda a Cosmologia?
É um ramo da astronomia que estuda a origem,
a estrutura e a evolução do universo a partir da aplicação
de métodos científicos.
Bem, o que é consciência cósmica,
então?
Iluminação mística é
também conhecida por consciência cósmica. Aquela
é um dos principais objetivos dos estudantes de misticismo. Um
estudante de misticismo, então, é um místico.
E o que é um místico?
O iniciado que alcançou o segredo foi chamado
de místico.
Por definição é a prática,
estudo e aplicação das leis que unem o homem à
natureza e a Deus. Para estudo de Deus temos a Teologia e para ao que
nos une à natureza, temos todas as ciências. Não
estariam misturando tudo e fazendo um balaio de gatos?
Ainda não entendi o porquê de se
considerar uma consciência cósmica.
Bem, li que um senhor chamado Richard Bucke chegou
em casa, estava tranquilo e de repente se viu envolvido em uma nuvem
flamejante e colorida. Em seguida, sentiu imensa felicidade e iluminação
intelectual e isso marcou profundamente a sua vida. Daí em diante,
passou a possuir uma nova faculdade chamada de Consciência Cósmica,
ou seja, uma nova capacidade.
Como diria aquele locutor Milton Leite: Mééééééúuuu
Déééééús!!!
No tal de Bucke apareceu esta faculdade e a teoria
dessa corrente de pensamento diz que, no início, ela aparece
em um só individuo. À medida que o tempo passa, outros
vão adquirindo-na até que ao fim de milhares de anos,
todos os indivíduos a terão.
To fu. Do jeito que sou azarado, consciência
cósmica em mim... Jamais.
Que fique claro, eu sou criacionista-Deista. Assim
como a Igreja Católica Apostólica Romana o é. Explico
em resumo: tudo foi feito segundo a lei de Darwim, conforme narram as
suas experiências e teorias mas, aconteceu pela vontade de um
SER maior. Assim ficam felizes gregos e troianos.
Consciência cósmica tem a ver com
ciência? Acho que não, pois no caso há suposições,
achismos e que tais. Conhecimento é outra coisa. Eu não
acho que dois mais dois totalizam quatro. Eu sei.
Reflexão é função
do intelecto... estou tentanto, gostaria de entender sobre estas coisas,
mas, quem sabe ainda não atingi, e talvez nunca o consiga, a
iluminação.
- Hein! Eu? Babaca... ué, até pode
ser.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Novembro de 2010
VELHO NO BLOG
Lugar de velho é ao lado
do berço do neto ou com a tesoura e o regador, cuidando do canteiro
de flores, no jardim... 'véio' no blog, definitivamente, não
dá certo.
Falam em conflito de gerações e
outras teorias que, no final, dizem a mesma coisa. Nada disso, não
há conflito... Apenas separação de jeitos de ser.
Falando nesse tipo de comunicação,
um senhor, mesmo com o espírito ainda de trinta anos, como eu,
resolve abrir um blog para postar as suas crônicas, contos e poesias.
Não se atem aos temas sisudos, compenetrados como deveria ser
com um 'cabra' da sua idade. Aventura-se por assuntos, digamos, mais
feceninos, justamente para ter acesso a esta geração mais
liberal, menos comprometida com valores 'inventilados' – se o
Maggi pode, eu posso também – e o que acontece?
Outro dia postei no meu espaço uma crônica,
'Só quarenta', com um final que sugeria uma bela cantada por
parte da dama, coisa só possível em nossos dias, enfatizando
a igualdade de direitos, mostrando que se há o interesse de uma
mulher por um homem, ela também pode se insinuar. Mostrando ainda
que não há mais posições fixas de caça
e caçador, que a ação demonstrará quem é
um e quem é outro no jogo da sedução.
Pois muito bem, uma linda e talentosa fofa disse,
no comentário: "Oi, comenta lá no meu blog."
Ela nem leu o meu texto, nenhuma consideração
fez, nada que tivesse sugerido que, ao menos o nome, tivesse lido.
Mas, se dúvida, leia os comentários
trocados entre eles: "Oiii foooofa, qui chiqui!", ou então:
"Ameeeeeeiiii!!!", também tem: "Nooooosssaaa,
você aaaaaaarrraaasssouuuu!!!!"; não falta o: "Vvocê
estááá bombannnndooo, querida!!!".
E entre pessoas mais maduras a gente tem que tomar
cuidado. Ou você concorda com o que é dito ou cala a boquinha;
você pode falar o que quiser, desde que concorde.
Temas polêmicos, que são os que dão
margem à troca de opiniões não geram comentários
pertinentes, não são esmiuçados a contento e, quase
sempre, vê-se a superficialidade dos comentário.
Quantas vezes eu mudei a minha opinião
por ter prestado atenção em uma que confrontava a minha.
- Ah! Então você não tem personalidade,
é dos que mudam com facilidade.
Não mudo com facilidade, mudo com a força
e a consistência da opinião contrária a minha.
Jovem não lê velho porque o papo
desse não é Funk, noir, sepulturesco, havvy. Velho gosta
mais de Silvio Caldas do que de Alice Cooper. Velho não lê
velho porque se acha superior, mais gostosão da bala chita, mais
intelectual.
Resultado: vou continuar com o meu blog e escrever
só para mim. Afinal, mais lúcido e inteligente que eu....quem?
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Novembro de 2010
SÓ QUARENTA
Há quem diga que os tempos
mudaram.... para pior.
Licenciosidade, liberalidade e afins, seriam as
características do mundo de hoje.
Não acho. Para mim nada mudou porque na
sua essência o ser humano é sempre o mesmo. Da msma forma
que a Cleópatra deu em cima do Marco Antônio, a Lurdinha
parte pra cima do Joaquim, da farmácia.
Ainda acho que a mulher de hoje é mais
ousada e o homem mais atrevido.
Escuta, você já ouviu falar de Calígula,
o rei dos bacanais?
Creso era um sujeito chegando aos quarenta, alto,
forte e sobretudo usava uma camisa Armani e um cinto, combinando com
uma capanga da Gucci. Não era moralista e, como se diz no MSN,
disponível.
Sônia, alta, morena, boca carnuda, olhos
verdes e com capacidade suficiente para perceber que ali estava a metade
que lhe fora tirada por Zeus, naquela história contada por Platão
em 'O banquete'. Aquela que conta o mito do narcisismo, fala de androgenia.
O encontro foi casual. Restaurante cheio, nenhum
lugar para ela e Creso, sozinho, convidou-a para a sua mesa.
Depois daquele papo inicial, meio assim-assim,
os temas foram ficando cada vez mais consistentes e quando deram por
conta, estavam falando sobre comportamento humano.
Ela, advogada bem-sucedida e ele um psicanalista
afastado da clínica, por precisar cuidar dos negócios
da família. O pai, velho e doente, não poderia fazê-lo
mais.
- Então, Sônia, a sua amiga Lurdinha
não participaria dos bacanais do Calígula?
- Não tenha tanta certeza. De qualquer
forma Cleópatra tiraria a roupa na frente de uma webcan?
Dando boas gargalhadas, esgotaram o tema.
- Vou chamar o maitre. Você já pensou
no que comer? perguntou Creso.
- Acho que uma boa massa cairia bem.
- Eu estava pensando em um peixe, acompanhado
de um bom vinho tinto.
- Creso, peixe com vinho tinto? Sempre ouvi que
esse tipo de carne fica melhor com vinho branco.
- Em princípio, sim. Ocorre que se o tinto
tiver baixa quantidade de ferro, não deixará o gosto residual
amargo na boca. O vinho branco não tem o tanino do tinto, mas
é a alta quantidade de ferro que constitui o problema.
- Nossa, você é um excelente gourmet.
Como costuma ser a sua alimentação habitual?
- Não sou um glutão, prefiro comidas
mais leves.
E conversando alegremente, chegaram ao final da
refeição.
- Posso te levar para casa, Sônia?
- Ah! Que pena. Estou com o meu carro no estacionamento
ali da esquina. O do restaurante estava lotado.
- Bem, então eu vou levá-la ao carro.
Ceso já estava entrando na garagem da sua
casa, quando o celular tocou.
- É a Sônia. Queria te avisar que
eu peso quarenta quilos.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Novembro de 2010
ÁI JESUS!
Língua danada essa nossa.
Perguntei outro dia, antes da realização
do segundo turno, para um professor de Português, como ficaria
se a senhora Dilma ganhasse a eleição para o mais alto
cargo do executivo: teríamos uma presidente ou uma presidenta?
Eu já tinha ido ao pai... ao dicionário
e visto o que diz o mestre Houaiss sobre o assunto e lá está
que a palavra pode ser presidente para o masculino e para o feminino.
Li ainda que, segundo os assessores mais próximos,
como Dilma sempre disse preferir a denominação presidenta,
a regra deve ser esta e que a norma pode ser estabelecida em uma reunião
da equipe.
E mais. Um senhor Fábio Arruda disse que
presidenta é foneticamente feio mas que para agradar a madame,
isso possa pegar.
Sendo um substantivo comum de dois o que definirá
o termo é o artigo O ou A. Foi assim que a dona Areostina Pinheiro
me ensinou... mas o Volp registra a palavra presidenta, tornando correta
as duas formas.
Mas, porém que pode ser todavia ou contudo
ou o próprio porém existe um senhor chamado Marcelo Onofre
dizendo que no português existem os particípios ativos
como derivativos verbais. Por exemplo, continua o Marcelo, o particípio
ativo do verbo atacar é atacante; de pedir é pedinte,
de cantar é cantante, o de existir é existente, e pergunta:
qual é o particípio ativo do verbo ser? Responde: e ente.
Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade
(lembrei-me do Heitor Gomes, ele tem entidade, ruim mas tem).
Diz ainda: quando queremos designar alguém
com capacidade para exercer ação que expressa um verbo,
há que se adicionar à raíz verbal os sufixos ante,
ente ou inte. Logo a pessoa que preside é presidente e não
presidenta, independentemente do sexo que tenha.
Arremata: diz-se capela ardente, estudante, paciente,
adolescente.
Pelo visto, não fica o termo a ser usado
à mercê da vontade das pessoas. A ser assim, vira bagunça.
Nem bem tomou posse e já tumultua o coreto.
Espero que fique por aí, senhora... Cristo! e agora?
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Outubro de 2010
POIS É
Ouvir
um mal informado, um infeliz de pouca cultura falar inverdades, até
que dá para aceitar.
O que não desce é ouvir de pessoas
de “fina stampa” uma avalanche de bobagens e dentre elas:
Ah! Em Araçatuba não se faz nada pela cultura e quando
se faz é para atender aos interesses de meia dúzia.
Nesse caso, tem mais coisa envolvida... e ela
não é boa.
Vejamos uma coisa que não é boa:
os interesses menores de políticos menores ainda. O pior é
vislumbrar que eles poderão ser atendidos nas suas vergonhosas
pretenções.
Quando foi que tanto foi feito pela cultura de
Araçatuba, quando foi que os projetos buscaram atender aos interesses
da classe menos favorecida, quando foi que ela foi levada tanto à
periferia?
Como não sou um Emile Zolá, não
farei aqui uma série de J”accuse mas um só: acuso
certos políticos derrotados na última eleição
de quererem vingarem-se do povo de Araçatuba e região,
tirando-lhes senão o único, um dos raros secretários
que realmente está lutando por ele.
Só espero que Deus ilumine mais ainda QUEM
de direito para que não se deixe levar por esses coitados que
só pensam nos seus interesses mesquinhos, até porque,
de hoje em diante, eles pouco poderão oferecer, haja vista a
“expressiva” votação que tiveram.
Então, a Culturaça, o Projeto Guri,
o Curso de Balé, o Folclorata, a Semana da Literatura, os literatos
ilustres que estão sendo convidados para palestras, os eventos
musicais levados ao povo nos mais diversos locais da cidade, o incentivo
aos músicos, artistas plásticos, todos os esforços
na recuperação e modernização dos espaços
de cultura; o Festara, que ora terminou e que trouxe magníficas
peças, lotando o Thati Coc quase todos os dias, é nada?
Montar uma equipe competente e trabalhadora como
a que existe, conhecedora dos mínimos detalhes em todos os segmentos
para a administração de uma Secretaria de Cultura é
nada?
PelamordeDeus!.
Demitir o secretário da Vultura e dizer
ao povo de Araçatuba: 'Dane-se!'
E isso pode ser fatal, mormente considerando-se
que nova liderança política mostra sua mãozinha
fora da manga. E o “cara” é bom no que faz.
O povo de Araçatuba, sobretudo os eleitores
conscientes que a cada dia aumenta de número, saberá dizer
'MUITO OBRIGADO' ao “quem de direito” se ele mantiver o
seu competente auxiliar na administração e deixar que
rolem pelo ralo da vida aqueles que só sabem fazer politicalha.
Dizem que político é aquele que
faz de uma solução, um problema...
Merde! Não é que
é mesmo...
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Outubro de 2010
IPÊ FLORIDO
Olha, o pé de ipê
voltou a florir.
Talvez seja a natureza prestando
uma homenagem à primavera. Ou seria...
Toshiro era um otorrinolaringologista
prestando serviço na universidade; preparava médicos residentes.
Retornava para a sua casa e viu a árvore plantada por Mariana,
sua esposa, também médica.
Parou o carro no acostamento,
fechou os olhos e...
Mariana, uma mulher suave, com
um rosto simetricamente perfeito, recebera da sua avó um lindo
anel de jade, que combinava com a cor dos olhos e sua pele morena. Transferiu
ao mimo, todo o amor que sentia pela mulher que a criara.
Um dia, estando de serviço
no ambulatório do hospital, notou que um paciente olhava insistentemente
para o seu anel. Apesar de não ter dado importância ao
fato, comentou-o em casa.
O esposo professava uma filosofia
que pregava uma máxima que Mariana aceitou pelo amor ao marido:
uma pessoa nunca deve ter nenhuma de suas partes separadas do corpo
sob pena de procurá-la durante a eternidade.
Como poderia aceitar isso sendo
médica?
Ela e tampouco a família
deram importância à crença.
A ligação de Mariana
com aquela árvore...
Sempre, ao ir para o trabalho,
se despedia sorrindo do pé de ipê. Parecia que esse preparava
um lindo tapete amarelo para vê-la passar.
Voltando tarde, depois de uma
noite muito desgastante, ao dobrar a esquina, notou um corpo caído
ao lado de uma bicicleta.
- Meu Deus! E agora? Presto
socorro ou não?
Obrigada pelo senso profissional
e retidão de caráter, desceu do carro e aproximou-se da
suposta vítima.
Um único golpe e a sua
jugular foi aberta.
Encontraram o corpo e nele faltava
... o dedo.
As diligências policiais
foram difíceis mas, o mais complicado, foi que Toshiro queria
encontrar o que faltava ao corpo para enterrá-lo completo, para
que a alma da falecida não vagasse errante pelo tempo que não
finda...nada.
O tempo passou e nele, o ipê
não floriu.
Aquelas flores amarelas que enquadravam
a residência, dando-lhe ares de uma pintura de Renoir, não
mais apareceram. Pudera, a mais bela...
O médico-professor foi
ao depósito buscar uma peça, que nada mais é do
que uma parte do corpo humano, conservada em formol, para ilustrar uma
aula de anatomia.
Na busca do que precisava, notou
que dentro de um vidro estava um dedo, bem conservado.
Durante a noite sonhou com Mariana:
'Amor, aquele dedo no depósito é o meu.'
Sem se dar conta, estava em pé
no quarto escuro. Chorando. De imediato correu para o hospital.
Os trâmites jurídicos
para que entrasse na posse daquilo que significava a paz para a sua
amada e ainda o deferimento à sua pretensão de exumação
do corpo, foram difíceis. Afinal, a tese do patrono da causa,
fugia à normalidade: Mariana precisa daquele dedo para completar
o seu corpo e deixar de vagar por uma eternidade que mal começara.
Com a pertinente autorização
legal, correu em busca do dedo... onde estaria? Havia sumido.
Mesmo em desespero, nada disse
às autoridades.
O caixão foi aberto. Ao
lado da mão incompleta, um dedo em avançado estado de
putrefação.
Como o vidro do carro estava
aberto, uma flor vinda do pé de ipê, trazida pelo vento,
pousou em seus lábios... Será?
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras.
Outubro de 2010
JESUS TE AMA...
No que passou pela porteira de
entrada da fazenda, Luizão avistou a velha figueira. Sentiu duas
coisas, simultâneas: um arrepio no couro cabeludo e... não
é possível!
Capataz da fazenda Quatro Marcos,
tinha aos seus cuidados uma turma de peões para cuidar das mais
variadas atividades do empreendimento; tinha o respeito dos patrões
e dos seus comandados.
Dona Esmeridiana, a patroa, gostava
muito do seu funcionário. Sempre que o via saindo para a lida,
acenava-lhe com a mão e dizia: 'Vá com Deus, meu filho,
Jesus te ama.'
Imediatamente, Juvêncio,
seu auxiliar, dizia:
- Que ama, ama. Mas ninguém
sabe o porquê.
- Sujeitinho mais filho de uma...
Ocorre que Luizão, mesmo
sendo responsável e competente no trabalho, era um glosador desmedido.
Nada ficava sem uma piada de sua parte; ninguém escapava da sua
boca maldita.
Era comum nas tardes quentes,
depois do serviço, ficarem reunidos na frente da casa da fazenda,
comendo uma carninha, acompanhada de uma pinga produzida ali mesmo,
tocando uma viola e recordando os hits sertanejos. Nesses momentos,
vocês que falam tanto em poesia, deveriam estar presentes... iriam,
de fato, vivê-la.
Entremeando as músicas,
sempre uma história "cabeluda”; ou era a tropa, que
na guerra do Paraguai havia passado por ali ou era o “seo”
Lurdinho, que tinha caído no poço e morrido aos berros
que ninguém escutou.
Era aí que o Luizão
fazia das suas. Mandava todos se calarem e dizia estar escutando, ou
o berro do Lurdinho ou a marcha da tropa.
- Escuuutem, os soldados estão
chegando...
E sempre havia algum tonto para
“ escutar” mesmo o que ele alegava.
Um dia, Crispina, uma crioulinha
danada e dotada por Deus de todas as linduras deste mundo foi buscar
ovo perto do chiqueiro. Passando pelo poço artesiano escutou
uma voz vinda lá do fundo: 'Crispiiiina, me dá um beijo?'
Ficou desmaiada “um ano”.
Mais tarde, soube-se que o desgraçado do Luizão tinha
entrado no poço para limpá-lo e ao sair, viu a aproximação
da menina... Aprontou.
Sabe-se que jiboia não
é cobra peçonhenta. Um dia, Marcão, o mecânico
da fazenda, estava em baixo do caminhão trocando uma ponta de
eixo. O capataz levado da breca, devagar, colocou uma daquela sobre
a barriga do coitado. Até esse perceber que era uma cobra inofensiva,
passou por momento de terror verdadeiro.
Assim, Luizão ia brincando
com as coisas deste mundo e... do outro.
Um dia, Maneco chegou assustado,
cavalo em desabalada carreira, ofegante. Tinha ido até à
vila comprar umas coisinhas, ficou de prosa com alguns amigos e se atrasou.
Ninguém gostava de chegar tarde na fazenda. Naquela figueira
depois do mata-burro havia um “trem" qualquer.
- Patrão, ao passar pela
árvore, senti que a marcha do cavalo ficou mais pesada. Tive
a impressão que havia alguém na garupa.
Luizão escutou e sapecou:
- Foi aquele seu namorado que
morreu o ano retrasado, Maneco. Ele veio fazer uma visitinha.
A turma glosou, Maneco xingou
e vaticinou: vai brincando seu cabra safado. Um dia...
Mas que o quê. Ele não
acreditava em coisa do outro mundo.
Luizão foi cuidar de outra
fazenda do patrão no longínquo Pará. Ficou muitos
anos sem vir até onde começara a sua vida.
Um dia, estava de férias
e resolveu rever a antiga turma. Chegou na vila já tarde da noite
e pegou o cavalo deixado à sua disposição. Estava
ansioso para chegar à sede.
Vinha despreocupado, esquecido
das velhas histórias, assobiando baixo.
Destravou a tranca da porteira,
passou, tornou a fechá-la e...
Lá está a velha
figueira! - exclamou.
Quando passava pela grande sombra
da árvore:
- Vichi Maria! Valha-me Nossa
Senhora!
Em seguida ao arrepio, o cavalo
estancou a marcha e ele ouviu:
- Seja bem vindo, Luizão,
Jesus te ama.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras..
Sembro de 2010
É QUESTÃO
DE PERGUNTAR: ATÉ QUANDO?
Quatro da manhã levanta
o cidadão
Queria um banheiro - banheiro: não tem
não,
Tem privada de buraco... lava as partes com sabão
Sai correndo pra labuta.
E dinheiro pro transporte...
O coitado, não tem não!
Seus filhos vão pra escola pra comer: nunca
tem pão!
E os panfletos tão na rua só falando
de eleição...
O coitado tem certeza - melhoria, não vem
não!
Tem voltade de apelar, mas se apega na oração
Inda bem que os seus pais sem dinheiro pra deixar
Llhe deixaram educação e, e apesar
dos contratempos
Bandidagem? Não vai não...
E ste é o pobre retrato de um sofrido cidadão.
Mas é questão de perguntar:
até quando?
Não se concebe que estes problemas não
tenham soluções, sobretudo nos dias contemporâneos,
nos quais as ciências alcançaram tão alto grau de
excelência. É revoltante ainda ouvir dizer que para fazer
isso ou aquilo é necessário que se tenha vontade política.
Por que não tê-la, nunca a tiveram então? Cabe a
pergunta, uma vez que os problemas são sempre os mesmos e as
soluções são sempre as mais utópicas e distantes
da realidade. Por isso, persistem. Vejamos a questão da educação.
Quem não quer que o seu filho tenha acesso à uma boa educação?
Mas o que se ouve é que educação não dá
voto. Talvez por isso é que 3% das comarcas não possuam
Vara de Infância e Juventude, mais de oitocentas mil crianças
entre 7 e 14 anos de idade estão fora da escola e ainda se espera
que até 2011 a frequência às creches chegue a 50%
e 80% na pré-escola; estarrece ainda a informação
que em muitas cidades o secretário da Educação
não sabe qual é o orçamento para a sua propria
pasta. Ah! estes números já diminuiram; pode ser, mas
não desapareceram.
Segundo reportagem de revista semanal, municípios
onde se gastou mais com educação, os prefeitos tiveram
menos chance de se reelegerem ou elegerem seus sucessores. A que ponto
chegamos. Bem feito para mim, para você e para todos nós.
Só um lembrete, o rap acima conclama a
que se tome cuidado, quem um dia derrubou uma Bastilha, bem pode cismar
de derrubar uma Brasília.
Hein! você votou direito? fez a sua parte?
Não vendeu seu voto?
Hoje já somos muitos a fazer isso mas ainda
é pouco. Quem sabe amanhã sejamos todos e aí o
Brasil deixará de ser o país do futuro.... mas se este
tênis novo no seu pé foi trocado pelo seu voto, que Deus
te perdoe, porque eu quero mais é que você se dane!
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras..
Setembro de 2010
OUTRO
Uma estrela percorria o firmamento
Na planície verde, um jumento.
No quarto vazio, em um computador, outro.
Em outro, lendo um monte de merda
Outro...
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras..
Setembro de 2010
FELIZ NATAL
José e Cláudio,
todos os anos, logo no primeiro dia das férias, colocavam as
respectivas famílias nos carros e iam para alguma praia. Gostavam
muito de ir para Florianópolis. Alugavam sempre a mesma casa
na Lagoa da Conceição, quase ali onde a beira-mar se divide,
uma indo para as Canasvieiras e a outra para a Joaquina. Como se diz:
na boca do gol.
Um belo ano as férias
vieram com certo atraso e tiveram que viajar no dia 24 de dezembro,
véspera do natal. Saíram já pelo meio do dia e
“se mandaram”, mas como íam com crianças e
adolescentes, as paradas eram obrigatórias, o que atrasava a
viagem. Era férias, não havia pressa e a alegria reinava.
Por volta das onze horas começaram
a procurar um lugar decente para descansar e fazer a ceia natalina.
Rodaram mais um pouco e minutos antes da meia noite viram um restaurante,
típico de beira de estrada e: "é aqui mesmo né
Zé".
- Vamos nessa!
Desceram, examinaram o local...
meio esquisito
- Você queria o quê,
o meu! Um Fasano aqui neste fim de mundo?
Não era bem o local, sua
parte física... era mais os freqüentadores. Havia algo que,
se não estava errado, também não estava muito explicado.
- Quer saber, é época
de confraternização, de aceitação do próximo,
de desarmar os espíritos.
Pediram lá o que comer
e enquanto esperavam, ficaram se distraindo com as cervejas, que estavam
bem geladas.
Tanto a filha de um quanto a
do outro, já meninotas, foram ao banheiro e demoraram mais que
o normal; quando já iam ver o que estava acontecendo, as duas
apareceram maquiadas; uma maquiagem forte, típica das mulheres
da vida airosa:
- Pô meu, que diabo é
isso?
- Quem fez isso em vocês?
- Ah! Duas moças que
disseram que somos bonitas e fizeram esta maquiagem na gente.
Para não ferir suscetibilidades,
deixaram como estava. Assim que fossem embora, parariam para remover
aquela desgraceira. O problema foi convencer a mãe de uma das
meninas a esperar: elas estão com cara de biscate...
Enquanto discutiam o fato, o
filho de um deles, aí por volta dos cinco anos, sem que os pais
vissem subiu por uma escada e sumiu lá pra cima.
- Quem vai buscar?
- Eu não vou, vai você.
Vai você, não vou
e de repente o menino desce:
- Pai, tem um homem e uma mulher
pelados lá em cima, ele está em cima dela, apertando ela
na cama e acho que está batendo na coitada...
O menino não tinha terminado
a palavra coitada e as mulheres saíram arrastando tudo, jogando
pratos e copos no chão na correria para o carro... morrendo de
vergonha.
- Ah! Meu Deus. Praga de menino,
ele não está matando ninguém.
- Uai pai, o que eles estão
fazendo, então?
- Eles estão... estão...
Já com a sua mãe lá no carro, coisa ruim!
Bem, alguém tinha que
pagar as despesas. Houve uma certa demora, ainda havia pratos solicitados
que não tinham sido servidos. Procurava-se a possibilidade de
embalá-los para viagem, não havia esse tipo de atendimento.
- E aí, vão morar
no rende-vouz agora, seus safados. Gostaram de alguma puta?
Os dois chefes de família,
homens honrados, saíram sob os xingamentos das “meninas
“ e as gargalhadas dos homens presentes. Puta que o pariu, vésp...
que véspera que nada, no dia de natal. E o Jesus menino vendo
esta desgraceira toda.
Culpado? Só se foi Deus.
Quem poderia imaginar que a gente estava parando, para passar a virada
de natal, em um puteiro...
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras..
Setembro de 2010
PALAVRAS DE
AGRADECIMENTOS
É comum ouvir dizer que
impera um mau gosto danado em relação às artes
em geral, e à música, em particular.
Já li também que
a população tem o que prefere, ou seja, nos restaurantes
e locais de som ao vivo, impera o sertanejo e outros ritmos “menos
nobres”. Como em arte não há juízo absoluto
para julgamento, o que é bom pra mim, pode não ser bom
para outro... então! Ocorre que o que é bom para mim,
está difícil de encontrar... ou estava.
Estava, e não é
só graças a Deus.
Os movimentos que trazem arte
de boa qualidade estão num crescendo, que dá gosto de
ver e o porquê é evidente: o povo gosta do que é
bom e prestigia. Vários pólos irradiadores de cultura
estão se movimentando e interagindo, o que dá mais força
à causa.
A presença da Secretaria
da Cultura nesse papel é formidável, como incentivadora
e gestora de inúmeros movimentos pela cidade.
Não só nos eventos
culturais do seu próprio calendário, como a Culturaça,
realizados nos bairros da cidade, nos quais todos os segmentos da arte
estão presentes, assim como o Folclorata, no qual o folclore
de Araçatuba é mostrado à população.
Ainda há outros. Também auxilia, dentro das suas limitações,
outras atividades. Ainda recentemente, trouxe o duo formado por Euclides
Marques e Luizinho sete cordas que apresentou choros, marchas, valsas
e sambas, emocionando uma praça tomada por pessoas amantes da
boa música.
Outro momento marcante foi a
presença do grupo Raízes do Samba, mas samba de raiz,
aquele que é eterno. São integrantes: Beltrão (violão
e voz), Rafael (cavaco), Alex (percussão e voz), Antônio
Carlos (pandeiro), Osmar e Chu (timba e voz). Apresentaram-se como convidados:
José Soares, Deana Inazawa, Regina Rocha, Suelly Rodrigues. Comemoraram
com brilhantemente o centenário de Adoniram Barbosa e Noel Rosa.
Outro grupo que conta com o
apoio da Secretária da Cultura é o Amigos da Seresta,
ainda sob a batuta do professor Beltrão e coordenado por Aurélio
Rosalino. Nesse, além daqueles do Raízes, ainda Amauri
Santos, Maria José, Daniele, Ana Lúcia, Elaine Alencar,
Lúcio Colichio, Mario Eugênio, Marilurdes Campezzi, José
Hamilton Brito e Antônia Andreoti. A apresentadora dos espetáculos
do grupo é sempre Maria Lucia.
Dando incentivo e apoio a tudo
o que se faz em prol da cultura, como sempre, a Folha da Região,
a Ciadosblogueiros e o site Aracatuba e Regiao. A todos, obrigado.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras..
Setembro de 2010
CALA A BOCA,
MAURICE...
Uma
Academia de Letras tem a finalidade de cultivar a língua e a
literatura nacional. Temos a nossa aqui em Araçatuba e os objetivos
acima mencionados, ela luta por cumprir.
Fui buscar no discurso de Machado
de Assis, no longínquo julho de 1987, a certeza de que os nossos
acadêmicos procuram atender ao apelo que o grande escritor fez
no seu discurso de posse, como presidente:
“Passai aos vossos sucessores
o pensamento e a vontade iniciais, para que eles o transmitam aos seus,
e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas
da nossa vida brasileira”
Fiat lux....lux, no caso, o Grupo
Experimental da Academia Araçatubense de Letras.
Criador e criatura, hoje, esquecendo
ligeiros e ocasionais percalços, se integram em cultivar a língua
e a literatura nacional. Ultimamente, também a literatura “
da casa”, posto que diversos autores da cidade tiveram suas vidas
e obras levadas às escolas na Semana da Literatura. O meu grupo,
já no ano passado, falou da escritora Rita Lavoyer. Este ano,
falamos de Marilurdes Martins Campezzi e de José Geraldo Martinez.
A meninada quis saber sobre eles,
o que faziam, onde moravam, disputaram os seus livros e se entusiasmaram...
parece que desconheciam que aqui temos os nossos escritores e que eles
são tão bons quanto.
“os confrades e confreiras
que, até agora, mais deram respaldo a Helio Consolaro nesta significativa
obra que é o Grupo Experimental da AAL... foram Cecília
Ferreira, Tito Damazo e Lúcia Piantino”.
Ainda estão presentes;
mais diretamente Cecília Ferreira, Marilurdes Campezi, Yara Pedro
e mais à distância, mas nunca negando uma palavra de incentivo
e carinho os demais, dentre os quais, destaco por imperioso, o professor
Tito, a acadêmica Maria Luzia Vilela, minha querida amiga e a
minha também muito querida, professora Maria Aparecida Baracat.
Mas voltemos ao Maurice, que
outro não é senão o Maurice Druon, escritor que
escreveu o sanguinário Chat dês Partisans; o cidadão,
na velhice, deu uma de machista, bombardeando a entrada das mulheres
na Academia Francesa de Letras. Dizia que elas, se admitidas, fariam
grupos “ tricotando” durante as discussões sobre
o dicionário.
Mon Dieu! Não seria “
bunitinho” ver a Lula, a Cecília, a Yara, a Cidinha, a
Pinhatino, dona Maria Luzia, fazendo os seus tricozinhos durante as
reuniões acadêmicas?
Ainda bem que o Maurice perdeu
a batalha; esteja onde estiver, o danado deve estar vendo o que estão
fazendo as nossas acadêmicas.
...E Deo Gratias!
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras..
O QUE FAZER?
Trabalhou a vida inteira. Amava
o que fazia; era uma atividade dinâmica. A competição,
acirrada. Justificava-se tanta garra com a necessidade de ganhar o sustento
da família. Havia, no íntimo, uma mola poderosa que o
impelia cada vez a dedicar-se mais. Queria, na verdade ser o melhor.
A estrela que mais brilhasse. Ser apontado como o de carreira mais promissora.
Havia sempre dois ou três que deveriam ser observados, pois eram
os que com ele mais competiam pelo lugar mais alto no podium. Não
há quem não queira o sucesso e isso não é
pecado. Colocar o produto no melhor ponto de venda, fazer a operação
mais lucrativa e fazer convergir sobre ele os olhos admirados dos superiores.
Ganhar os prêmios e comissões, chegar em casa e ver o orgulho
estampado nos rostos da esposa e dos filhos. Quantas noites em claro,
lutando para entender o desgraçado do tal de ciclo RAA, uma maldita
de uma renina que sob a ação de um angiotensiógeno
se tranformava em angiotensina um e que... puxa vida. E não soubesse
essas desgraceiras todas pra ver. Mais era bom chegar nas convenções
e ganhar o videocassete dado ao primeiro lugar na simulada médica.
Quantas foram as madrugadas
nas quais pegava o carro e ia cobrir o setor de trabalho ou para as
reuniões de ciclo, nas quais os resultados eram cobrados , os
novos objetivos traçados e as avaliações de conhecimento
eram feitas.
Toda essa carga de responsabilidade,
tendo, em muitas ocasiões, um filho doente no berço ou
uma dívida pendente.
Havia, é verdade, toda
uma assessoria auxiliando na preparação do profissional
e dando-lhe suporte mas, em quantos momentos foi decisivo o fato dele
se bastar. Não tinha essa de se tornar celebridade, mas quando
os holofotes o procuravam nos eventos internos da empresa, tudo se ajustava
na cabeça, as emoções do reconhecimento fazendo
esquecer todas as agruras.
A alternância entre os
momentos de doçura e os de amargura era tão repentina,
que não havia tempo para o prazer ou o sofrer... Mas o pouquinho
de prazer que se conseguia, era eterno. Esquecia-se do resto.
Mas essas coisas não
são próprias somente dessa atividade. E daí, não
se está falando de todas, mas de uma só... A dele.
De repente, um flash de amargura
vem com o quantum de tempo já ido. Olha em volta, vê uma
garotada, vê antigos colegas, competidores dignos já com
os chinelos e pensa: está chegando a hora. Quando chegará
a minha ?
- Deus, afaste este cálice
de mim.
Mas Ele não tem muito
a ver com isso, tudo fruto da nossa própria organização
de vida. Será procurado para dar conforto nas horas de amargura,
servir de lenitivo, fazer o papel de Pai.
De repente e não mais
que de repente.. "cadê você, cadê você...
outros repetem as suas jogadas... no vídeo taipe da vida, a história
gravou".
Um dia, levantou-se para a jornada
diária de trabalho. Como fazia sempre, foi barbear-se.
No espelho, o "outro" lhe disse, quase que sussurrando:
- Vai dormir, seu tonto. Você
já era.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras..
Agosto de 2010
O SUPINO?
O dia mais difícil da
sua vida, foi o ontem.
Nele, veio ao mundo em um lar,
família classe média, proprietária de terras, gente
boa e trabalhadora.
Perto da casa, um rio, uma cachoeira
pequena, um remanso onde havia uma bacia natural na qual as mulheres
lavavam as roupas.
A vida corria, como se diz:
legal.
Um dia, ainda recente na memória
apesar do tempo, o menino ficou em pé na porta da cozinha, com
as pernas e braços abertos. O cachorro da casa, não tendo
por onde passar, passou por entre as suas pernas e o levou junto lá
pra baixo..., a casa ficava mais elevada, para evitar os danos do rio,
nas enchentes.
Um braço quebrado. Era
tarde, quase por anoitecer. Seu tio, colocou-o nas costas e foi rumo
à estação para pegar “o noturno”; esse,
já havia partido. Restou uma caminhada de mais de vinte quilômetros
até a cidade, onde os cuidados médicos seriam tomados.
O tempo passou, o braço
sarou e a vida mudou.
Já meninão, foi
estudar para ser padre, por influência do meio no qual vivia e
porque alguns amigos disseram que iam, foi também.
Rezar, estudar, praticar esportes.
Quando não era assim, era praticar esportes, estudar e rezar.
Vocês sabem o que é o supino? Pois é: ele sabe.
Nos retiros espirituais, por
ocasião da semana de carnaval, incomunicabilidade por três
dias consecutivos. Formava-se grupo de três seminaristas que caminhavam
pelas dependências do seminário, sob observação
dos padres e a única coisa permitida era rezar o rosário.
Havia um puxador e os outros ficavam com os ora pro nóbis.
Ave Maria, cheia de graça:
“Cacete, você me deu uma paulada naquele lance”, o
senhor é convosco "Ah! Você que é frouxo”,
bendita sois vós: “Frouxo é sua mãe”.
E assim oravam, conversavam
e acho que Nossa Senhora ria lá de cima... Corja!
Havia um padre que gostava de
vinho. No ofertório, o coroinha colocava três gotas no
cálice. O padre ficava esperando, olhando com cara de bravo.
O menino colocava mais um pouquinho... nada. O padre ali, olhando feio.
O jeito era derramar. Um dia, na sacristia, o padre disse:
- Olha, “firio”
io non vô ti excomungá. Vô te quebrar a cara, desgraciato.
O vinho é seu?
Deus dispôs e o menino
saiu do seminário; aliás, Ele não dispôs.
Na verdade, pôs um rabo de saia no caminho do já adolescente,
em uma das últimas férias. Viram, contaram para o pároco
da cidade e a igreja perdeu, quem sabe, um bispo ou até mais.
Mas o que aprendeu, serviu para a vida. Ficou sabendo a respeito de
uma língua, que já era morta; mas o que deu de trabalho,
a desgraçada. Foi ali que ficou sabendo do supino, do dativo,
do ablativo e outras figuras...
Uma vez, tomando o café
da manhã na companhia do bispo, estava descascando a laranja
com garfo e faca. A maldita escapou, correu pela mesa, bateu no bule
de café, caiu tudo na roupa do santo homem. Foi excomungado.
Virou Corintiano.
Ad aeternum. Por sinal, aeternum
está no acusativo, regido pela preposição ad.
Bem, no seminário a matemática
não era lá muito estudada. Padre, já que não
aprende a somar, também não multiplica. A divisão
que pregam não necessita de cálculos. Só restou
ao ex-seminarista, o clássico. Depois fez um curso de Letras
e por fim, de Direito.
Do ontem até hoje...
se não caiu do céu, também não teve que
cavucar muito. Se houve alguma dificuldade, foi ontem e ele, já
era.
O que tinha que fazer na vida,
já fez.
Agora, prest’enção
nos filhos e netos... só observando.
Ah! Sim. E o supino?
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras..
SENHORES E SENHORAS
Aqui fala o comandante deste
vôo, que ora decola rumo às eleições; façam
um bom percurso e que Deus nos ajude.
É comum ouvir de pessoas
de “fina stampa” que eleição é
isso e aquilo, que o voto não deveria ser obrigatório,
que nas eleições as pessoas deveriam ir para um retiro,
que não há renovação de políticos
e o resultado é a repetição de velhos vícios.
Quem entra para uma disputa
eleitoral, acusa o opositor de fazer política com as “
mãos sujas”; bastou ganhar uma eleição e
está lá: não há sabão suficiente.
O cenário não
muda, os atores não mudam e o que é pior, permanecemos
presos às nossas ultrapassadas convicções: não
votar é ruim e outras.
Em verdade, digo: não
votar com consciência é pior.
Outro dia li uma manchete: "a
esquerda somos nós”; e eu pensando que esse negócio
de direita, centro e esquerda, hoje, fosse coisa de mão de trânsito.
Nada disso, sem essas baboseiras, como um político-raposa vai
filosofar.
"Falando assim, até
parece que o PSDB está à esquerda do PT."
"Mas nós estamos
à esquerda mesmo”.“O PT não é esquerda.
Já foi.”
Parece coisa do Heráclito.
- Uai, esse eu não conheço,
candidato a quê?
- Não é candidato,
é um filósofo maluco que dizia que o que é, não
é. O que não é, é. O que... sei lá
mais o quê. Ou seja, para ele tudo se origina na oposição
dos contrários.
Quando a Rita Lavoyer deu essa
aula de filosofia no Grupo Experimental, pensei: “Tadinha, ficou
igual.”
Quando um governante é
pego com a mão na botija, diz que cometeu equívocos. Quando
é o adversário, aí sim: é safado, corrupto.
E o Congresso, as comissões
parlamentares de inquérito, como diz famosa música: “tudo
acabado e nada mais...”
Chegou a um ponto a encrenca,
que uma política aqui da vizinhança disse: “hoy,
resulta que es lo mismo ser derecho que traidor”.
Eis a confirmação
do que disse aquele maluco: é mas não parece.
Parece mas não é. Deus!
Então, o que se presume,
é que deve haver por parte das pessoas de boa vontade, preocupação
para que desenvolvam esforços no sentido de convencer a sociedade
a se mobilizar para acabar com a ideia que eleição é
porcaria, que todos os políticos são corruptos e que nada
mais vale a pena. Somos frutos da política vinte e quatro horas
por dia. Ao dar uma descarga, haverá injunções
de ordem política no fato.
Na eleição, vá
para um retiro, não vote e você verá aumentar o
número de crianças na rua, o número de desabrigados,
maior delinqüência, maior lotação dos presídios,
mensalidades escolares mais caras, menos salas de aulas... e o culpado
é você. Sem tirar nem por.
Há quem diga que: “político
de carreira é aquele que faz de cada solução, um
problema”.
Não sei se é verdade
ou não. Para que não corramos o risco, vejamos se entre
os nomes a serem sufragados na eleição vindoura, existe
algum que não se encaixe nesse perfil.
Parece que as coisas estão
melhorando. Enquete da Folha da Região mostra que 47,16% acompanham
a vida política. Somemos os 36,93% que procuram se informar e
teremos um quadro animador.
É bem verdade que os
retiros ficarão vazios mas uma oração estará
sendo rezada na postura consciente de um eleitor exercendo a sua cidadania.
Talvez seja por onde começar
a ter consciência no ato de votar.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras..
A LÁGRIMA
Uma lágrima é uma
lágrima e nada mais. Um pouco de h2O, impregnada de elementos
químicos. Nas aulas de anatomia, sua vida é contada, suas
qualidades enaltecidas.
Mas é em outro contexto
que a lágrima ou o que ela reflete ocupa um espaço, uma
maior exploração: o poético. Poesia em toda parte
e de todas as formas e se não a citam nominalmente, sugerem-na.
"E só agora, a partir
de agora, posso lhe dar meu colo, tardio de mãe, minha voz solitária,
e essa lágrima quente enterrada há mais de um século
no aperto inexplicável desse coração de cor vermelho”,
na poesia “menino de couro”, de Hila Godinho. Lágrima
citada e sugerida; quase sempre mostrando um coração em
frangalhos.
Lágrima de alegria, não
dá poesia.
Talvez porque, segundo Rubem
Alves “os olhos dos poetas são sempre olhos que se despedem”.
São vertidas por saudade,
por existir uma distância, por falta de encanto, por um lugar
vazio, um leito frio, por medo de perder, de sofrer e até, de
ser.
Elas ocupam sempre um lugar
que ficou vazio em nossas vidas. Lágrima e solidão combinam
mais que arroz com feijão.
Ah! Foste embora. Deixaste esta
vida e foste para o além, onde um dia nos encontraremos, frente
aos anjos e arcanjos... Deus do céu!
Lágrima de alegria incontida...
alguém conhece algum poema famoso que fale de alegria incontida?
Frente aos que falam de miséria, de desgraça, não
pagam nem placê.
Lágrima de amor... existe?
Tá certo, existe pela falta dele.
Há quem diga que lágrima
não faz mal, que lubrifica os olhos e coisa e lousa. Olho lubrificado,
alma enferrujada.
Não dá outra.
Se for para escolher, eu escolho os colírios.
Às vezes a gente chora
por um bom motivo: lágrima por um justo orgulho. Ver um filho
se formando, um neto nascendo e outros mais... mas não, poesia
não dá; faltam boas rimas para esse tipo.
Quando, dentro da gente, mora
um sentimento bonito, alegria, a poesia, se feita, não faz sucesso...
parece praga, sio!
A não ser em velório,
onde se chora acompanhado de outras pessoas, sempre quando a lágrima
aparece você está sozinho. “Na solidão sozinha,
eu acordei...” o que tem de poesia começando mais ou menos
assim.
Lágrimas de esperança...
serão lágrimas doces ou amargas?
O que é esperança?
Esperar o que se deseja, mas ainda não tem? Expectativa? Ter
fé em conseguir?
Sabe, esse papo de lágrima,
já deu o que tinha que dar.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras..
Julho de 2010
PELAMORDEDEUS!
Sentimento é uma disposição
de afeto com relação a algo ou a alguém e se manifesta
em determinadas circunstâncias; pergunto, houve durante esta Copa
do mundo um sentimento de brasilidade, como se viu por exemplo, em 1958
ou 1970?
Houve emoção exacerbada como de
outras vezes?
Sentimento e emoção caminham juntas
e não havia sentimento suficiente para gerar uma forte emoção
na torcida brasileira desta feita.
Tratava-se de uma Seleção Brasileira
ou de brasileiros do Milan, do Barcelona, da Inter de Milão;
nessa Seleção, quantos jogadores atuavam no São
Paulo, no Corinthians, no Palmeiras, no Inter de Porto Alegre, no Botafogo
ou Cruzeiro, clubes que estão presentes no cotidiano de todos
nós, nas conversas nos botecos ou nos campos das várzeas?
Quem poderia despertar maior sentimento na torcida,
o Kaká ou o Ganso, o Luiz Fabiano ou o Kleber, o Josué
ou o Hernanes, o Juan ou o Miranda, o Júlio César ou o
Vitor; os “estrangeiros” estão alheios à realidade
da pátria e quase sempre, são os piores, fisicamente falando.
Onze craques não fazem um time. O que faz um time é uma
boa seleção de valores e um bom treinamento.
Não é só o Galvão,
é a imprensa inteira a mais valorizar quem trabalha na Europa
e cercanias. Onde já se viu: na Fórmula Um o carro é
estrangeiro, a estrutura também, assim como a infra-estrutura
e todo o capital envolvido e o Bueno a berrar feito um tarado: Brasiilll!
Brasiill!! Brasiiilll!!!
No futebol brasileiro, ou mais precisamente, na
imprensa esportiva brasileira tem uns “trecos” que não
dá para entender. Sei não que diabo de escolas de jornalismo
estes caras cursaram. Vivem falando em renovação:
- Que é isso, sio, o Ricardo Teixeira esta
há mais de trinta anos na Confederação Brasileira
de Futebol; ou sai ou a gente tira o sujeito de lá. Ele é
a desgraça.
Imediatamente perguntam:
- E ai Kfouri, quem você acha que é
o melhor nome para assumir como técnico na renovação
pretendida pela CBF.
- Uai, Felipão ou Luxemurgo.
“ Má“ que bela renovação,
cacete.
São bons nomes?
São, claro. Mas se é para renovar,
por que não considerar nomes que nunca estiveram lá e
que possuem “curricula” abonadores? Quem foi o técnico
mais vitorioso nestes últimos anos no Brasil, senão o
Muricy Ramalho? O que dizer do jovem e competente Silas ou ainda do
bom trabalho do Mano Menezes ou ainda Dorival Nunes?
Para cada jogador que trabalha fora, temos aqui
um de valor correspondente; é só convocar os melhores
do momento e dar-lhes bom treinamento... Será, como diz o seu
Zé: 'macuco no emborná'.
Haverá mais identificação,
como consequência, mais envolvimento entre Seleção
e torcida e as emoções transbordarão e serão
inesquecíveis, como já se viu.
Gostei quando disseram que a Copa da África
foi a bafana, bafana e aqui será a afana, afana. Estádio
novo com dinheiro público... Tá bom.
Querem que o meu Tricolor gaste seiscentos milhões
de reais para sediar uma abertura da Copa. Vão sediar abertura
na... na... então, lá mesmo.
É por essas e outras que estou gostando
cada vez mais de pescar.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras..
UM LUGAR ESPECIAL
Todas as vezes que o litlle Joe
quer impressionar uma linda jovem ele a leva até à margem
de um grande lago, de onde se descortina uma visão encantadora.
Se amar é bom e lindo, ali há a potencialização
do prazer.
Quando a lindinha se embasbaca
com o espetáculo, o desg... quer dizer, o jovem vaqueiro alia
um sorriso número 38 com um olhar 55 e dá o retoque final
no seu empreendimento de sedução. Pena que quase sempre,
no final do capítulo, a coitadinha morre ou sai de cena. Acho
que o produtor ou o diretor do filme tem uma queda pelo artista e...
quem usa, cuida.
Aqui um parêntese para
um fato e uma pergunta. O fato: Ponderosa é uma imensidão
de cactus e pedra. Como aquele povo ficou milionário com gado?
São quatro e mais um cozinheiro chinês. Chaparral ainda
tem muitos empregados, se vê algumas vacas que adoram comer galho
seco e pedra; isso, sem falar no Cochise e sua corja enchendo o... a
paciência. Acho que fazendeiro brasileiro gosta mesmo é
de chorar de barriga cheia.
Um lugar especial para viver...
Aqui temos um.
Não viveria melhor à
beira mar, desfrutando as visões paradisíacas das chapadas
ou os encantos das quedas de água, como as de Iguassu ou Iguaçu,
como preferir.
Não há beleza
em nenhum canto se na alma não mora o encanto. (Se você
conhece quem tenha dito esta frase, ponha aspas. Eu não ponho.)
Outro dia, levei uma dama para
ver a luz da lua incidindo no filete de água do nosso riozinho
Machado de Mello. Cercava-nos o silêncio da madrugada. Vislumbrávamos
pequenas flores dando sinal de vida com a iminente presença do
sol. Fiz como litlle Joe, armei meu sorriso 38 mas não deu tempo
de armar o olhar:
- Vamos embora...
Ela não se sentiu amada,
diriam uns. Tenha paciência, outros. Mas em mim não aconteceu
uma profunda dor ou estado de torpor, não fiquei cheio de frustrações
e dúvidas, como acontece nas grandes tragédias, nada de
crise exsistencial. Pensei: não dá com Maria, procuremos
Sofia.
Só que não é
bem assim. Não se leva a vida dando de ombros. Assim como existem
estradas que se bifurcam, temos a que convergem.
Procurarei então o ponto
de convergência no meu caminho e lá, por certo, encontrarei
alguém que, na pior das hipóteses, queira, porque gosta,
ver o “ Machadinho” nas noites de lua.
Assim: beber um chope no Bola
ou comer um cupim casqueirado na Chopompeu e na madrugada, ver o riozinho
e o sol nascer... seria um belo começo para uma segura indução
a um fim sabido e desejado.
Como diz uma letra do Roberto:
"Se o amor está, tudo faz sentido, tudo é permitido,
tudo fica em paz". Mas é preciso que tenhamos sensibilidade
para ver encanto em qualquer canto, senão, ainda lembrando o
Rei: “Quando o amor não está, sob a luz da lua,
as pequenas ruas, já não são iguais”.
JOSÉ
HAMILTON é escritor e membro do Grupo Experimental
da Academia Araçatubense de Letras..
Coordenação: Prof. Pedro
César Alves, Araçatuba/SP.