Textos do autor: POLITICAMENTE
CORRETO (publicados no Jornal "O Liberal")
QUESTÃO DE OPINIÃO
Leia o comentário
a seguir - em forma de texto "QUE POLÍTICA É
ESTA", sobre a posse do Conselho Municipal de Cultura
de Araçatuba. Sou uma pessoa clara, sem intenções
partidárias, mas com uma visão diferenciada. E, a partir
do que aqui escrevi, o professor Hélio Consolaro, Secretário
de Cultura de Araçatuba, enviou-me o seguinte e-mail (que reproduzo
após o termino do meu texto):
CRÔNICA DO DIA
13/11/2012
"QUE POLÍTICA
É ESTA?"
MINHA INDIGNAÇÃO
COM QUEM TRABALHA COM CULTURA
Esta
semana o assunto ferveu aqui na cidade. E não é por
puro exagero, mas por um fato a ser pensado. Digo fato a ser pensado
porque apenas vou comentá-lo a partir do meu ponto de vista
– e não do ponto de vista legal, pois neste último
citado não compete a mim – mas deixo claro que, se na
Legislação em vigor (e no Estatuto da Entidade) tiver
esta brecha, é muito maior ainda o fato a se pensar.
Esta semana passada a cidade de Araçatuba
passou pela vergonhosa disputa da nova Presidência do Conselho
Municipal de Cultura. E você, caro leitor deste site, imagine
o que é ser fiscal de si próprio? Pois bem – é
o que ficou estampado no jornal... E sabe por quê? Não
sabe ainda? Então vou dizer: o Secretário de Cultura
saiu candidato numa chapa! E pior: voto aberto e ganhou!
E dizem as más línguas que, até
pessoas que dificilmente apareciam nas reuniões, neste dia
apareceram e deram voto ao eleito! E olha que não sou linguarudo!
Mas sou um ser pensante sim!
Desculpem a minha indignação (e
a de muitos outros araçatubenses que sabem como é duro
viver numa cidade em que a Cultura não está em primeiro
plano – que, sempre que possível, fica para trás,
inclusive na aplicação de verbas): mas onde está
o que podemos chamar de ‘razão e ética’?
Será que não existe profissionalismo? Ou apenas interesse
de quem exerce o poder?
Não sou politiqueiro. Sou filiado a partido
político sim, mas não tenho intenção momentaneamente
de disputar cargo nenhum – mas não poderia me calar frente
a este absurdo. E penso mais: trabalho é trabalho, amizade
é amizade, mas que a verdade seja dita!
“ARAÇATUBA (ou melhor – seus
dirigentes) deu um enorme passo para trás nos progressos que,
embora pequenos, mas que ainda podiam se ver – e agora não
mais – pois passa a ser duvidoso qualquer ação
a partir de agora: passou a ser presidente do Conselho Municipal de
Cultura o próprio Secretário de Cultura. É mole
ou você quer mais? Você já viu tal fato? Deve ser
somente no Brasil...”.
E seguindo o meu raciocínio – como
terá um Conselho força de cobrar de seus gestores se,
o próprio Gestor Público exerce a função
principal? Não terá força alguma. E não
adianta sair dizendo que o Presidente do Conselho não faz sozinho
– mas a partir de opiniões dos Conselheiros – mas,
diga-se de passagem: tal fala não entra na cabeça de
nenhum ser que tem, pelo menos, um pouco de noção. E
que me poupe as mentes menos esclarecidas com comentários furtivos:
eu sou um cidadão que sei ler nas entrelinhas. Posso, às
vezes, não estar presente em muitas reuniões aqui na
cidade, mas acompanho de perto o que acontece por aqui. Não
sou e nem no meu nome tem a letra ‘b’ – que ajuda
a formar a palavra ‘burro’!
A ética, acima de tudo, deveria prevalecer,
mas não. E pior: porque não adianta neste momento falar
apenas da presidência, mas dos que se fizeram presentes na mesma
chapa. Parecem leões soltos, famintos, perdidos, ou abandonados
após algum espetáculo circense e que seus donos não
puderam sustentar por medo de que o picadeiro, num futuro próximo,
caísse.
E, para finalizar, acrescento: é vergonhoso
saber (embora por más línguas, mas neste momento verdadeiras)
que até alguns membros do Conselho – representantes legais
de deferentes meios artísticos, que podiam exercer o direito
de vetar a ação – se ausentaram na hora da votação.
É UMA VERGONHA A MAIS PARA A CIDADE! Não são
dignos de representar a categoria que representam.
Ausentaram-se para não ser chicoteados
mais tarde pela oposição que poderiam ter feito. Mas,
penso cá com meus botões: ficou mais feio ainda, pois
não possuem cabeças firmes para saber o que é
certo ou errado e deixaram levar pela amizade – esqueceram que
Araçatuba, naquele momento, era a estela!
Se você chegou até aqui em sua
leitura, e sentiu indignado com a atitude tomada por parte da política
araçatubense (e espero que pensem muito neste assunto’),
dê a sua opinião através do e-mail a seguir que
em breve será publicado aqui e divulgado nos meios culturais.
Eu faço a minha parte, mostro a minha indignação
– independente que conhecer a pessoa de quem falo de longa data.
Eu sou assim: língua felina! PROF.
PEDRO CÉSAR - publicado às 08h30.
E-MAIL do prof. Hélio Consolaro:
Pedro,
Já que o site entrou na briga e eu fui seu
padrinho na indicação dele para o prêmio Odette
Costa, gostaria que publicasse a minha versão também,
publicando meu artigo anexo.
Respondi às 12:23 - :
Hélio, não é
briga, nada pessoal - acredito no seu trabalho, no trabalho da Secretaria,
mas sou claro nos meus pensamentos - é a minha visão
sobre o assunto, sobre o lado ético... por isso coloquei sobre
o meu ponto de vista, e não sobre o ponto de vista legal, pois
aí cabe uma discussão diferente.
Eu também
sou GESTOR público - e tenho uma Comissão que fiscaliza
o que faço... - eu não posso 'me fiscalizar' - pois
passa aos olhos dos que assistem que é hipocresia de minha
parte eu me fiscalizar... (Não posso dar nome a isso de democracia
quando eu exerço simultaneamente funções parecidas.).
É apenas essa uma visão minha... e creio eu, como somos
inteligentes o bastante, temos que debater o assunto sim e procurar
arrumar saídas... Você sabe que tento divulgar o que
eu posso de CULTURA - amo a nossa cidade, mas achei muito feio/deselegante
a atitude tomada de sua parte e dos que estiveram com você na
chapa... E acrescento que, ainda mais feio, foram os que se retiraram
por não concordar, mas por ligações pessoais,
não votaram - e eu entendo, cá entre nós, que
é uma questão política! Espero poder crer que,
você, de sã consciência - e ocupando o cargo que
você ocupa (e tendo um histórico dentro de nossa cidade),
não teria tomada essa posição se não fosse
questões políticas.
Assim que
chegar em casa publicarei, pois entendo que você tem o direito
de explicar-se... estou lendo diariamente os comentários...
até 15 horas estarei em casa... estou trabalhando no momento...
Quanto à
indicação, sou grato, mas fiz pelo que mereci - e quando
me avisaram até fiquei surpreso, pois fiz e contiuo fazendo
porque gosto do que faço e sem esperar retorno! Prof.
Pedro César.
TEXTO enviado pelo
prof. Hélio Consolaro solicitando publicação:
Conselho Municipal de Políticas Culturais
- Hélio Consolaro*
Na última terça-feira,
8/11, houve eleição da presidência do Conselho
Municipal de Políticas Culturais de Araçatuba (CMPCA),
da qual, como secretário municipal de Cultura, saí presidente,
acumulando funções.
O CMPCA é diferenciado
em relação aos demais (dezenas deles) conselhos. Posso
dizer que é o mais consciente e mais político deles,
possui 41 membros. Não é paritário, embora nele
os segmentos culturais estejam proporcionalmente contemplados.
É bom dizer, para que
tenhamos a dimensão de tais instâncias, que eles fazem
parte do Poder Executivo. Quanto mais aberto e deliberativo for, significa
que o prefeito está abrindo mão de seus poderes, dividindo-os
com um coletivo. Nenhum conselho tem CNPJ próprio, não
se trata de uma entidade. Eles participam do organograma de suas respectivas
secretarias.
No biênio 2007-2008,
participei do antigo “conselhinho” da Cultura. Ele tinha
em torno de 10 membros. E não era deliberativo, como o atual.
O prefeito da época não dava importância a tais
instâncias. O maior feito dele foi montar a Conferência
Municipal de Cultura, uma instância de discussão da cultura
de Araçatuba, cujo maior feito foi a elaboração
da “Carta aos candidatos a prefeito de 2008”, que foi
adotada pelo prefeito Cido Sério (PT), inclusive me chamando
para ser seu secretário e aplicá-la como havíamos
planejado.
Se o CMPCA tem todo esse gás,
trata-se de uma cidadania cultural que vem sendo formada desde 2004,
quando eu era presidente da Academia Araçatubense de Letras,
e montamos o Fórum Cultural, que começou a fazer o Barracão
Cultural na Expô, e também fez uma carta aos candidatos.
Conseguimos, naquela época, que a antiga Secretaria Municipal
de Cultura, que tinha sido rebaixada a departamento pelo prefeito
Maluly Neto no seu primeiro mandato fosse transformado novamente em
secretaria.
Podemos dizer que boa parte
do conteúdo da “Carta aos candidatos” foi adotada
pelo prefeito Cido Sério (PT). Estamos num momento em que a
Câmara Municipal de Araçatuba discute em suas comissões
quatro projetos de leis importantíssimos: criação
do Fundo Municipal de Apoio à Cultura (600 mil para projetos
culturais de artistas e entidades), da lei de incentivo fiscal (a
nossa Rouanet municipal), a lei do tombo e, por último, o projeto
que cria o sistema municipal de cultura. Atravessamos um momento bom
na cultura de Araçatuba. O foco deve ser esse e não
se perder em futricas e pichações nas redes sociais,
fazendo tempestade em copo d’água.
Diante disso, troquei ideias
com o prefeito Cido Sério (PT), para formar uma coordenação
partidariamente neutra para atravessar o pleito eleitoral que se avizinha.
Ele me disse: “A criatura é sua, eu apenas dei o sopro
de vida a ela, mandando para a Câmara Municipal projeto de lei
elaborado por vocês”.
Não consegui, porque
os neutros perceberam quão difícil seria conduzir o
CMPCA diante do clima de guerra que fora instalado. A partidarização
ficou evidente.
Então, combinamos: caso
não conseguíssemos essa coordenação mais
neutra, eu seria presidente, nem que fosse provisoriamente, mas também
foi tratado que a vice-presidente Margareth Martins teria (como terá)
uma função muito importante, representando a presidência
em situações em que o acúmulo de funções
fosse gerar excesso de poder.
E assim ocorreu. Nunca desejei
isso. É um desafio da função que ocupo posto
pela realidade. Espero levar o barco para zonas menos turbulentas.
* Hélio Consolaro é
professor, jornalista, escritor. Atualmente é secretário
municipal de Cultura.
Agora, 14h10, faz-se publicado.
O NOME DELA NÃO
É...
As conversas são coisas
que prendem um ser ao outro. Talvez seja pelo clima que se estabelece:
principalmente quando este é amigável.
Mas o que me angustia é não saber
o porquê de muitos casai passar a discussões constantes
depois de certa altura de convivência. Por quê?
Aliás, creio eu, são tantos os porquês
que poderiam – as palavras – encher várias páginas
apontando os problemas e, de certa forma, possíveis soluções.
As conversas, no início, fluem (e não
é um jornal famoso), mas depois parecem que emperram –
semelhante a portas velhas. E por aí se tira o restante: complicado
ao extremo. Às vezes, ninguém quer ceder – é
o primeiro apontamento. Entre outros tantos.
Vamos dizer – quem já passou por
isso: tudo é flor, depois labor. E, certos labores, quando não
bem definidos, acabam no que já é conhecido: indiferenças,
desavenças, dissabores.
Logo, o nome dela não é o que todos
imaginam que é – acho que até o melhor poeta, pensador,
filósofo – ou egoísta mesmo – conseguiu dar
nome. Prefiro ficar na pendência com o leitor – e, desculpe-me
por não dar também nome a ela – você decide!
(01/11/2011 )
ESCREVINHANDO
SER PAI
Escrever é uma coisa que
sai de dentro – nem sempre. Escrever é uma arte que pede
trabalho. Que pede ação, e às vezes com certa urgência.
Escrevinhar não é um trabalho, mas sim um fazer o tempo
passar.
Aos que se apegam no ato de escrever, sempre terão
a preocupação com o que escrever – os outros não.
Escrevinhando é o que me proponho a fazer neste texto. Logo,
se houver leitor para ele, que não se preocupe com o mesmo, pois
há controvérsias.
Hoje, vinte e oito de outubro, passará
a ser um marco: boas coisas me aconteceram. Ruins também, mas
deixo estas pra lá.
O ato de ser pai, por exemplo, é algo que
me faz pensar constantemente nos últimos dias: pai no mais amplo
sentido – apesar de não estar perto constantemente. Mas
ser pai é algo que transcende o espaço corporal e acaba
na alma – no sentido mais perfeito que possa existir no universo.
Ser pai: quantas vezes é preciso?
Não saberia dizer quantas vezes é
preciso ser pai, mas ser pai é um estado de graça. Uma
virtude que faz delirar. Aliás – estou refletindo muito
nestes últimos dias: amadurece. Amadurecer é o mesmo que
poder dizer que ser pai é sentir-se seguro diante de um filho;
diante das adversidades de criar um filho.
Continuaria a dizer que não saberia dizer
quantas vezes é necessário ser pai – mas acrescentaria
que, independente das vezes, o importante é ter o amadurecimento
preciso para ser pai. Será que o jovem está preparado
para ser pai? Aliás, diga-se bem: os de pouca idade: sem chance.
Os de mais idades, talvez os de vinte e cinco a trinta, um pouco. Mas
o ideal seria ser pai após os trinta e cinco – o diferencial
será enorme.
Escrevinhando ser pai está chegando ao
fim, mas com uma pergunta que não me quer fazer calar, muito
menos os meus dedos pararem quietos ao lado do teclado: quem, nos dias
de hoje, está preparado para ser pai? Ou, quem fez uma escolinha,
diplomou-se para ser pai? Mas, antes de dar a resposta (e não
há resposta) – e no início disse que as palavras
aqui hoje sairiam contraditórias – ficarei pensando sobre
o assunto... (28/10/2011)
NÃO É
FÁCIL
Às vezes, quer dizer:
nem sempre. Mas na maioria das vezes a vida nos é cruel –
ou, somos com ela – não sei explicar. Aliás, nem
gostaria de saber, muito menos de explicar. Por isso não é
fácil.
As pessoas não pensam como é difícil
dizer um ‘adeus’ – aliás, não é
fácil. Outras vezes temos que ser forte o suficiente para aguentar:
rosto descontraído – coração amargurado!
Que oposição fatal! Mas, de repente não surge uma
luz no fim do túnel.
O ser humano aparece, às vezes, do nada
– e aparece como luzes no caminho. Mas, de repente argumenta:
não posso mais ficar! E, simplesmente, não fica. Apagam-se
as luzes. E eu fico! Fico aqui a pensar: o que fazer? Aliás...
Aliás, pensando bem mesmo: nada posso fazer
– a vida tem o seu curso, tem os seus momentos, tem as suas ‘lembranças’
– que apenas ficam! E como ficam... Mas, será? Será
que um dia essas lembranças voltam? Será que um dia essas
lembranças voltam...
Sou apenas um escrevente das coisas que espero
estar pensando, que vivo – que presencio. Nada mais! Nada mais
que isso! Mas... Não é fácil!
Não é fácil ver uma porta
se fechar. Aliás, por que as portas se fecham de maneira estranha?
Ou, simplesmente, eu não sei e não consigo entender o
motivo. Pior: as pessoas se vão sem olhar para trás...
Fico a pensar: onde se está o erro? Melhor é não
achar o erro! Ou, o errado.
Mas – repito: não é fácil!
Ao som de uma clarineta em dó, madeira de lei, 1982 – mentalize:
‘Ela é a dona de tudo / Ela é a rainha do lar /
Ela vale mais para mim / Que o sol, que terra, que o mar // Ela é
a palavra mais linda / Que um dia o poeta escreveu / Ela ‘passou’
a ser o tesouro que o pobre / Das mãos do Senhor recebeu // Mulher,
mulher, mulher, / Eu te lembro...’ – prefiro parar por aqui,
pois oparodiar não sairia tão bem.
Não sei nem mais o que escrever –
prefiro, então, parar logo a seguir, possivelmente no próximo
ponto para não desafiar as leis cerebrais que me cercam! (23/10/2011)
O SORRISO ENIGMÁTICO
Estou estudando um pouco a arte.
Aliás, como sempre digo: a imagem me fascina – e me fascina
a tal ponto que vejo nas pessoas um pouco de um sorriso enigmático.
Lendo algumas destas artes – arte é leitura, deparei-me
com o sorriso enigmático de Mona Lisa.
Em Mona Lisa, ou La Gioconda, o pintor italiano
Leonardo Da Vinci utilizou de Sfumato: técnica artística
usada para gerar gradientes perfeitos na criação de luz
e sombra de um desenho ou de uma pintura – e mostra uma mulher
com expressão de indiferença. Talvez o retrato mais famoso
da história da arte. E, assim sendo, parto-me para o presente:
ao andarmos nas ruas deparamos-nos sempre com sorrisos enigmáticos.
O sorriso enigmático, assim como a imagem,
me fascina também. Você, caro leitor, deve estar pensado:
‘Daqui a pouco ele vai deizer que outras coisas também
o fascinam!’ – verdade seja dita: muitas coisas me fascinam.
E sorriso: quantas coisas traz – quantas?
Fico a pensar nas pessoas com sorrisos maravilhosos
– em especial uma: quando ela sorri parece-me (não, tenho
certeza) que os céus se abaixam e ela, em forma de anjo, alegra
a alma dos que lhe assistem. Agraciados os que a asssitem. Um sorriso
angelical, mas ao mesmo tempo, enigmático. Enigmático
no sentido, possivelmente, de: nossa! Assustei-me com as coisas que
vieram-me à cabeça, mas que os dedos recusaram a digitá-las.
O olhar penetrante dela, quando apresenta serenidade,
é crucial. Crucial no sentido de ‘esconder’ algo
– algo que tenta-se descobrir. Talvez nem Da Vinci conseguiria
pintar tão bem quanto ela se apresenta. Imagens são imagens.
Realidade – nada mais do que ‘ao vivo’. E em belas
cores!
E, pensando no sorriso enigmático das pessoas,
em especial desta citada por mim – mas que ao mesmo tempo guardo
aqui dentro o nome – fazendo, ou traçando um paralelo com
a obra de arte, nada se compara ao que ela traz aos que a assistem.
E estes, por vezes, podem se dizer: ‘Somos agraciados com este
belo sorriso, mas ao mesmo tempo enigmático.’ E eu diria:
como é enigmático! E ainda acrescento: será que
vai permancer, assim como a Mona Lisa, enigmático por muito tempo?
Prof. Pedro César Alves, Out./2011
FRED
Subiu, lentamente, degrau a degrau
– treze, para se exato. Caminhou cinquenta e um passos, parou.
Retirou a chave da bolsa, girou-a na fechadura.
Dentro do pequeno apartamento colocou a sacola
de saco sobre a mesa. Abriu a pequena geladeira – tomou água.
Da sacola retirou algumas compras do supermercado, colocou-as no lugar.
O pequeno Fred, de pêlos macios, apenas
levantou a cabeça e fez uma tentativa de miar – continuou
sobre o puf que lhe servia de aconchego. Sabia que não tinha
lugar melhor para ele naquele apartamento de poucos metros quadrados:
sala-cozinha, banheiro, quarto.
No quarto, sobre a cama, estava ela. Olhar vidrado,
cabeça altiva. Parou na porta, trazia o pequeno Fred no colo
que, ao vê-la, soltou um miado e seus pêlos se ergueram.
- Não se assuste, Fred, não acostumou
com ela ainda?
Fred, como a entender, deixou seus pêlos
abaixarem e miou, novamente, baixinho.
- Isso! Bom menino, merece um pouquinho de ração.
Na sala-cozinha abriu uma lata e retirou alguns
grãos de ração e estendeu-os a Fred que, animadamente,
os comeu.
No banheiro, tirou a roupa, abriu o chuveiro e
mergulhou embaixo por quase duas horas.
Ao retornar ao quarto – depois de longo
tempo – encontrou Fred ao lado dela – de olhar petrificado,
apaixonado – assim como ela: boneca, com cabeça em porcelana,
estendida sobre a cama. (Pub. em 12/08/2011).
O ILUSTRE
Chamavam-no de Ilustre Morador.
Poucos o conheciam, ou de poucos eram conhecidos. Não se sabia
ao certo de onde viera, apenas era sabido que estivera três dias
antes na cidade a procura de casa. Visitou três imóveis,
gostou do último, pagou em dinheiro corrente, dirigiu-se ao cartório,
fez a papelada.
Três dias após a compra um pequeno
caminhão baú encostara e descarregara os móveis
que agora ocupava o imóvel.
A casa – nem tão pequena assim para
o Ilustre Morador (no jardim, logo após os móveis serem
introduzidos no imóvel, aparecera uma placa com os seguintes
dizeres: Ilustre Morador) – vivia quase sempre de janelas fechadas,
raramente se via uma aberta. O Ilustre Morador dirigia-se mensalmente
ao supermercado, ao único banco da cidade; trocava poucas palavras
nestes lugares. E era sempre chamado de Ilustre Morador.
Ao longe tudo observava.
A cada quinze dias um veículo dos Correios
parava na frente do imóvel – e não dava nem tempo
do chofer apertar a campainha, pois o ilustre Morador abria o portão,
e recebia e entregava um pacote. Era uma troca rápida, sem palavras
entre os envolvidos. Sem documento assinados.
O Ilustre Morador saiu em seu portão apenas
e exatamente a metade de um cento, mais um, para não voltar mais
– superstição! Dias depois uma placa de ‘aluga-se’
fora fincada no jardim. (Pub. em 11/08/2011).
ENAMORADOS SEMPRE
Sem superpoderes, não
vieram do espaço e não sabem voar – mas estão
na lista dos super-heróis: os amantes – namoradas, namorados.
Às vezes são heróis e heroínas, outras vezes,
vilãs e vilões – entre o bem e o mal (dependendo
do campo de visão de quem analisa) – é o resumo
da identidade de cada heroína, de cada herói.
Travam, estes, uma luta contínua contra
o sentimento mais profundo que atormenta o homem: a vingança.
Ainda: são suscetíveis a pecados (e muitas vezes sofrem
por não serem perdoados).
Possuem poder inimagináveis, vivem em espaços
imagináveis (ou quase reais) e querem sempre voar além
dos limites da mente humana – e, às vezes, estão
na lista de mais de um coração: arrebentando-os, dilacerando-os.
Simplesmente amantes!
Amantes, amantes; vilãs, vilões.
Lutam permanentemente contra o seu próprio ‘eu’.
Amante-amiga, amante-amigo! Sempre dependendo do campo de visão
de cada um – ainda, talvez, a busca da identidade. Na luta contínua
dessa busca profunda, o amor sofre para vencer os mais árduos
preconceitos. Vence – mas nem sempre. Às vezes, na derrota,
aprende. Faz reflexões.
Amanhã, dia dos namorados, são vitórias
para muitos (derrotas para outros) – mas sinto o gosto de declarar
aqui neste espaço mais uma vitória pessoal: bodas de algodão!
Foi um ano de sonhos, mas também um ano duro, pois todo começo
traz dúvidas e incertezas. Mas estamos conseguindo deixar o amor
que nos uniu falar mais forte e florescer como os ramos de algodão,
que representam o brotar cheio de luz de mais uma nova etapa em nossas
vidas. O conviver entre duas almas diferentes, difíceis, é
complicado – mas nada supera o que se sente: ainda mais um amor
à primeira vista; uma conquista contínua a cada dia –
e de ambos os lados.
Dedico a você, Ana Maria, este texto, pois
a cada dia que passa o que sinto por você aumenta – somos
pessoas completamente diferentes, mas voltados para o mesmo intuito:
crescermos juntos na busca de nossas realizações pessoais,
profissionais – amorosas. Somos, assim como tantos outros casais,
heróis neste mundo, pois a cada dia vencemos os novos desafios
que a vida nos proporciona. Feliz dia dos namorados! Feliz seja sempre
o nosso dia! (Pub. em 11/06/2011).
PÁSCOA
Hoje, sábado,
vésperas de Páscoa. Amanhã acontece a maior festa cristã que celebra
a ressurreição de Jesus Cristo: depois de morrer na cruz, seu corpo
foi colocado em sepulcro – onde permaneceu até a ressurreição. Também
este dia é considerado o dia mais importante da religião cristã: as
pessoas dirigem-se às igrejas, participando de toda cerimônia religiosa.
Na religião judaica é uma das mais importantes
festas – celebrada por oito dias (comemora o êxodo dos israelitas do
Egito durante o reinado do faraó Ramsés II – da escravidão para a liberdade).
Nas religiões cristãs – a passagem de Cristo da morte para a vida. A
passagem das trevas para a luz
A data da Páscoa dentro do nosso calendário é
móvel – vindo logo após a Quaresma e culminando com a Vigília Pascal.
Em 2012 a Páscoa acontecerá no dia 08 de abril. Entre os símbolos da
Páscoa encontram-se: o ovo da Páscoa – a existência da vida está intimamente
ligada ao ovo, que simboliza o nascimento; o coelhinho da Páscoa - por
serem animais com capacidade de gerar grandes ninhadas, sua imagem simboliza
a capacidade da Igreja de produzir novos discípulos constantemente;
a cruz da ressurreição - traduz, ao mesmo tempo, sofrimento e ressurreição;
o cordeiro - simboliza Cristo, que é o cordeiro de Deus, e se sacrificou
em favor de todo o rebanho; o pão e o vinho - na ceia do senhor, Jesus
escolheu o pão e o vinho para dar vazão ao seu amor. Representando o
seu corpo e sangue, eles são dados aos seus discípulos, para celebrar
a vida eterna; o círio - é a grande vela que se acende no Sábado da
Aleluia – e dele se acendem todas as outras velas da igreja. E traz
um significado: ‘Cristo, a luz dos povos’. E trazem gravadas Alfa e
Ômega, que querem dizer: ‘Deus é o princípio e o fim de tudo’.
Junto a toda esta tradição, o chocolate nesta
época toma conta das prateleiras das lojas e supermercados – mas por
quê? Primeiramente: capitalismo; consumo. Segundo a pesquisa que fiz
em vários sites da rede, o nome, a princípio era Theobroma, nome dado
pelos gregos ao ‘alimento dos deuses’, o chocolate. ‘Theobroma cacao’
é o nome científico deste alimento delicioso chamado chocolate, foi
batizado assim pelo botânico sueco Linneu, em 1753. Por estas bandas
do Atlântico, na verdade, nossos vizinhos Maias e Astecas que iniciaram
essa história. O chocolate era considerado sagrado por essas duas civilizações,
tal qual o ouro. Na Europa chegou por volta do século XVI, tornando
rapidamente popular aquela mistura de sementes de cacau torradas e trituradas,
depois juntada com água, mel e farinha. Vale lembrar que o chocolate
foi consumido, em grande parte de sua história, apenas como uma bebida.
Em meados do século XVI, acreditava-se que, além de possuir poderes
afrodisíacos, o chocolate dava poder e vigor aos que o bebiam. Por isso,
era reservado apenas aos governantes e soldados. Além de afrodisíaco,
o chocolate já foi considerado um pecado, remédio, ora sagrado, ora
alimento profano. Os astecas chegaram a usá-lo como moeda, tal o valor
que o alimento possuía. Chega o século XX, e os bombons e os ovos de
Páscoa são criados, como mais uma forma de estabelecer de vez o consumo
do chocolate no mundo inteiro. É tradicionalmente um presente recheado
de significados. E não é só gostoso, como altamente nutritivo, um rico
complemento e repõe a energia. Não é aconselhável, porém, consumi-lo
isoladamente.
Depois de todas essas explicações a partir da
pesquisa realizada, cabe a nós cristãos lutarmos por dias melhores,
sem guerras, sem violência, sem miséria – só assim sentiríamos o sentido
do que é viver a Páscoa. Vivermos toda a simbologia vivida por Jesus,
todas as suas palavras – pois não adianta querermos transformar o mundo
se não nos transformamos: tudo pode ser diferente, mas precisa partir
de nós. Precisamos aprender a perpetuar o amor – começando a amarmos
a nós mesmos em primeiro lugar. Tudo que há no mundo Deus nos concedeu:
pense nisso e faça a sua parte. (Pub. em 23/04/2011).
SER HUMANO
Dentro das causas da vida, do
ir, do vir, do ir-vir, lá está o ser humano. Estar lá...
nem sempre significa estar.
Espécie - humano; ser humano – racionalidade;
ser humano – ser o humano presente.
Ser humano. Ser humano; o humano ser sendo humano.
Quantas colocações: necessárias ou não,
eis a questão! Uma questão questionável, ou não?
Se não, por que aqui rabiscada? Se sim – por quê?
Ser ou não ser, estar ou não estar, eis a questão
– não é mesmo? Mas a questão é ser
humano!
COSER
“Algumas pessoas cosem
para fora; eu coso para dentro” – Clarice Lispector. Que
grande ideia, não?Lendo Clarice Lispector cada vez mais fico
intrigado.
Volto ao passado – fico absorto! Terrível
a verdade. Terrível – o ser humano! Condição
ímpar: escrever!
O homem, o universo! Cosmos, cosmos, cosmos. Meu
eu: onde está? Procuro – não encontro. Em que passado
ele ficou? Em que passado se perdeu?
Cozer-me; ou buscar-me e coser-me. Meus pedaços...
onde estão? Que perigo é viver! (28/07/2010)
TRIBUTO A NOEL
ROSA
Não sou fã número
1 do samba, mas aprendi a apreciar, pois conheci a minha esposa numa
roda de samba que, a princípio, não queria ir –
mas de tanto ligarem pra mim, fui.
Hoje frequento roda de samba; ouço, também,
samba em casa – até comprei CDs. Mas o momento desta homenagem
é a Noel de Medeiros Rosa, nascido em 11 de dezembro de 1910,
na cidade do Rio de Janeiro, RJ, o homem apaixonado declarado por Ceci
(Juraci Correia de Moraes), a dama do Cabaré Apolo, a quem dedicou
várias músicas, como a impecável canção
“Dama do Cabaré”, composta em 1936 – mas era
casado com Lindaura Martins.
Segundo a Revista de História da Biblioteca
Nacional, ano 6, nº 63 (dez/2010), o poeta da Vila cantou os bêbados,
os maltrapilhos, os maltratados, a boemia, a cidade, a noite, a modernidade,
os acertos e os desmazelos do Brasil – e cantou de forma crítica,
irreverente, satírica e bem-humorada; zombou da tragédia
alheia e também da sua própria. Ao falar de tudo isso
usa a linguagem do povo, do cotidiano – no amor também,
mas fala sério (sem galhofas). Noel criou personagens de carne
e osso – não ‘musas’ encasteladas.
Noel Rosa, em Araçatuba-SP, foi homenageado
pela turma da Seresta, na Praça João Pessoa (teatro aberto)
– eu termino este texto com a canção “Último
desejo”: “Nosso amor que eu não esqueço, e
que teve o seu começo / Numa festa de São João
/ Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete, / sem luar, sem
violão / Perto de você me calo, tudo penso e nada falo
/ Tenho medo de chorar / Nunca mais quero o seu beijo mas meu último
desejo / você não pode negar / Se alguma pessoa amiga pedir
que você lhe diga / Se você me quer ou não, / diga
que você me adora / Que você lamenta e chora a nossa separação
/ Às pessoas que eu detesto, / diga sempre que eu não
presto / Que meu lar é o botequim, que eu arruinei sua vida /
Que eu não mereço a comida que você pagou pra mim.”
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP.
Dezembro de 2010
O
DEZ / ENCONTROS DE ANA - Cap.
10
Ana adormeceu, assim como Tom.
Beirando dez horas da noite Ana acorda e percebe que também dormira
muito. Estranha o fato de o abajur estar aceso. Olha Tom que dorme sossegadamente.
Resolve tomar um banho – embora não muito calor, mas um
banho sempre faz bem.
A água começa a descer suavemente
pelo seu corpo. O sabonete suave desliza deixando-lhe pequenas bolhas
que são levemente por ela estouradas. Mas o barulho suave é
quebrado pelo leve ranger da porta a se abrir.
- Não resisti... Posso entrar?
- Não deveria, mas já que veio...
Tom adianta um passo, retira a cueca, puxa a cortina
e pára diante de Ana. Mede-a de cima a baixo. Ana faz o mesmo,
observando – ambos – cada detalhe do corpo alheio.
Ana afasta-se da água do chuveiro e faz
sinal para Tom. Este não recusa e deixa a água cair sobre
seu corpo. Meia noite dois corpos tombam sobre a mesma cama...
Em Brasília ao darem entrada no Hotel recebem
um envelope. Tom e Ana seguiram rapidamente para o quarto. Ana estranhou
ter no quarto quatro computadores, impressoras, scanner, fax –
uma aparelhagem completa de rede de comunicação.
Tom leu a mensagem – que por sinal –
era uma árdua missão: descobrir o autor de uma conspiração
que pretendia a morte do senhor Presidente da República.
Tom classificou a missão como árdua
porque nem sempre se consegue num alto escalão – como se
tratava o assunto – o autor da ‘criança’.
- Temos pessoas por toda parte trabalhando neste
assunto.
- Como você sabe?
- É que já trabalhei com algumas.
- E elas te reconheceram?
- Sim, mas no momento não conhecemos ninguém.
- E o que fazer? Por onde começar?
- Não temos ponto de partida. Mas o meu
e o seu negócio aqui é tentar desvendar através
de computadores.
- Computadores?
- Sim. Você, pelo que me informaram, é
boa nisso.
- Nem tanto. Apenas para o gasto.
- Certo.
- Temos que entrar na caixa postal de todos os
parlamentares.
- Como?
- Verificar os referidos e-mails de todos os parlamentares
e saber sobre as correspondências deles nos últimos trinta
dias.
- Entrar nos e-mails dos parlamentares?
- Sim, Ana, é o nosso dever proteger o
senhor Presidente da República.
Ana apenas olhou para Tom e virou-se para um dos
computadores apertando o botão de ligar. Pela cabeça de
Ana aquilo não era nada normal, mas sabia perfeitamente como
fazer. Aliás, estava preparada para isso porque entrou onde não
podia ter entrado. E, com o tom de voz que Tom lhe dissera, nada a temer,
apenas por em ordem o que sabia. Aliás, não podia fracassar.
No final da noite – quase meia noite, ambos
cansados, Tom pede a Ana que durma durante as próximas cinco
horas. Revezariam depois: não poderiam deixar o serviço
parado. Ana concorda, toma um rápido banho e apenas de camisola,
deita-se.
Tom prossegue nas buscas. Parecia incansável.
Tom na hora combinada acorda Ana com um leve beijo. Ana acaricia-o e
levanta-se. Começa o seu trabalho. Tom apenas cai na cama pedindo
que o acorde às dez horas.
Durante os dois próximos dias fizeram trabalhos
incansáveis diante da tela. Trabalhavam até a meia noite
juntos, depois revezamento. No terceiro dia, quando o relógio
se aproximava das treze horas, receberam um envelope: estavam dispensados
– um dos integrantes da equipe descobrira que partira de Minas
Gerais a proposta e fora logo o tal parlamentar, sem vestígios,
desta para uma melhor.
No envelope ainda diziam que deveriam dormir duas
noites em Brasília – tomar fôlego. Partiriam para
São Paulo, para o mesmo hotel, num ônibus leito às
vinte horas. Ana suspirou aliviada. Olhou para Tom que retribui com
um leve convite:
- Que tal um banho?
- Juntos?
- Negócio fechado...
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP. - Respeite os Direitos Autorais - Obra
Registrada em Cartório.
Dezembro de 2010
O
DEZ / ENCONTROS DE ANA - Cap.
09
No final de quinze dias despachou
o relatório para o mesmo local no interior do Estado de São
Paulo. Esperou novo contato – que por sinal não demorou
muito. Deveria viajar para a cidade de São Paulo, hospedar no
mesmo hotel, no mesmo apartamento.
Estranhou o fato, mas seguiu no avião determinado
na passagem. Fez a rota explicada no envelope. Na portaria se identificou,
pegou a chave do apartamento. Para sua surpresa sua mãe a aguardava
no quarto.
As conversas rodaram por várias partes,
as únicas que não foram citadas: as suas missões.
A mãe permaneceu junto de Ana apenas por duas horas. Pegou um
táxi para a rodoviária e voltou para o interior.
Ana ficou feliz por aqueles momentos, feliz por
estar ao lado da mãe. Sabia que poucas vezes ficaria perto da
mãe. Sabia que a mãe estivera ali apenas para cumprir
parte de seu contrato – mas Ana não sabia que estava sendo
testada – como dizem: “as paredes têm ouvidos”.
Ana passara naquele teste. Não sabia exatamente o que fazer,
resolve tomar um longo banho.
Ao retornar encontra um envelope sobre a cama.
Como? Não ouvira a porta abrir, muito menos alguém entrar.
Mas o certo era que o envelope estava lá. E logo estando lá,
deveria ser aberto.
Abre-o e em letras grandes aprecia uma pequena
frase em destaque: Parabéns! – que por sinal era bem-vindo
para o momento, mesmo não sabendo a que parte se aplicava o tal.
Continuou a leitura e logo viu que deveria continuar ali por mais dois
dias e depois seguir para a capital federal, Brasília. Deveria
hospedar no Hotel Intercontinental, no quinto andar. Outro sim, deveria
aguardar a visita de um parceiro e seguiriam juntos para Brasília.
Não sabia quando o novo parceiro viria
ao seu encontro, no entanto, deveria ficar atenta. Todos, pelo jeito,
conheciam como entrar e sair de algum lugar sem ser notado. Ela, principiante,
deveria apenas observar e começar a imitar.
Nada de diferente aconteceu naquele fim de dia.
Ao amanhecer do outro dia Ana foi acordada pelo toque do telefone.
- Alô?
- Ana?
- Sim.
- Eu sou Tom, o seu novo parceiro. Estou subindo.
- Sim.
Desligou o telefone. Trocou-se rapidamente. A
voz meio meiga, meio tom – por assim dizer. Tentou fazer idéia
de como seria o novo parceiro. Talvez jovem, ou de sua idade. Mais velho
ou experiente. Ou ainda, de idade bem mais que a voz aparentava ter.
Nem sempre é possível identificar alguém pelo simples
ato de falar poucas palavras ao telefone.
Minutos depois um leve toque na porta. Ana abre-a cautelosamente.
Um sujeito de aparência pouco apresentável,
uns trinta e cinco anos, se vê à porta, estende-lhe a mão
num ato de cordialidade. Ana retribui e faz sinal para este entrar.
Familiarizam-se em poucos minutos. Tom diz que precisa de um banho urgente:
há dois dias que está de viagem – saíra de
Fortaleza, passara pela cidade do Rio de Janeiro e agora São
Paulo. Ana indica o banheiro e logo é ouvido o som da água
cair.
Ana ainda não pensara que daquele momento
em diante deveria repartir o quarto com um desconhecido. Embora o tal
Tom trabalhasse para o mesmo senhor X – tratava-se de um desconhecido.
Ana caiu em si: por que será que o tal Tom não fora para
outro quarto?
Dormir com um estranho seria coisa nada fácil.
Nunca fizera isto antes. Já tivera vários casos de amor,
mas nunca dormira na primeira noite – sempre curtia um ‘conhecer’
com o outro e depois de um bom tempo que ia para a cama, ou inventavam
para os pais alguma excursão e se viam livres para fazer o que
bem entendessem.
Meia hora depois Tom aparece no quarto enrolado
o corpo em uma toalha. Barba feita – já aparentava outro
Tom. Puxa a sua valise para perto de si, retira as roupas que necessita,
veste-se. Ana observa tudo, sua nudez, nada diz. Seus pensamentos estão
a mil: um homem ali ao seu lado (e ela ali sem homem há vários
meses). Tom, indiferente aos pensamentos de Ana, convida-a a almoçar.
Ana sem titubear aceita.
- Então, troque-se de roupa rapidamente
– que ainda pegamos alguma coisa do almoço.
- Psiu, não é para tanto.
- Às vezes, menina, já passei maus
apuros. Algumas damas demoram pra se arrumarem... outras, que já
sabem como sou: arrumam-se rápidinhas porque sabem que as deixo
para trás.
Ana apenas ri. E continua no mesmo lugar.
- Troque-se, vamos!
Ana pega uma roupa mais apropriada para a ocasião
e dá os primeiros passos rumo ao banheiro.
- Ana!
- Sim.
- Troque-se aqui mesmo. Já estou acostumado
a ver mulheres trocando-se de roupas constantemente.
Ana fixa o olhar em Tom. Tom compreende o olhar,
e completa:
- Você ainda é jovem no trabalho.
Acostume-se, garota, nosso trabalho – às vezes –
não há tempo nem para pensar em sexo.
Ana recua e coloca a muda de roupa sobre a cama.
Retira a que está e rapidamente coloca a que pegara. Ouve de
Tom:
- Belo corpo você tem!
- Obrigada.
- Belo mesmo!
A frase falada por Tom repetidamente faz Ana fugir
de seus pensamentos. Medita no que a mãe sempre dizia: “Todo
homem sabe deixar uma mulher no céu” – ou –
“no Inferno” – depende deles e do momento.
Tom abre a porta. Ana passa e Tom fecha-a. Estende
o braço para Ana que também segura cautelosamente. O elevador
custa a chegar – Ana apenas observa Tom que a olha de soslaio.
Almoçam um belo prato brasileiro: carnes
em rodízio. De volta ao quarto encontram um novo envelope sobre
a cama. Tom o abre. Deveriam no outro dia seguir viagem para Brasília.
A instrução dizia que Ana já tinha conhecimento
do lugar onde deveriam ficar.
Tom apenas disse:
- Tudo bem, tudo bem. Amanhã viajaremos.
- Brasília.
- É... não gosto de Brasília.
- Por quê?
- É uma cidade cheia de federais...
- Só por isso?
- É que não gostam do nosso trabalho.
- Não?
- Não. Sabem que somos superiores a eles.
- Hum.
E Tom retirou os sapatos, a camisa, a calça
– apenas permaneceu de cueca. Estendeu-se na cama e suspirou:
- Tenho uma tarde e uma noite para dormir. Que
bom!
Ana olhou-o cautelosamente. Retirou a roupa que
colocara, colocou a camisola que recebera. Deitou na cama ao lado -
observando-o sempre.
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP. - Respeite os Direitos Autorais - Obra
Registrada em Cartório.
Novembro de 2010
O
DEZ / ENCONTROS DE ANA - Cap.
08
Em Paris já havia uma
nova missão ‘debaixo da porta’. No dia seguinte deveriam
retornar ao Brasil, precisamente a cidade de São Paulo. Fizeram
as malas, mas as munições tinham ordem de não levá-las.
Em São Paulo hospedaram-se num hotel barato.
O destino da missão era vigiar um correspondente da Tevê
Nacional da Colômbia. Conforme comunicado trazido no envelope,
o mesmo correspondente fazia parte de uma facção contra
as Forças Armadas da Colômbia. Suas matérias, conforme
o comunicado, eram cifradas.
Ana não entendeu muito bem, mas Ellen explicou
o problema a Ana que não demorou a entender: seguir fielmente
os passos do ‘tal correspondente’. Tinham que no décimo
primeiro dia fazer um relatório completo do mesmo e enviar a
um determinado endereço no interior do Estado.
Todo trabalho era cuidadoso. Ana percebeu que
o ‘tal correspondente’ sempre que saía de um lugar
para outro ficava na espreita observando se alguém o seguia.
Passou bons apertos para manter-se escondida. Acompanhou de perto as
reportagens que fazia, outras vezes até passou como repórter
de jornal ao lado do ‘tal correspondente’.
Os dias designados para seguir o ‘tal correspondente’
chegou ao fim. Ana e Ellen sentaram, reuniram o material coletado e
fizeram um extenso relatório. Despacharam pela manhã para
o destino no interior do Estado.
Permaneceram no hotel por mais três dias.
Logo depois encontraram dois envelopes no quarto: um para cada. Ana
abriu o seu envelope, leu o conteúdo; olhou a parceira: era o
momento da separação.
Ellen partiu no dia seguinte para uma missão
na África. Ana permaneceu no Brasil por mais alguns dias –
fora enviada para a cidade de Porto Alegre a vigiar por quinze dias
outro ‘correspondente’ da Tevê Nacional da Colômbia.
- Pedro César Alves - é professor
de Língua Portuguesa; Escritor nas horas vagas; Gestor do Programa
Escola da Família, da Secret. Est. de Educação
de SP. - Respeite os Direitos Autorais - Obra Registrada em Cartório.
Novembro de 2010
O
DEZ / ENCONTROS DE ANA - Cap.
07
Ana dormiu tanto que acordou
com olheiras. Já era o noticiário da madrugada do dia
seguinte da chegada a Paris. Ellen parecia que estava acostumada a viagens
contínuas. Sentada num canto da sala ouvia atentamente a reportagem:
um cidadão da comitiva egípcia que fora ao Brasil fora
assassinado brutalmente em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro.
O assassino, descrito por um garoto de catorze
anos, era uma pessoa que trajava calça jeans, camisa verde clara,
tênis, feição oriental, e que fugira num veículo
de cor preta – mas que não soubera identificar.
- Atente para esta notícia, Ana.
- É. Escutei-a quase por inteiro.
- Fizemos o que nos mandaram, mas um ficou para
trás.
- Mas não foi culpa nossa.
- Eu sei.
- Mas um dia este assassino será capturado.
- Você não tem medo de ser capturada?
- Todo mundo tem, Ana, mas temos que cumprir o
nosso dever. Afinal – balançando a cabeça, completa
– ganhamos para isso.
- É.
Ellen continua a ouvir os fatos do dia pelo mundo.
Ana dirige-se para a cozinha e prepara um lanche. Já sabia que
ali todos eram donos. Nada faltava desde boas comidas e bebidas, mas
cada uma preparava o seu.
Os dias se passavam e as parceiras continuavam
a ler revistas que sempre chegavam a casa; ou a assistir tevê.
Na casa Ana percebeu desde a chegada que não havia telefone –
talvez para evitar suspeitas. Ana já se adaptara perfeitamente
ao fuso horário da Europa.
Quinze dias depois, logo ao anoitecer, encontram
um envelope debaixo da porta. Teriam que viajar no próximo dia
para Portugal. Tudo já estava preparado: desde passagem até
hospedagem. Para Ana tudo aquilo deveria ser uma máfia perfeita
– como no livro que lera. Em parte estava certa.
Pela manhã no aeroporto Ana olha atentamente
para Ellen que demonstra semblante triste.
- O que há contigo, Ellen?
- Nada.
- Não é o que parece. Não
quer falar?
- Lembro-me que dois anos atrás fiz uma
viagem para Portugal com uma grande parceira e amiga...
- E o que aconteceu?
- Faleceu no meu colo.
Silêncio.
- Como?
- Fomos designadas para estar em ‘sinal
de alerta’ numa apresentação do Príncipe
de Gales na Rua Augusta, na Baixa, na altura que liga a Praça
do Comércio e a Praça do Rosário. Eu estava numa
posição de costas para o Príncipe e ela seguiu
alguns passos à frente...
- E...
- Repentinamente caiu estirada no chão
ferida com um projétil.
- Meu Deus!
- Nada pude fazer... apenas ouvi-la dizer que
cumpriu o seu dever.
- Meu Deus!
- Soube depois que atrás dela passava um
membro da família real inglesa.
- É bem chocante!
- Muito! Lembro-me deste fato todas as vezes que
vou a Portugal.
A conversa logo cessou. Poucas palavras trocaram
no percurso. Ana observava cada vez mais a parceira. Seus movimentos
pareciam calculados – talvez fossem.
Em Portugal se hospedaram num pequeno hotel, de
segunda classe, na periferia de Lisboa. Conforme o comunicado deveriam
permanecer – como sempre – no lugar até a próxima
ordem.
Uma semana passou rapidamente. Entre uma refeição
e outra, entre um dia e outro, caminhavam pelas ruas do bairro sem perturbar
ou chamar a atenção de ninguém. Ana ‘curtia’
um novo momento em sua vida. A lembrança da mãe ao despedir
era a que trazia sempre em mente. Do pai apenas a recordação
do velório. No fim de dez dias um envelope foi deixado embaixo
da porta.
Deveriam retornar a Paris, a missão havia
sido cancelada. Ana estranhou, mas o que fazer. Ellen nada disse, nada
pensou. Apenas cumpriu a ordem: pegou o primeiro avião para Paris.
- Pedro César Alves - é professor
de Língua Portuguesa; Escritor nas horas vagas; Gestor do Programa
Escola da Família, da Secret. Est. de Educação
de SP. - Respeite os Direitos Autorais - Obra Registrada em Cartório.
Outubro de 2010
O
DEZ / ENCONTROS DE ANA - Cap.
06
No avião tudo parecia
calmo até o momento da partida. Ana nunca viajara de avião.
Ellen percebendo o momento, apenas segurou na mão da parceira
e disse:
- Coragem!
Ana tomou fôlego e nada de pânico.
Nas alturas tudo aos olhos de Ana era leve. Mas uma coisa ainda intrigava-a:
“Como embarcara sem ser revistada.”
Olhou para Ellen com um olhar interrogativo. No
mesmo momento a parceira lê os pensamentos de Ana.
- Alguma pergunta?
- Como embarcamos sem nos revistarmos?
- Isto é normal de agora para frente. Essa
roupa que você está usando possui um transmissor que avisa
aos federais quem somos.
- Hum! Mais uma para a coleção.
- É, você terá muitas surpresas
para a sua coleção.
- Que bom!
Ana continuou com os seus pensamentos. Mas foi
quebrado pelo som da televisão que fora ligado. Um canal de televisão
abordava um assassinato: um moço loiro, aparentando uns vinte
anos fora brutalmente assassinado, mas o assassino não fora capturado.
Ana deu um leve toque na perna de Ellen que respondeu apenas com um
olhar meio indiferente.
Enquanto o repórter fazia o seu trabalho, Ana perdia-se em seus
pensamentos. Procurava uma causa para aquilo tudo. Mas esquecera que
não seria ela quem teria que resolver mais este mistério,
mas a polícia.
Retornou com seus pensamentos ao mundo que a cercava.
Ellen estava completamente alheia, totalmente perdida em seus pensamentos.
Atenta para o repórter que, junto a um policial, passa ao telespectador
mais informações sobre o caso. Tratava-se de um homem
egípcio. Por deveres do ofício, o policial disse apenas
que o tal homem que fora assassinado pertencia a uma facção
egípcia e que chegara há poucos dias no Brasil com finalidade
não muito boa.
O tempo passa velozmente. O avião já
em solo francês. Paris deslumbra aos olhos de Ana. Ellen dirige-se
a um táxi. Ana acompanha. Ellen indica o lugar onde o táxi
deverá levá-las.
Depois de mais de meia hora percorrida de táxi,
estão num lugar periférico da cidade. Ellen abre o portão
da casa. Retira do bolso de sua calça uma pequena chave e abre
a porta da casa. Para Ana tudo é meio estranho, mas segue os
passos da parceira.
A casa aparentava ser confortável, embora
pequena. Sala seguida da cozinha; banheiro no final da cozinha; quarto
com banheiro. Para os franceses aqueles cômodos não seriam
nada agradáveis, mas para uma cidadã tipicamente brasileira
– como ela, já era um bom começo.
- Precisamos de um bom banho e dormir sem preocupar
até a nossa próxima missão.
- Você tem idéia de quando será
a nossa próxima missão?
- Tanto pode ser amanhã como depois, ou
daqui a trinta dias. Sei lá... – jogando um olhar de desaprovação
para a pergunta.
- Entendi. Peço desculpas de novo –
às vezes me perco perguntando certas coisas...
- Entendo o que se passa com você, mas logo
se acostumará.
- Obrigada.
- Vamos tomar um banho?
- Sim, preciso de um bom banho. Um banho que me
lave completamente...
- Eu também...
A água minutos depois era ouvida no banheiro.
As parceiras deixavam a água percorrer os seus corpos. O deslize
dos dedos pelos corpos fazia a dor d’alma diminuir momentaneamente.
Para Ana parecia que estava vivendo em um filme onde sempre era procurada
pelo assassinato de um jovem louro...
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP. - Respeite os Direitos Autorais - Obra
Registrada em Cartório.
Outubro de 2010
O
DEZ / ENCONTROS DE ANA - Cap.
05
Ana percebe que a noite fora
uma criança. Lembra que saíra mais leve do banheiro na
noite anterior. Preferiu não entrar em sua mente e descobrir
o que acontecera naquelas quase duas horas que permaneceram debaixo
d’água.
Ellen estava radiante naquela manhã. Tomaram
café às nove. Subiram para o apartamento. Ao abrir a porta
um pequeno envelope é encontrado sobre a cama. Abriram e nele
continha apenas uma foto. Era de um jovem de aproximadamente vinte anos,
cabelos louros. No verso da foto continha uma pequena mensagem que Ellen
leu tranqüilamente, mas Ana não.
Logo Ellen percebeu que Ana não estava
tranqüila e explicou:
- Nosso trabalho consiste em evitar danos aos
outros.
- Mas vamos cometer um...
E Ellen rapidamente coloca uma de suas mãos
na boca de Ana e diz:
- Lembre-se: cumprimos ordens.
- Sim, desculpe-me.
- Não há motivo para desculpas.
É a sua primeira vez.
- Obrigada.
Um silêncio sepulcral toma conta do apartamento.
Ellen dessa vez quebra o silêncio:
- Amiga, temos que fazer. Não há
volta no nosso trabalho.
- Sei disto. Nem volta e nem aceitam erros.
Por mais alguns segundos Ellen permaneceu com
a foto entre as mãos. Passou-a a Ana:
- Atente bem para o rosto do ‘danadinho’.
- E o que vamos fazer?
- Vigiar as vidraças dos prédios
ao nosso redor.
- E se não o encontrarmos?
- Outros dos nossos o encontrarão.
- E como saberemos?
- Fique tranqüila. Nos avisarão.
- E se o encontrarmos?
- Faremos o serviço.
- E depois?
- Temos uma viagem programada para hoje. Paris,
às cinco horas da tarde.
- Paris?
- É.
- Mas se não o pegarem até lá?
- Fique tranqüila. O nosso serviço
nunca pode falhar.
- Eu sei. Nunca falhamos.
- É verdade, parceira. Tenha sempre isso
em mente.
Ellen rapidamente abre uma de suas valises, toma
dois binóculos de longo alcance. Entrega um a Ana. Abre a outra
valise e arma rapidamente um pequeno rifle sobre um tripé à
beira da janela.
Ana observa tudo. Olha para Ellen e começa
a sorrir. É interrompida:
- Agora, mãos à obra.
As duas mulheres começam a percorrer as
vidraças dos prédios em volta. Ana repara que num dos
prédios há uma arma na mesma posição que
Ellen montara. Observa mais alguns minutos, depois relata o fato para
Ellen.
Ellen dirige o seu binóculo para o local,
mas parte da arma está coberta por uma cortina. Volta-se para
onde deixara a sua valise, retira outro binóculo de lente infravermelha.
Eepois de alguns minutos, suspira:
- É um dos nossos.
- Como você sabe?
- Há uma pequena indicação
no tripé. Observe este sinalzinho aqui no tripé nosso
e depois observe o outro.
Ana observa o que Ellen lhe falara. Realmente
são iguais.
- Como você sabe deste truque?
- Me ensinaram. E cá estou eu a te ensinar.
- Quem te ensinou?
- Um dos jovens do senhor X.
- Hum!
- Fizemos algumas missões e quando estava
apta, ele me abandonou.
- Que pena!
- Que pena mesmo, pois soube que dois meses depois
que comecei a trabalhar sozinha ele foi pego numa emboscada no Peru
e morreu.
- Que Deus o tenha! – fazendo o sinal da
cruz, disse Ana.
- É mesmo. Agora, guarde bem o sinalzinho
que te mostrei. E vamos aos nossos postos.
- E até às cinco.
- Até às cinco? Não, antes.
Cinco horas estaremos partindo para Paris.
Quase duas horas depois, por dizer exatamente,
dez horas e cinqüenta minutos Ana avistou o moço loiro.
Fez sinal para a outra, que apenas abaixou a cabeça, conferiu
com o da foto e preparou o rifle.
Com a mira de longo alcance achou um lugar calmo
para o momento do disparo sem que alguém fosse atingido. Preparou
rapidamente a arma, e...
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP. - Respeite os Direitos Autorais - Obra
Registrada em Cartório.
Outubro de 2010
O
DEZ / ENCONTROS DE ANA - Cap.
04
Na cidade do Rio de Janeiro
Ana se depara com multidões pelas ruas gritando comandos de paz.
Nada àquela altura era estranho para ela. Parecia que eram apenas
gritos de pessoas que tentavam usurpar a paz alheia.
Dirigi-se de táxi para o Hotel El-Dourado.
Ao mostrar a credencial ao recepcionista do hotel, logo lhe é
dado a chave de um apartamento: quinto andar, 551. Coincidência
ou não, algo deveria acontecer que envolvesse aqueles números.
Abre a porta do apartamento e depara-se com a
jovem que lhe buscara em casa quando saíra com destino a cidade
de São Paulo. Ana olha-a por alguns minutos, fecha a porta.
- Boa tarde.
- Boa tarde.
- Algum recado?
- Há um envelope sobre a cama para você.
Ana olha-o atentamente primeiro, pega-o nas mãos.
Nada há escrito pelo lado de fora. Abre-o
com sutileza. Lê. Faz novamente a leitura. Já sabia o que
devia fazer. Olha atentamente para a jovem que permanece no mesmo lugar,
diz:
- Parceiras?
- Sim, parceiras. Eu sou Ellen.
- Prazer em revê-la. Eu sou Ana. O que devemos
fazer?
- No momento certo saberemos.
- Certo. Há tempo para um banho?
- Sim, nosso trabalho começa apenas amanhã
à tarde.
Ana coloca a sua valise sobre a cama. Pega as
suas roupas e pendura-as no armário – apesar de pequena,
a valise trazia duas mudas completas de roupas, além de uma camisola
toda em renda vermelha e uma toalha de banho.
A água do chuveiro é convidativa
e Ana permanece já há mais de meia hora. A água
naquele momento lavava-lhe não só o corpo, mas também
a alma. O burburinho violento que se ouvia da janela do quarto no banheiro
não havia: a água encobria-o.
Lentamente a porta do banheiro é aberta.
Ana afasta a pesada lona (que está no lugar de boxe) e vê
Ellen nua dirigindo-se para o boxe.
- Posso entrar?
Ana titubeia um momento, mas consente.
- Pode.
Ana observa que Ellen afasta mais a cortina e
começa observá-la. Parece medi-la de alto a baixo. Faz
o mesmo. Ellen possuía um belo corpo: moldado, perfeito. Corpo
de violão, como costumam dizer. Apenas, ao seu olhar de mulher,
lhe faltava um pouco mais de volume nos seios.
Pelo outro lado, Ellen fez um julgamento parecido
com o de Ana: corpo de violão, mas atentou para o fato de Ana
ter belos seios. Além de belos, volumosos.
Trocaram olhares por longos minutos. E Ana quebra
o silêncio:
- Quantos anos você tem?
- Tenho vinte e seis. Imagino que você tenha
quase a mesma.
- Quase você acertou. Tenho vinte e oito.
- E como conseguiu entrar neste trabalho?
- Apenas descobri alguns lances, depois fiz alguns
testes e depois de dois meses fui intimada a trabalhar. É a minha
primeira vez. E você?
- Trabalhei numa empresa que fazia transações
comerciais e depois de algumas coisas que descobri fui chamada para
trabalhar para o senhor X.
- E o que você faz?
- Faço o que mandam.
- Arriscado?
- Às vezes.
- Qual foi o último serviço?
- Foi um serviço no Pantanal.
- Hum!
E Ana tenta manter a conversa apenas no olhar,
mas nota que Ellen não quer falar.
- A água está boa?
- Está. Apenas uma última perguntinha.
- Sim.
- O que vamos fazer amanhã?
- Não sei completamente, mas você
tem que dar cobertura pra mim no que eu for realizar.
- E quando saberá?
- Pode deixar, logo saberemos.
Ellen passa ao lado de Ana sem tocá-la.
Fecha os olhos e deixa a água cair sobre seu corpo por alguns
segundos. O tempo para Ana parece uma eternidade. Logo ela que era fã
de homens – pode se dizer de carteirinha – ali parada olhando
para o corpo de uma mulher.
A eternidade passa. Ellen abre os olhos e faz
sinal para que Ana se aproxime. Ana não sai do lugar, apenas
olha-a. Não se contendo com a resistência de Ana, Ellen
dá um passo em direção de Ana e puxa-a para junto.
Ana não consegue resistir. Sente que precisa de alguém
ao seu lado...
- Pedro César Alves - é professor
de Língua Portuguesa; Escritor nas horas vagas; Gestor do Programa
Escola da Família, da Secret. Est. de Educação
de SP. - Respeite os Direitos Autorais - Obra Registrada em Cartório.
Outubro de 2010
O
DEZ / ENCONTROS DE ANA - Cap.
03
Passava das dezoito horas quando
um mensageiro do hotel bateu à porta. Trazia um envelope. Ana
agradeceu, fechou a porta e fez a leitura.
Tinha muito tempo disponível. Deveria permanecer
no hotel nos dois dias seguintes até a próxima instrução.
Sair para passear era fato descartado. Assinara um contrato que teria
que se manter de maneira a não levantar suspeitas. Junto com
o envelope viera um livro: uma história de máfia. Gostara
do título: De operário a Mafioso. Tudo indicava que o
tal operário virara mafioso, mas como? Teria que ler. E, para
isso, tinha tempo disponível: dois dias.
A noite caíra rapidamente na cidade de
São Paulo. A estação do ano ajudava: inverno. Assistiu
a todas as novelas da televisão, jornais e ao filme do fim de
noite.
A manhã já era alta quando o telefone
de seu apartamento tocou.
- Sim?
- Ana?
- Ela mesma.
- Há uma encomenda para você retirar
aqui na entrada do hotel.
- Dentro de cinco minutos pegarei. Obrigada.
E o recepcionista desliga o telefone.
Ana estranha, mas apronta-se e desce. Apanha a
encomenda que não é muito grande e dirigi-se ao apartamento.
No apartamento abre a caixa e depara-se com uma
pequena arma e uma folha explicando o que deveria fazer.
Ana lê tudo duas vezes, presta bem atenção
nos detalhes que estão colocados; atenta para um pequeno detalhe
no final das explicações: “Você não
pode falhar.”
Assiste atentamente os noticiários da televisão.
Na cidade do Rio de Janeiro havia uma conferência – O Mundo
pela Paz através da Leitura. Vários representantes de
chefes de Estado estavam presentes, alguns reis e príncipes;
organizações não-governamentais e literatos renomados
também se faziam presentes. Todos buscavam soluções
de paz associadas à leitura.
Estranha a posição que tem que tomar.
Passa o dia na leitura dos últimos capítulos do livro
que lhe fora enviado. O escritor estava de parabéns! Este conduziu
o enredo tão bem que somente na última folha é
revelado a chefe da máfia. Pensa bem nos entraves da história
que acabara de ler; percebe que ela já faz parte de um dos lados,
mas ainda não sabe qual; talvez um dia ficaria sabendo, aliás,
seria difícil, pois não sabia para quem trabalhava.
No fim da tarde atenta para a avenida em frente
ao hotel. Bem movimentada. As pessoas parecem que não possuem
tempo para se olharem, para trocar um gesto de amor; quando uma destas
coisas acontece percebe-se que é para se castigarem – atos
de desamor. Raríssimas vezes nota-se um gesto de amor... mas,
ainda bem que há algumas raridades na humanidade que ainda lembram
que existe o outro.
Anoitece. Faz o mesmo do dia anterior: novelas,
telejornais. Resiste ao filme, pois no outro dia deveria viajar pela
manhã para a cidade do Rio de Janeiro.
Logo pela manhã recebe novo telefonema
para retirar nova encomenda na recepção do hotel.
A encomenda, um pouco maior que a anterior, trazia
roupas perfeitas para o seu corpo e uma credencial – tudo dentro
de uma pequena valise. Fora ótimo: já não agüentava
mais ficar sem trocar de roupas, mas nada podia fazer, apenas cumpria
ordens.
O tempo passa; a hora de Ana chega. Prepara-se
para dirigir a cidade do Rio de Janeiro.
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP. - Respeite os Direitos Autorais - Obra
Registrada em Cartório.
Setembro de 2010
O
DEZ / ENCONTROS DE ANA - Cap.
02
Ao chegar em casa Ana abriu o
envelope, leu as instruções. Passou tudo certinho para
a mãe. O cartão estava em nome da sua mãe –
era vitalício.
Joaquina, a mãe, guardou tim-tim por tim-tim
do que Ana falara. Sabia que a filha em breve estaria trabalhando para
o senhor X, ganharia asas no céu – conheceria o mundo.
Algo não lhe parecia bem porque tudo devia
ser mantido em absoluto segredo. Parecia que tudo era segredo de Estado.
Duas semanas se passaram e num final de tarde
um carro estaciona em frente da casa de Ana, aperta a campainha.
Ana atende à porta.
- Ana?
- Sim, sou eu.
Sem mais nada dizer entrega-lhe um envelope. Vira-se,
entra no carro que parte imediatamente.
Ana entra e vai direto para seu quarto. Um dos
itens a serem cumpridos: nem a mãe deveria saber o que continha
cada envelope. Lê atentamente as instruções. Deveria
partir no dia seguinte.
Arruma uma sacola – estas frágeis
de supermercado – coloca nela apenas o que manda a mensagem. Avisa
a mãe que sairá cedo para o trabalho.
Deita mais cedo do que antes, pois deverá
estar no portão de sua casa assim que o relógio marcar
três horas da manhã. Coloca o despertador para meia hora
antes do encontro.
Sonha com encontros fantásticos, em palácios,
em alto-mar, no deserto, em embaixadas, em grandes (pequenos) hotéis,
motéis... parecia uma caçada, um safári.
É despertada pelo som do relógio.
Toma um banho rápido. Apronta-se como mandara o envelope.
“Cinco minutos ainda!”
E o tempo não passa...
Um minuto. Beija a mãe que lhe deseja sorte.
Abre a porta, lentamente o portão.
“Trinta segundos.”
“Quinze segundos.”
“Cinco segundos.”
Um carro de farol baixo aproxima-se – era
o que estava descrito no envelope. Encosta e a porta se abre.
Ana entra no carro e uma jovem está no
comando do veículo. Aparentava uns vinte e cinco anos. Cabelos
longos e pretos, pele clara. Recebe-a com um sorriso leve:
- Bom dia.
- Bom dia.
- Sabes o que fazer?
- Minha instrução terminou quando
entrei no carro.
- Tudo bem. Abra este porta-luva à sua
frente, retire o envelope e leia.
Ana cumpre a ordem.
Ana faz rapidamente a leitura, deveria descer
na rodoviária e pegar um ônibus para a cidade de São
Paulo. Estava numa pequena cidade do interior.
- Deixe-me na rodoviária.
- Sim.
A moça ao volante agora cumpre a ordem.
A poucas quadras dali se encontrava a rodoviária.
Toma o ônibus indicado na passagem que havia
dentro do envelope.
As horas passam e de acordo com o indicado deveria
chegar na rodoviária da cidade de São Paulo por volta
do meio dia. Pegaria um táxi para o Hotel American Press –
que ficava a oito quadras dali. Hospedaria no quinto andar, apartamento
551.
Às treze horas já tomava um bom
banho, mas usava a mesma roupa. Era esperar o próximo envelope.
- Pedro César Alves - é professor
de Língua Portuguesa; Escritor nas horas vagas; Gestor do Programa
Escola da Família, da Secret. Est. de Educação
de SP. - Respeite os Direitos Autorais - Obra Registrada em Cartório.
Setembro de 2010
O
DEZ / ENCONTROS DE ANA - Cap.
01
Os desencontros sempre marcaram
a vida de Ana.
O que estava acontecendo naquele momento parecia
mais calmo, sereno.
Procurou resposta em sua atormentada mente para
aquela situação. Talvez, fosse o seu dia de sorte –
sempre ouvia: para tudo há um momento certo.
Continuou a ouvir as palavras do cavalheiro que
estava à sua frente: alto, cabelos não tão curtos
e louros, de corpo atlético, bem vestido. Pareciam que céus
e terra se encontravam naquele exato instante.
As palavras pausadamente penetravam dentro de
si, ardiam. Seria o momento do clímax – fato que nunca
sentira antes. Tinha que curtir aquele momento, afinal, nem sempre a
sorte bate duas vezes no mesmo lugar (ou, o raio nunca cai duas vezes
no mesmo lugar: que grande mentira!). As palavras pareciam tomar formas,
cores, sabor quando pronunciadas por ele.
Olhou atentamente para os olhos dele: seriam verdades
as palavras ditas?
Abriu a pequena bolsa, retirou o cigarro e o fósforo.
- Posso?
- Não faz bem à saúde.
- Leio todos os dias esta mensagem. Mas... posso?
- Você sabe se pode ou não.
Guardou-o. Levemente fechou a pequena bolsa.
- Continue.
Ela degustava suas palavras como se fosse o melhor
sorvete do mundo: chocolate, morango, abacaxi...
- Afinal, o que devo fazer?
- Seguir à risca cada dica que você
receber.
- Apenas isto?
- Sim.
- E os acertos?
- Quais?
- Todos! – já alterando a voz.
- Ah! Cada vez que você cumprir a tarefa
recebe uma parte.
- E no final?
- Não tem fim...
- Não?
- Não. Você foi uma das escolhidas
para estas aventuras.
Silêncio. Até as folhas das árvores
pareciam naquele momento calar o seu murmúrio.
- Qual o valor exato?
- Não há valor exato. Você
passou a ser propriedade do senhor X.
- Mas o senhor X não é o...
- Psiuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!
- Por quê?
- Outros podem ouvir.
- Então... não há volta?
- Não, não há. Sempre ir
em frente, ou...
Ela já sabia o que significava aquele ”ou”.
- Tudo bem. Mas garante-me que não me faltará
nada?
- Isto é a primeira coisa que lhe foi garantida.
Você superou todos os testes. Você é muito inteligente,
de raciocínio rápido, bonita...
- Está bem. Quando começo?
- Calma. Você saberá. Breve você
começará a conhecer o mundo.
- Como assim?
- Aguarde em sua casa as instruções.
- Posso confiar?
- Claro que pode. Aqui estão os papéis
que garante o sustento à sua família, às vezes,
você pode demorar nas missões.
- Obrigada.
- Leia atentamente o envelope. Há instruções
junto com o cartão que ficará para sua mãe.
E, levantando-se, o cavalheiro estendeu-lhe a
mão.
- Verei você mais vezes?
- Talvez. Até...
- Até.
- Pedro César Alves - é professor
de Língua Portuguesa; Escritor nas horas vagas; Gestor do Programa
Escola da Família, da Secret. Est. de Educação
de SP. - Respeite os Direitos Autorais - Obra Registrada em Cartório.
Setembro de 2010
E O AMOR, ONDE
FICA?
Outro dia comentei sobre as atividades
que ‘as meninas’ fazem – tudo por dinheiro (sobrevivência),
mas que nem sempre o dia é proveitoso. No texto de hoje o relato
fica por conta do amor, isto é, onde fica o amor?
Por consequência, o amor
não tem lugar nessas paradas – fingimento, como as próprias
‘meninas’ dizem. E acrescentam: sexo agora; amor, depois
– Rita Lee já cantou assim (salvo engano).
Mas o que me perturbou foi um
caso recente que presenciei com meus próprios olhos. E dizia
ele: “Encontrei-a lá, e no primeiro olhar, amei. Os dias
se passaram, voltei lá e a levei pra casa. Vivemos dias, meses
e anos felizes – meia década. Acho que não dei valor
e ela se foi...” E lágrimas rolavam dos olhos quando completou
a sentença: “... voltou pra lá novamente!”
– é de se pensar.
Pensar em ‘quem não
correspondem às expectativas’, sabendo que no início
tudo era maravilha – como em qualquer relacionamento – que
decisão tomar? E o amor, onde fica? (Ou pensar que alguns relacionamentos
funcionam assim: cada um ganha o seu dinheiro, a sua vida como pode
– e, perante a sociedade, são casais perfeitos?)
Até onde, pergunto-me,
a sociedade vai com tais problemas – ou não são
problemas? Para quem anda na rua, como eu, e observo as donzelas, senhoras,
madames e etc. e tal ‘toda-toda’ (mas por outro lado não
é nada disso) já não estranho mais nada... E continuo
a perguntar: onde fica o amor? (24/10/2007)
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP.
Setembro de 2010
A DURA VIDA
DAS MENINAS
Através das minhas andanças
pelas ruas da cidade fico sabendo – às vezes observo –
de cada cena, que só vendo pra crer!
No relato de hoje conto o que
‘as meninas’ passam em seu trabalho diário de salvar
homens.
Que termo, não? Salvar
homens!
Dizem-me (algumas) que o ofício,
apesar de ser em algumas vezes lucrativo – é, portanto,
nojento. Nojento no sentido de ter que agüentar homens de todos
os tipos – inclusive a falta de higiene pessoal.
Acrescento: que bebem até
quase não poder mais, pois ‘as ladies’ proprietárias
destes estabelecimentos pedem ‘às meninas’ que faça
os homens beberem, e beberem, e beberem – pior: a ‘geladinha’
nesses lugares custam um bom e elevado preço – acima de
quatro vezes o preço normal, se comparado a um bar. E, os homens
tomam uma após a outra – e ‘as meninas’ precisam
acompanhar. Como dizem: “Às vezes não lucramos
nada, pois bebemos tanto que acabamos na pior – e somente ‘as
ladies’ lucram com isso!”
Num mesmo dia conversei com duas
‘meninas’. Para a primeira – uma morena bonita, trinta
e dois anos, de seios fartos, coxas grossas, bumbum avantajado e quatro
filhos (do seu único casamento que durou cerca de quinze anos)
– o dia tinha sido bom: faturado uma boa grana; estava alegre.
Para a segunda – uma bela mulher, aparentando seus trinta anos
(uma filha), branca, seios fartos, coxas grossas – não
tinha sido nada bom: nenhum homem havia aparecido na casa naquele dia.
Pensei comigo: quanta diferença! (E a última tinha me
dito que havia telefonado para vários homens-amigos e nada.)
A fechar esse texto, acrescento
que a vida destas ‘meninas’ não é nada fácil
– mas também nem sempre a escolha feita fora a mais bem
indicada, a mais bem sucedida; temos que usar, às vezes, o ‘livre
arbítrio’ – se você acredita nele.
E nesse ‘livre arbítrio’
continuam ‘as meninas’ na tentativa de se salvarem e salvarem
os homens na busca de realizações carnais. E o amor, onde
fica? (Conto na próxima onde fica o amor...) – (23/10/2007)
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP.
Aosto de 2010
CRUZAMENTOS
Pensando no tudo, e não
tendo nada a ver, resolvi escrever sobre os cruzamentos da vida. E,
tendo em vista tal assunto – abrangente por sinal – por
onde começar?
Talvez no cruzamento da Avenida
Ipiranga com a Avenida São João; ou em outro lugar qualquer;
talvez no cruzamento da menina-moça-donzela com o garotão-garanhão;
talvez no cruzamento (e que acontece muito) das linhas telefônicas
e ouve-se muitas conversas fiadas, de negócios, de amores e desamores
– mas sem saber quem fala pra quem; talvez no cruzamento das idéias
dos professores, dos autores, dos poetas, dos românticos, dos
boêmios; dos políticos... Quantos cruzamentos a citar?
E, de cruzamentos em cruzamentos,
tudo fica cruzado. Até as minhas palavras ficaram cruzadas. A
vida é uma cruzada cheia de cruzamentos. Há tantos cruzamentos
que nem a filosofia da vida pode explicar. Ou, o melhor é não
explicar; o melhor é o inexplicável.
Continuar com pensamentos cruzados
ainda é a solução para melhor se viver, pois enquanto
um fio dela estiver embaraçado há mãos tentando
desembaraçá-lo, mas quando o fio estiver sem nó
não haverá mais mãos nele; logo: pensamentos cruzados,
mente pensando, agindo, procurando solução e, às
vezes, sem solução. (2007)
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP.
A MORTE DA BORBOLETA
Muitas vezes pensamos na morte
como um ato triste, fúnebre – mas na verdade, pelo menos
para nossa cultura, é (para outras culturas nem tanto). Outro
dia pensei na morte da borboleta – claro que a partir de um simples
fato.
Caminhava eu pelas ruas da cidade
quando, ao cruzar uma avenida, a pobre da borboleta não desviou
– entrou na contramão e eu também não consegui
desviar da mesma. Apesar dos pesares: borboleta laranja, com pintas
pretas saltitantes, fatal!
Fato simples, mas que leva a
pensar – não pelo simples fato de pensar, mas pelo simples
fato da vida não passar de segundos – claro que ao pé
dessa eternidade que se consta aos olhos dos estudiosos do planeta.
A mesma – mesmo eu tentando
desviar – chocou-se contra o meu automóvel e caiu a poucos
metros. Caiu já sem vida. Doeu-me o fato dela cair. Olhei pelo
retrovisor: lá estava ela estendida ao chão: asas juntinhas
e o corpo tombado, sem vida. Somos assim também – e em
muitas situações.
Somos insolentes: nem voltei
para dar assistência, não fui enterrá-la, ou pelo
menos avisar os parentes – consolar os amigos... – como
somos! E isso acontece com todos os humanos.
A dor alheia não pesa
tanto – ou pesa? Ou escondemos os sentimentos para tentarmos sobreviver
nesse mundo ‘quase sem porteira’? A reflexão nem
sempre evidencia a razão, mas por vezes a emoção
também aflora. E quando uma ou outra aflora, sempre temos os
problemas à tona. Esse vir à tona é o fator complicador.
A morte da borboleta é
apenas um fato gerador – simples, mas é. A vida em si deve
ser repensada, desfrutada com valor. Usar a razão, mas também
dar evasão a emoção – afinal, como diz o
cantor: “...somos humanos!” (30/01/2008)
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP.
PERSIANAS
Como professor, sei que sou chato
– mas um chato ‘quase’ necessário. Mas, entre
as minhas chatices existe o lado bom – e, como profissional, as
minhas aulas são boas (reconhecidas pelos alunos).
Pelo menos duas vezes por mês
visitamos a biblioteca e vamos à sala de leitura. Para quem não
sabe – ou não entende – na escola em que trabalho,
ao lado do anfiteatro, há uma sala com duas estantes de livros
(poesias, crônicas, romances – e com vários volumes
de cada títulos). Nesta sala não há cadeiras ou
carteiras, há apenas uma poltrona azul pra o professor, três
tapetes grandes e umas quarenta almofadas. Lá os alunos se sentem
no céu: escolhem o livro (esta semana nos primeiros anos do Ensino
Médio lemos fábulas e nos terceiros anos do Ensino Médio,
contos), deitam no carpete, recostados nas almofadas, e com som –
música clássica: Richard Clayderman ao piano. Vale registrar
que a biblioteca e a sala de leitura não é o mesmo lugar
– pelo menos onde trabalho.
Continuando – melhor,
voltando ao assunto que ainda não iniciei, na sala de leitura,
sentado ora na poltrona azul, ora no tapete ao lado dos alunos, comecei
a observar a paisagem pelas frestas das persianas. Como a sala é
no andar superior do prédio, se vê as árvores –
algumas, por cima. Não me contive. Aproximei-me das vidraças
– com as mãos afastei parte das persianas. Não me
contive: abri lentamente as mesmas: um ‘mundo novo’ se abriu.
A claridade inundou plenamente
o ambiente – apesar de lá fora o dia estar nublado –
e estampou no rosto de cada um ali presente. O burburinho das leituras
também tomou vida.
E eu, no final do período,
ao fechar as persianas, a fechar um mundo. E a filosofar: do meu sobrado
também sonho em desvendar o que há por trás das
persianas vizinhas. (Mar/2008)
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP.
SEM VONTADE
Acordei hoje sem vontade de fazer
alguma coisa - muito menos trabalhar - mas o dever me chamava: oito
aulas. Quatro aulas eram de preparação pra o Vestibular
(e o assunto era: interpretação de textos/imagens); duas
aulas eram sobre crônica (leitura e interpretação
também)/ e as outras duas aulas eram de Inglês (para os
iniciantes). E lá fui eu...
No final da sexta aula estava
super feliz - apesar dos problemas. A minha felicidade se dava pelo
fato de os alunos realizarem os seus trabalhos: leitura de quatro crônicas
- preparação pra o Vestibular ("Avô e neta",
de José Carlos Oliveira; "Comunicação",
de Luís Fernando Veríssimo; "Kni e Giv", de
Carlos Eduardo Novaes; e "Para uma garota de quinze anos",
de Lourenço Diaféria) - e responder às questões
solicitadas. Acrescido a essas crônicas uma fotografia de Sebastião
Salgado que retrata sacas de café em primeiro plano e, ao fundo,
homens carregando-as (um trabalho árduo, pesado, de baixa remuneração).
Riquezas concentram na mão de poucos - miséria por todo
lado! Ah, meu Deus!
À tarde, com os meninos/as
iniciantes do Inglês, trabalhamos as cores (desenhos) e horas
(numerais até sessenta). Não sou um exímio desenhista,
mas cada desenhista tem os seus traços p e os meus , por sinal,
são péssimos.
Notei, porém, que uma
parte do alunado espera muito do professor - isto é, esperam
tudo pronto; não gostam de raciocinar. A resposta para eles é
sim ou não, não existe a justificativa. Por que será
que quando cobramos explicações (comprovação
partindo do texto) não conseguem ou sentem dificuldades? Onde
está o erro? Há erro? Ou é preguiça mental?
(Pois, quando os 'forçamos', fazem.)
Fechando essas linhas (para
começar a corrigir a interpretação dos textos)
lembro que também fui assim - mas nem tanto. Será que
as novas gerações vão ser sempre assim?
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP.
Julho de 2010
VOLTA AO PASSADO
Luis Fernando Veríssimo
tem um texto que chama-se "História Estranha". A volta
ao passado torna, ao mesmo tempo, estranha e inquietante - pelo menos
aos meus olhos.
Eu com quarenta encontrar com
o meu 'eu' de sete anos - estranho não? Mas, mais estranho ainda
é o meu 'eu' de sete anos raciocinar e ir de encontro ao meu
eu' de quarenta.
A visão é possível.
Às vezes sentimos que já estivemos naquele lugar sem nunca
estar (pelo menos nesta vida) - é possível? Paranormalismo?
Não sei, mas acontece não raro comigo. (Sou anormal...)
Será? Ou é uma visão espírita?
Muitos acreditam, outros tantos
'muitos' não acreditam. Só sei que nada sei - e ponto.
Nada de ponto, mas sim de ponto-e-vírgula porque a história
não acaba aí; como dizem: sempre tem algo a mais - e tem
mesmo! Quem somos para dar explicações frente a este vasto
mundo?
"Mundo, mundo - vasto mundo!"
- e como é vasto e, ao mesmo tempo, pequeno os nossos conhecimentos!
Como é vasto... Tantos séculos de estudos, de aprendizdo
e o homem, na pouca existência na face da Terra, quer degustar
grande parte desse aprendizado: pobre homem! Pobre ser! Pobre ser humano
- será que consegue ser humano?
É a eterna luta da matéria
contra o espírito - e alguns têm cada espírito!
(28/7/2010)
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP.
MAIS QUE PAI
E FILHO!
Mesmo não tendo inspiração
para escrever neste dia, resolvi ler algumas canções e
registrar aqui o que sinto - que não deve ser muito diferente
dos pais que, por ocasião de separações conjugais,
vivem meio longe dos filhos.
Há pouco escrevi sobre
a minha filha. Disse que ouvi ontem a canção Filha, pela
dupla Rick e Renner e me apaixonei. Letra encantadora! E, como sou curioso,
fui buscar - ler - outras canções da dupla. E lá
estava esta: "Mais que pai e filho" - lindíssima! (E
o professor Flávio estava com a razão ao dizer o mesmo
que eu: linda canção!) É um belo diálogo
entre pai e filho, aprecie:
"Pai to aqui pra dizer
que valeu / Olha o quanto o seu filho cresceu / Pai olha seu sonho aqui
// Filho eu às vezes nem sei se mereço / Mesmo assim todo
dia agradeço / A magia de te ver sorrir // Pai to deixando de
ser um menino / Mais não quero que o meu destino / Venha nos
distanciar // Filho não importa aonde o destino vai / Saiba que
o meu amor de pai / Sempre ira te acompanhar // Que bom que deus fez
de nos dois mais do que pai e filho permitiram que agente dividisse
o brilho do sol que pra muito jamais vai nascer / Que bom que deus deu
pra esse filme um lindo final transformando um sonho em vida real vida
que agente só tem que viver // Pai sua voz hoje é minha
voz / Tem um elo de paz entre nos / Que nada poderá romper //
Filho nesse mundo azul que é tão só seu / Hoje
tem um pai que compreendeu / O amor quando te viu nascer // Pai você
é o meu grande amigo / (muito mais que um amigo) / Quando você
conversa comigo / Me sinto seguro e melhor // Filho pode apostar na
vida com fé / Que por deus todo homem já é uma
luz a brilhar por si só // Que bom que deus fez de nos dois mais
do que pai e filho permitiu que agente dividisse o brilho do sol que
pra muito jamais vai nascer / Que bom que deus deu pra esse filme um
lindo final transformando um sonho em vida real vida que agente só
tem que viver (2x) // Pai, filho. - Rick e Renner" - Linda canção!
Nada melhor que um bom relacionamento...
Nada mais a dizer... Nada melhor que poder ser chamado de "Pai!"
"Pai, papai..." (Agosto de 2008)
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP.
DAR BEM DADO
A língua, ou melhor, o
uso da língua nos proporciona inúmeras situações
que - se não prestarmos atenção - entramos em cada
problema, e alguns - diga-se de passagens - meio complicados.
Um exemplo legal é este
a seguir: "Dar bem dado que fica o resto da vida dado." É
uma frase que, a primeira leitura, leva a mil interpretações,
a mil ideias - entre elas a que você, caro leitor, pensou.
Mas essa situação
aconteceu na escola (e sem querer, é claro) e rimos muito. A
situação foi assim - uma aluna deu um gritinho bem histérico
chamando a minha pessoa, voltei o meu olhar pra ela e a mesma disse-me:
"Professor, olha o 'Fulano' me atormentando." - notei que
não era tão sério o assunto e, espontaneamente,
disse (fazendo gesto): "Dê um bem dado que o resto da vida
fica bem dado que ele não vai esquecer mais, assim, não
vai mexer mais com você." Dito isto, a sala toda caiu na
gargalhada, comentando: "Dê bem dado pra ele que ele nunca
vai te esquecer..." - claro que ironizando a situação,
levando para o outro lado - como dizem.
Essa nossa língua nos
prega cada uma! Essa é a nossa língua: a nossa Língua
Portuguesa!
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP.
A ALÇA
DO SUTIÃ
Franceses –
se não estiver enganado – têm cada idéia!
Inventaram o danadinho do sutiã. Uma peça que evoluiu
com o tempo e hoje há de vários modelos, cores...
Os mais variados
modelos encobre peles claras, morenas e negras deixando a doçura
dos seios cobertos, seguros – ou isto em parte. Para algumas damas
– pelo excesso que possuem é um alívio: pois são
seguros para não saírem pulando (deve ser horrível
tê-los a balançar!). Prosseguindo, mas o que o título
sugere não é o tamanho dos seios, a cor da pele ou o fato
em si de estar cobertos, ou ainda o tamanho deles, mas a danadinha da
alça.
Pessoalmente,
o que vou relatar aqui é o problema que acho terrível
em determinadas mulheres que não se prezam em se vestir.
Esquisito colocar
o sutiã e ficar com as alças viradas – ou torcidas
(salvo aqueles que são de silicone e possuem forma arredondada).
Fica tão estranho que me dá vontade de cutucar a ‘fulana’
e dizer: “Arrume a alça do sutiã que está
me incomodando!”
Imagine se a
tal ‘fulana’ simplesmente dizer: “Se estiver incomodando
você, arrume-o!” – o que vou fazer? Arrumar ou não,
eis a questão!
Mas, caro leitor,
se você for mulher, atente para este pequeno detalhe que lhe tira
o charme, pois pode ser interpretado como “não saber se
vestir”. (E, se encontrar eu na rua, não me provoque deixando-o
torto, porque já viu...)
- Pedro César Alves
- é professor de Língua Portuguesa; Escritor nas horas
vagas; Gestor do Programa Escola da Família, da Secret. Est.
de Educação de SP.