TEXTOS DO AUTOR

 

 

 

 

 

TEXTOS

 

de

 

RITA LAVOYER

 

 

 

Março de 2011

CERCA ELÉTRICA

Na semana passada, fui levar minha sobrinha para dormir na casa da minha mãe, por sinal avó dela. Estava chovendo pacas!
Sai do carro e abri a sombrinha (claro que quem tinha que se molhar era eu).
Abri a porta do passageiro como maior cuidado para que a princesa não se molhasse, protegendo-a debaixo da sobrinha, a única.
Com uma das mãos abri o portão com a chave que possuo, segurando a sombrinha com a outra, porque só tenho duas, fazer o quê? No vai que não vai, encostei o “raio” da sombrinha na cerca elétrica que, por azar, estava ligada no dia errado. A descarga foi tanta que as barbatanas daquele objeto vagabundo arrebitaram pra cima.
Descobri que eu devo ser feita de plástico, borracha ou qualquer material bem vagabundo, pois ainda estou viva, apesar do grande choque que eu levei.
A princesa, debaixo da chuva, morrendo de rir do feito disse:
- ¾ Tchau, tia... Não precisa me levar lá dentro, não! Quero me molhar.
Entrei no carro até com medo de me olhar no espelho. Vai que a descarga refletiria no aço, quebrando-o.
O que diriam os que não sabiam da história?
A sombrinha? Joguei fora, uai! Quebrada, serve pra quê?

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Janeiro de 2011

SOU A NOITE

Sou a tua noite, vem que eu te embalo.
Traze no teu ser o cansaço
E em mim podes colocá-lo.
Dá a esta noite o prazer
De ser do teu céu o paço.

Com os teus pés fora da rota,
Pisa-me a imensa raiz
Cálida. Denota teus passos e bota
Semblante em minha cariz.

Sim! Depois que fizeres de mim concretude
Avantaja-te com qualquer libação.
Toca-me o ventre com instrumento sagrado
E tira do som o teu vinho e o teu pão.

A canção dos alimentos que queres
Encontrarás bem dentro de mim.
Sou dos arvoredos sementes,
Uivando vontades crescentes,
Confinadas em meu camarim.

Autorizado estás
Para das flores tirares fragrância.
Para tal precisam do orvalho
Que brota da tua inocência.
À vaga dá luz com teu lume
E faça o dia de mim descendência.

Terminado o teu sono, e tua alma
Novamente encontrar-se contigo,
Descansados estarão os teus passos
Por teres me dado sentido.

Por ti exerci tal função
Fui noite porque assim me quiseste.
Adentro da visão caminhaste
Fazendo-me dos teus sonhos vedete.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Janeiro de 2011

O HOMEM QUE COMEU A MARGARIDA

Durante 4 décadas atravessou o deserto para encontrar a água que lhe matasse a sede.

Quando a encontrou não conseguiu tocá-la, temendo miragem. Ajoelhou-se à sua margem; ela, cristalina, o refletiu. Ele viu-se nela. Miraram-se naquela realidade.

Levantou-se e caminhou contra o fluxo, alcançando aquela nascente. Eram gotas que pingavam do pé de uma margarida vermelha. Sedento, esticou a sua mão e a tocou. Àquela leve carícia as gotas secaram. Os suaves fios da água foram desaparecendo dentro da areia quente do deserto.

Desesperado, arrancou a flor até a raiz e guardou-a em seu peito, dando-lhe guarida.

Desidratada, definhou-se. O homem, para não vê-la morta, comeu-a com dó.

O deserto desapareceu diante daqueles olhos inundados num mar de lágrimas vermelhas.

Renovada dentro daquele corpo, a margarida ordenou-lhe:

- Vá em frente!

Ávido, as suas lágrimas secaram e aquele vermelho escaldante foi abrindo-lhe o canal.

Temendo ilusão o homem recuou. Sem ceder uma polegada àqueles delírios, prostrou-se
ressequido à sombra de um pé de margarida, ainda sem cor, que renasceu no lodo do mar, nas proximidades da água prometida.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Dezembro de 2010

FIM DO TEMPO DO ANO

Todo início tem um fim
Todo fim um recomeço
Não meço a extensão
Entre um e o outro
Mas tento alcançar a duração
Do tempo vivido
Sem medidas
Todo recomeço tem
A medida de um espaço
A face daquele
Tento ocupar
Findando-me nele
Com comedimento
Em toda extensão da palavra
Toda extensão tem um ramal
Enfio-me em suas fieiras
Entrançando-me provas
Nos seus meios e afins
Difunfindo-me
Como símbolo de liberdade
Intemperada
Toda duração tem o seu
Intervalo de idade
Assim precisa acabar
Para uma nova contagem
Do conteúdo acumulado
O que era continua sendo
Na cútis das datas recontadas
Dá tempo ao tempo
Um presente
Há o tempo do fim
Não coloque pontos em
Nenhum ponto do tempo
Para não chegar ao
Fim do tempo
Com respostas
Sem perguntas
Coloque nele apenas etapas
Para contar
Vivendo-as tudo
De novo
Renovando
O velho
No novo
Que acaba de começar

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Outubro de 2010

MEDO EXDRÚXULO DO ALÉM TÚMULO

Helbergarda morria de medo do além túmulo. Desesperada por saber que iria conhecê-lo em qualquer época, matou-se.

Sempre trouxe a dúvida do por que um pulso cortado levava à morte e um braço amputado não.

Era exigente, gostava de serviços bem feitos.

A porta e a janela do seu quarto estavam trancadas pelo lado de dentro. Arrombaram-nas.

Encontraram-na morta, deitada na cama, com uma das mãos amputada, e outro braço com o pulso cortado até poder ver o osso, ao lado de um machado. Para igualá-la, arrancaram-lhe a outra mão também. Ginástica desumana.

Enlouquecia ao ver o seu corpo, sem as mãos, sendo maquiado para repousar eterno na urna.

Seus olhos arregalados não eram vistos, nem ouvidos. Agonizava-se para dizer, silenciosamente, o seu medo naquela morava para sempre.

Coroas chegavam. O vigário recusou-se a benzer o corpo.

Helbergarda foi... vendo... Viu-se enterrada. O medo por estar ali a consumia inteira.

Tamanho desespero fez mover os seus braços sem mãos. Com os ‘toquinhos’ que lhe sobraram batia na tampa do caixão, trancado pelo lado de fora, fazendo-se ouvir na câmara ao lado.

- Hei! Quem está ai? Aquiete o seu espírito. Pare de fazer barulho que eu preciso descansar em paz.

O medo por ouvir a reclamação do vizinho morto, ao lado, fez o líquido paralisado daquele corpo de Helbergarda correr freneticamente.

Esquecendo-se das boas maneiras, dentro da urna Helbergarda urinou.

- Hei! Vizinho novato, morreu do quê?

Sua condição piorou quando percebeu-se tratada no masculino. Esquecida, correu com suas mãos até o seu sexo, não o alcançou, não as tinha. Os seus braços mutilados chegavam até a altura do umbigo. Gemeu não saber mais sua identidade.

Aterrorizada, depois da pergunta do vizinho, não houve como controlar os agitos do seu corpo. Helbergarda tremia debaixo da terra.

- Quer parar de chacoalhar aí, seu engraçadinho! Pare agora! Senão vou até ai e te mato!

O medo de Helbergarda tornou-se atômico, ao ponto de ela explodir.

Seu corpo, num súbito, esparramou-se no espaço, levando consigo todo o material que a envolvia, enquanto a sua alma moribunda encolhia-se na cova, tentando agarrar-se aos vermes.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Outubro de 2010

O HOMEM E SUAS MANIFESTAÇÕES NO ESPAÇO URBANO

Acreditamos que cada época histórica tende, em seus registros, a despertar o sentido de novas descobertas e problemáticas. O grafite vem respondendo a essas necessidades, dando sentidos novos à história do ser humano e aos modos como vive. Assim se deu na década de 70, quando se vivia um período de turbulência e opressão do regime militar. Nesse percurso histórico, surge em meio ao “cinza” e “pálido” futuro, uma nova consciência das coisas manifestadas pelos textos do grafite.

Essa consciência da impermanência das coisas, da passagem do tempo e dos problemas sociais caracteriza os textos do grafite, tentando penetrar nessas realidades através de suas enunciações e de seus enunciados.

O texto grafite narra a história pelas inscrições nas paredes e muros das urbes. Sua trajetória procura constituir, pelos e nos textos, o mutável, porém, mais fundamental que qualquer coisa para os processos de sentidos e significações do grafite, ele se define em si mesmo, com uma condição de partilha, de condicionamento e de realizações, divide com a população das cidades contemporâneas as condições de vida, os acontecimentos, o lúdico, as emoções vividas.

Esses tipos de textos tematizam o cotidiano nos modos como se apresentam na topologia urbana. Por meio de como se manifestam, abandonam o rotineiro causando ruptura. O grafite não é uma pintura nas telas convencionais, pois ele executa suas funções e conta suas histórias nos suportes da própria cidade, trabalhando a própria superfície, colocando-se nos muros e paredes, postes e fachadas pelo emprego do spray, do pincel, das máscaras. Desta maneira, esse texto revela e valoriza os espaços da urbe e a ele se integra num todo, e mais: continua além, expandindo-se em outras cidades do mundo. Com isso, ele acaba realizando a tarefa de contar a história para sustentar a si mesmo, para tornar possível a sua existência, seu “corpo”, sua própria realidade. Nesse ato de “narrar”, de “contar”, o grafite se faz comunicação.

Entendemos que ler e escrever são atos comunicacionais, mas pintar, gesticular, dançar, grafitar, pichar, também. Essas e outras manifestações humanas são fundamentais e essenciais na comunicação, e devemos considerá-las para assumirmos convictamente nossa condição de bons receptores e produtores de textos, conscientizando-nos das possibilidades de participação social por meio da comunicação.

Acontece que, às vezes, o próprio homem se limita a considerar certo, correto e natural, aquilo que já lhe é imposto, que já está pré-estabelecido, esquecendo-se de dar sentido e apresentar outras partes da realidade comunicacional.

A comunicação pensada em sua totalidade, dotada de sentido, funde-se com a própria vida do ser humano, e por isso, já que está ligada à cultura, aos atos sociais de trabalhar, andar, pintar e todos os outros fazeres do sujeito.

Os destinadores do grafite são adolescentes, meninos e meninas, homens e mulheres que desejam ter sua voz e vez expostas aos olhares dos outros sujeitos. As escolhas do local e a do suporte são importantíssimas, uma vez que ter escolhido estar ali, nos muros e paredes, para se contrapor à manifestação dos meios de comunicação social do grupo dominante é fazer ser visto como é possível, já que se manifestar pelos meios dominantes não é sempre possível.

Aliás, apontar as problemáticas do povo, criticar a forma de andamento das escolhas políticas e das questões sociais de maneiras diferentes, são atitudes que podem ferir alguns interesses públicos e por isso, é bem provável, não ser possível manifestá-las nesses meios. Desta forma, escolher estar no suporte aberto da cidade, do mundo, através de suas paredes e muros, é um convite a todos para participar deste processo. A partir dessa participação, o grafite convida o outro, os outros, a interagir com ele e aceitá-lo.

Ao provocar uma mudança nos estados de alma dos que passam e veem , os textos do grafite e seus destinadores não serão mais tratados como marginais ou transgressores, mas sim, como sujeitos articulados e integrados à sociedade, inseridos e não excluídos, como aconteceu na maioria das vezes.

O grafite e sua significação são constituídos de relações de apreensão e comunicação com os transeuntes. Nessa intersemiose, texto, espaço, rua e transeuntes comunicam-se como se tivessem fios interligados, desenhos e formas aparecem em pontos estratégicos e se conectam, circulam no imaginário urbano num jogo lúdico de figuras fictícias que “brincam” com o espaço.

Assim, textos reais e imaginários fluem nas veias das urbes, desenhos se divertem esparramados no tecido urbano. E a nossa visão, cansada de poluição visual - política, comercial entre outras - agradece nas mais diversas linguagens.

**Rita Lavoyer desenvolveu trabalho sobre grafite para conclusão do Curso de pós-gradução em Linguística –Unesp - na área de semiótica.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Outubro de 2010

PÓ DO TEMPO

O tempo quis passar correndo,
mas enfiei minha mão na poeira
rasgando a sua cortina.
Conforme ela corria,
ia formando um plissado de pó
no tempo parado
pela palma da minha mão.
No plissê pendurei o meu laço
e soltei a minha palma.
O pó caiu no chão,
o plissado ficou liso.
O laço voa no tempo
esperando que lhe puxe a fita.
O mundo girou parado
e tudo ficou no lugar do movimento.
Só eu fiquei fora dele.
O laço voava...
Caiu sobre a minha face
plissada pelo tempo.
A fita esfarelou-se, estava velha.
Nas minhas mãos virou pó.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Lendo o Blog desta excelente escritora, encontrei este texto maravilhoso publicado há algum tempo...

Outubro de 2010

ABORTO E CASAMENTO HOMOSSEXUAL

Engraçado que esses temas não deveriam ser o foco nos discursos das disputas eleitoras vigentes. Mas sem projeto não dá! Projeto que o povo não entende não dá voto. Precisa espetar as mazelas de cada escala sociocultural para poder ver manivela fazendo circular cérebros. Cada um usa a manivela que possui e a administra da forma que lhe compete. O discurso do “Sou contra isso, mas sou a favor daquilo” ou “ Sou a favor disso, mas sou contra aquilo” anda enchendo o meu saco e perturbando a minha paciência.

Pasmem!

Se eu sou contra a prática do aborto, compete a mim, por acaso, julgar quem o praticou sem conhecer a realidade da mulher que se sujeitou a tamanha atrocidade, arriscando a própria vida, sem conhecer, dela, a história, e a sua trajetória de vida?

Se eu prefiro o homem à mulher, quem tem opinião contrária, tem alguma coisa a ver com o meu gosto sexual ou vice-versa?

Eu sou contra o aborto e não nego, como também não nego conhecer a felicidade de estar ao lado da pessoa que amo. Se eu sou contra o aborto e a favor da vida, por que ser contra o amor e a união de duas pessoas do mesmo sexo que se amam? Respeitar a natureza de cada um, inclusive a própria, não é exaltar a vida?

Candidatos não deveriam discutir isso em suas disputas eleitorais, mesmo porque governante algum conseguirá impor a uma Nação as suas convicções, seus ideais, sua conduta ( conduta?). A não ser que este seja tirano. Além do mais, ninguém irá corrigir (corrigir? quem está errando?) o que acontece desde a criação do mundo.

Sobre política uma coisa é certa: Quem não investir em educação não estará matando apenas os que estão no ventre e querem nascer, embora sem sabermos as qualidades que as crianças terão numa educação futura, mas estará abortando os sonhos do Criador.

Aborto não é matar somente aquele que ainda está sendo gerado, mas é decepar a infância e a juventude, obrigando-as a se enganarem dentro de escolas estéreis que não têm competência de gerar cidadãos, porque a educação foi, há muito, abortada dos projetos de políticos sem compromissos com o agora, tão pouco, com o futuro. "Mas vamos resolver se formos eleitos".

Aborto não é somente impedir que um ser venha ao mundo, mas deixá-lo vir sem que tenha a mínima condição de segurança para sair de dentro de uma cápsula chamada casa e conseguir voltar para ela vivo. "Mas vamos resolver se formos eleitos".

Aborto não é somente interromper uma gravidez por vontade própria, mas também obrigar cidadãos a se submeterem às vontades de um sistema político corrupto, porque este aborta daqueles condições de aprendizado para desenvolverem opiniões e reivindicarem seus direitos com segurança. "Mas vamos resolver se formos eleitos".

Aborto não é pior do que crianças sendo violentadas dentro de casa ou se prostituindo nas ruas para sobreviverem, vindo gerar outras crianças para o sistema evolutivo da espécie. "Mas vamos resolver se formos eleitos"

Aborto não é pior que deixar nossas crianças se drogarem em cada esquina, porque nas campanhas eleitoreiras anteriores todos se preocuparam com isso, com aquilo e tudo mais, mas até agora não fizeram nada para que essa “parada legal” fosse legalmente resolvida, mesmo porque quem está no comando, e mais bem armado, é o traficante e não o policial que morre no exercício da sua função, e deixa nos peitos da mulher o filho que nunca mais o verá retornando para casa. "Mas vamos resolver se formos eleitos".

Aborto não é pior que enganar uma população com vales mensais para que ela volte a ser cidadã, diferenciando-a dos calangos, quando, na verdade, está sendo apenas um objeto fácil de ser manipulado. "Mas vamos resolver se formos eleitos".

Aborto não é pior que uma prisão estupidamente lotada, porque a grande maioria dos que estão ali, é vítima de um sistema que necessita de bandidos para se manter no poder e que a usa e a avilta em palanques para conquistar os nossos votos, cidadãos que carecemos de proteção. "Mas vamos resolver se formos eleitos".

Aborto não é pior do que morar em favelas onde as mínimas condições para se viver com dignidade não imperam, mas onde as balas perdidas fazem vítimas inocentes a todo instante, fazendo rolar morro abaixo sonhos e esperanças acreditados nas urnas. "Mas vamos resolver se formos eleitos".

Aborto não é pior do que ver velhos, homens, mulheres e crianças morrendo nas filas dos hospitais e postos de saúde que não funcionam ou estão lotados. "Mas vamos resolver se formos eleitos".

Aborto não é pior do que ver um povo tendo os seus ideais estuprados todos os dias pelos candidatos a quem confiamos os nossos votos, e ainda nos fazem sofrer pela ingestão de seus gozos sarcásticos exercidos às nossas custas e costas. Mas, se deixarmos, vão continuar nos f. , os eleitos.

Isso não é uma prova de casamento mal feito entre parte de uma Nação com crápulas em quatro, oito anos ou décadas que não nos cabe nem o divórcio?

União entre homossexuais então, não pode? Demagogia sim!?

União feliz e digna onde o que impera é a luta para conseguirem viver juntos um amor limpo e leal, não pode? União de conveniência para enganar eleitor e a sociedade pode!?

Há políticos que, sem escrúpulos, tentam nos engravidar todos os dias com suas mentiras e querem que as geremos. Abortemos as enganações de quem estamos prenhe, para expurgarmos da política futuros fdp.

A Nação agradece e o nosso Criador também, porque sem EDUCAÇÃO, e do jeito que estão as escolas públicas estaduais, não dá para continuar. E os ideais... óóóóóó!!

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Outubro de 2010

OMAR DE OMAR

Omar amarelado, de bronzeado descascado, você, tome cuidado. O mar é bem salgado, se não lavar o seu corpo o sal vai cozinhá-lo.

A onda é uma boca aberta que lhe sorri. Quando você cai nela, ela fecha logo pra te engolir.

Amar o mar, Omar, é muito bom. Mas, nem tanto ao mar, também ao céu e um pouco ao chão.

Terra é uma esfera que gira, gira e está sempre no mesmo lugar, porém de uma inesgotável função. O mar, Omar, tem suas ondas que vão e vem, e quando vêm querem tudo levar. Leva, mas só muda de lugar, porque ainda continua dentro da esfera que está no céu e gira... gira... e está sempre no mesmo lugar.

Gaivotas.

Gaivotas são voadoras, pescadoras, avassaladoras... Omar! Fazem o seu curso, um pouco aqui, outro acolá. Quando estão saciadas ancoram numa pedra para descansar. Ancorado na areia, Omar, você vê tudo passar.

Está na hora do lanche, você sonha com uma lancha para desbravar o mar. O sonho é curto porque o lanche não tem pra saciar a fome. Mas tem uma prancha que finca na areia, se encosta nela para apoiar as costelas.

Você viu uma mina. Um tesouro talvez, ou então um pé de chinela que você pode levar. Mas quando!? Não vai se levantar para ir conquistá-la?

Há vermes na areia. Eles penetram o corpo. Fazem carreiras. São profissionais. Detonam a pele e, vermes dessa natureza não há remédios que os impelem. Cura daqui, aparecem outros ali. Coça e, às vezes, sangra. Coisa estranha, ínfima, invisível. Devora, toma conta das entranhas. Dá bicheira de pé, frieira mesmo. Fede! Do mais, dá mancha branca na pele, principalmente no rosto, desce para o pescoço e assim vai a procura de outros orifícios.

É isso aí! Ficar na praia é uma gostosura. Se bem frequentada torna-se a um ótimo lazer. Mas o que fazer, Omar, Omar?

O mar? Está lá no mesmo lugar, não vai sair nunca. Como tudo pode acontecer, pode ser que venha a secar. Tudo pode acontecer, Omar!

O que nunca, jamais acontecerá são duas ondas virem a se reencontrar.

Se banhou, banhou. Acabou!

Se quiser de novo, pegue outra onda. Sabe? A vida o sonda. E saiba mais, porque o que se sabe de onda é que ela vai e que ela vem, levando para o mar os vermes que a areia tem.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Outubro de 2010

SONHO DE BONECA

A boneca foi apresentada a uma menina muito mimada. A menina mal a olhou e num canto a boneca encostou.

O brinquedo era um encanto. Sabia rir, sabia chorar e trazia um brilho especial no seu olhar. A criança, que mal sabia a própria idade, disse que aquilo era um brinquedo careta e passava o dia inteiro, na frente do espelho, gastando a sua vaidade.

E o tempo passou...passou... e a boneca com tristeza, cantou chorando assim:

“Sou uma boneca, preciso ser usada, e amada... e amada...
Tire-me daqui, desta caixa apertada. Eu sou um brinquedo, não me deixe abandonada.
Por favor... Por favor... Pegue minhas mãos, vamos rodopiar... brincar de escolinha e de cozinhar...

Venha agora! Venha agora! Me tome em seus braços, penteie os meus cabelos e coloque um grande laço.

Viajaremos pra lua, pros mares e pro sol. Te chamarei de Baby, me chamarás de Doll.

O game é muito bom, mas eu sou milenar. Se eu ainda existo é porque sei ensinar... e mexer com a imaginação... Eu sou muito viva, tenho alma e coração.

Quem me inventou não estava brincando. Ele me projetou pra você crescer amando... Eu sou um bebê feito pra sua idade, brincar de boneca é sua realidade. O meu choro é brincadeira, minhas risadas pura verdade.

Brincar de boneca não é tempo perdido. Se brincar comigo não correrá perigo.

Brincadeira divertida não é tempo roubado. Brinque comigo agora, não arrume namorado.

Chame um coleguinha, aquele seu vizinho, ele brinca comigo e você com o carrinho. Com brinquedo pode fazer troca, isso não importa.

Essa brincadeira vai lhe valer a pena. Brincadeira saudável ciência nenhuma condena.”

Não adiantou. A boneca cantou, cantou. Chorou, chorou. E, trancafiada na caixa, continuou.

A menina? Hum... A menina se arrumou. Pôs perfume, salto alto e jeans transado. Foi para o shopping ver vitrines e arrumar namorado.

Ficou... Ficou...

Ficou aborrecida, voltou pra casa e chorou.

Tirou os sapatos apertados, pôs de lado o jeans transado e botou o seu baby-doll . Abriu o armário e avistou a boneca. Com um sorriso largo, aquela boneca encantada, o coração da menina tocou.

Daquela caixa apertada, saiu um anjo da guarda que a menina abraçou e beijou.

Brincaram a noite inteira e ao lado da boneca a menina adormeceu.
No dia seguinte, após uma noite encantada, uma história infantil aconteceu.


Feliz dia das crianças.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Outubro de 2010

INSTRUMENTO DA ESCRITA

Há fases em nosso longo período de vida que de fato passam.
Nomeio esse período – FOLHAS.

Há vidas, que de fato, não percebem o período do fato.
Nomeio esse fato – LETRAS.

Aconteceram fatos em certas vidas, que não eram para determinado período.
Nomeio esses acontecimentos – LÁPIS.

Há vidas, ainda, que apesar de os períodos ter-lhes sidos determinados, não são capazes o suficientes de nomear os acontecimentos.
Determino a essas vidas – BORRACHAS.

Em um determinado período da vida, um lápis encontrou-se com uma folha, e esse fato passou despercebido. De fato, ambos não estavam preparados para o acontecimento.

Não muito depois, o tempo caprichoso que é, permitiu-lhes outros acontecimentos. Outros e outros também.

Nesse período os fatos foram se concretizando e, lápis e folha, com muita inteligência, conseguiram formar letras.

E os períodos foram passando e fatos se concretizando cada vez mais.

Desde então, a inteligência flanelada pelos fatos, brilha sabedoria, e lápis e folha com toda a sua família de letras conseguem formar palavras, registrando-as nas páginas das histórias de vidas que não passam, são folheadas.

Isso é, de fato, um grande acontecimento.

Quem, em todo o seu período de vida, não ouviu uma história, a mais banal que fosse?

Quem, já adulto, não ouviu ou não contou uma história para dormir, a mais carinhosa ou assustadora?

Pois é!
Se com você esses fatos ainda não aconteceram, conte agora uma história, ou durma com essa que lhe contei.
Senão...
Passe a borracha.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Setembro de 2010

AO EXTREMO

Nunca escreva assim
num dia assim
em que o nada
tomou conta de tudo

nunca leia Bilac
... num dia assim

de noite desgrenhada e fria

é uma noite assim

... daqueles dias que demoram passar

com tudo todinho cheio de nada
cheinho de dia e de nada
de noite de dia de nada de nunca assim tão nada de tudo. (19/05/2010)

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

 

Setembro de 2010

UMA FRUTA

Quero uma fruta que me colha no pé,
Com sabor bem azul,
Aroma invisível
E formato de talismã.
Quero uma fruta
Bem fresca e macia
Como a cal do travesseiro
E a força da hortelã.
Que pela manhã bem colorida
Traga-me a vida e se
Alongue durante o dia.
Que não se transvie
E que seja simplesmente como é.
Pode ser alguém cujas vistas
Percorrem ali, bem ali...
Se passar por lá e
tornar-se uma fruta
Colha-me.
Colha-me debaixo da sombra
Da tua navalha
Que te escorre pela casca,
Pelo sumo,
Pelo caldo,
Pelo bagaço,
Pela semente
Que se planta e
Que se nasce para alguém.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

* Rita Lavoyer escreve neste espaço toda semana.

 

Setembro de 2010

A CARTA

Observou através do olho mágico tentando ver quem estava do lado de lá, pois o toc-toc da batida na porta o deixou deveras assustado.

Com o olhar fixo naquele olho, retinha a respiração para que nenhum ruído o denunciasse.
Notou que a maçaneta redonda retinia enquanto girava lentamente, no mesmo instante em que sentia que a porta estava sendo forçada.

De repente, tudo permaneceu silencioso como há alguns minutos, logo ouviu o barulhinho de um papel lentamente sendo passado por debaixo da porta. Percebeu um envelope branco. Inteiramente branco entre os seus chinelinhos entreabertos. E passos do lado de fora correram, deixando para trás os pisados de tamancos batendo nos calcanhares.

O homem agachou-se até o chão fazendo sofrer seus joelhos antigos. Tentou alcançar o envelope e, apertando-o entre os dedos, lentamente o ergueu diante de suas vistas. Deu alguns silenciosos passos e levantou o envelope até uma faixa de luz que atravessava um pequeno vão da janela, tentando ver o que trazia além do volume em seu interior. Com as mãos trêmulas, receava abri-lo. Colocou-o num dos bolsos do seu chambre e inquietou-se a andar em círculos dentro da sala.

Apertava o bolso com uma das palmas podendo sentir o volume do objeto que estava dentro do envelope. Conteve seus passos e fixou-se no mesmo lugar em que parou. Iria abri-lo. Olhou-o apertando entre os dedos das mãos. Abriu-o. Dentro também havia uma carta com local, data e assinatura rabiscada.

Desesperado diante daquelas informações, precipitou-se até o porão da casa e subiu ofegante com a sua caixa de ferramentas nos braços. Pôs tudo sobre a cama e, com o auxílio de um pé de cabra, forçou a madeira que compunha o assoalho do armário embutido do seu quarto, arrancando-a. Após extraí-la, por uma escada em espiral, desceu no calabouço.

Pisava cuidadosamente os degraus, apoiando-se no silêncio que precisava manter. Quando sentiu o piso, tentou lembrar-se da localização do interruptor.

Contou alguns passos naquele escuro, bateu a mão na parede e certificou-se de que seus números ainda se mantinham vivos na memória.

Com a ponta do cinto do seu chambre, limpou as secreções acumuladas nos cantos de seus olhos miúdos. Apertou-os, após mirar a urna que se mantinha com o invólucro intacto, para que voltassem a brilhar. Ela encontrava-se em uma posição difícil e perigosa. Sabia da cautela que deveria ter com os seus passos, pois um só em falso o denunciaria. Não se percebia nada e nem um barulho naquele calabouço, a não ser o sigilo úmido das águas que corriam pelos encanamentos dos esgotos, e que dividiam aquele espaço com aquela urna intacta.

Apostou mais alguns passos firmes e seguros, aproximando-se daquele segredo. O invólucro, já ressecado pelo tempo, possibilitou ser arrancado com as mãos, trazendo junto um fragmento. O ruído do objeto tocando o chão fez a espinha, antiga, sentir um frio cadavérico de enrijecer qualquer flacidez senil. O fantasma de um dia rodeava aquela urna ainda tão incólume.

Forçou um agachar dolorido para apanhá-lo. Gemeu uma dor para colocar-se novamente de pé.

- É uma parte dela. Ah, asinhas de borboleta! Agora posso juntá-las. A chave que precisava será composta agora.

Havia chegado o momento. A consumação do sonho se realizaria com aquelas informações trazidas pela carta.

A emoção de poder abri a urna com a chave que ele montaria, poder vê-la e tocá-la, emitia um tilintar de dentes com dentes da sua dentadura. Um calafrio dominou o corpo do velho que precisou agarrar-se em si mesmo, para controlar os agitos da sua emoção.

Administrava a sua respiração a fim de pôr rédeas nas palpitações que ecoavam nas paredes da sua alma. Ouviu, então, bater várias vezes na mesma porta que fora forçada. O desespero o dominava, mas sabendo que não havia mais tempo, agarrou-se à proteção do seu silêncio. Levantou-se rapidamente para continuar o seu feito.

- Ah, está trancada! As ferramentas?! A chave? A outra parte está dentro do envelope. Ficaram lá em cima, sobre a minha cama. Tenho que ser rápido antes que o tempo expire. Eu a abrirei, vou contar, contarei tudo...

Na sua ansiosa subida, o bico do seu chinelinho de quarto bateu na quina de um degrau da escada e não houve como evitar a queda.

Com a cabeça sangrando, o velho soltou um grito inaudível para o tempo, que se encarregará de informar ao mundo, pelo seu cheiro, aquele segredo.

NOTA - Menção Honrosa no Concuros de Conto "Cidade de Araçatuba" / 2010.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

* Rita Lavoyer escreve neste espaço toda semana.


 

WORKPLACEBULLYING, MOBBING, ASSÉDIO MORAL

 

Isso tudo significa: violências repetitivas no local de trabalho. Para quem já entendeu o que significa bullying, aqui, o processo é o mesmo, isto é, a vítima também é “eleita”.

O assédio moral no trabalho é caracterizado por abusos de conduta de um funcionário, ou grupo, sobre outro através de atitudes que causam danos morais e psicológicos à vitima. Trata-se de humilhação, desonra e exploração do trabalhador, causando-lhe sofrimentos propositais.

A vítima é ‘eleita’ para ser agredida, chantageada e depreciada pelo chefe ou por um grupo de funcionários que o querem subestimar dentro do departamento ou em toda a empresa.

Qualquer funcionário pode ser alvo de bullying no trabalho. Ninguém está a salvo do sistema capitalista de produção, o que põe nas mãos de um chefe despreparado a pretensão de ‘achar’ que pode, através do medo, explorar seus subordinados.

- Vai ter corte! A meta não foi atingida. Não sabemos se o quadro de funcionários será o mesmo amanhã.

Ai, que estresse!

- Amanhã cheguem mais cedo, temos que adiantar e liberar o lote, ainda amanhã. Demoramos a conquistar esse cliente, temos que dispensar-lhe atendimento preferencial. Venha mais bem vestido, amanhã. Hoje, somos a imagem da nossa empresa.

Sorria se você estiver sendo descrito neste texto.

- Esse horário do café é bom, heim! - Ele? Hum... não dura muito. Com aquele tipo desengonçado não agrada o público. - Olha lá o jeito dele, não desgruda do trabalho, não se levanta nem pro café. -Não se junta, o rapaz? - Workaholic, coitado, preciso do emprego. Se permanecer na empresa virará armário de canto.

Oh, grupinho da pesada!

- Terminou o seu trabalho, mas tem outras coisas que pretendo que faça. Vá ao almoxarifado, procure as caixas datadas de 1900, desça-as todas. O cliente precisa, pra hoje , cópia de um documentos daquela época. Pra hoje!

Oh, perseguição!

- Passem os seus cartões, mas voltem para o trabalho. Fiquem só mais um pouquinho. Amanhã, a meta será maior do que a de hoje, que conseguimos atingir raspando. Amanhã queremos esforço dobrado.

Oh, exploração!

São poucos exemplos que citamos para brincar com o texto, mas a realidade em determinados locais de trabalho é essa, sem tirar nem pôr nada!

Note que é repetitivo: “Amanhã vai ser pior que hoje”. Quem é que aguenta, todos os dias, “hoje e amanhã”, um clima de desaforo dessa forma dentro de uma organização? Quem produz com satisfação trabalhando sob pressão, sendo ameaçado se não conseguir isso, se não conseguir aquilo, como se funcionário já não existisse mais humano; mas, máquina.

Uma organização que tem um chefe que trata os que deveriam ser seus companheiros de trabalho com tirania, acaba destruindo equipes, levando profissionais à angústias, depressão, doenças psicossomáticas, quando não, até ao pedido de demissão, talvez esse o objetivo do chefe.

Vejo atitudes de bullying no local de trabalho como um prato de sopa jogado na parede. O macarrão gruda no alvo, mas o caldinho escorre e contamina todos os departamentos, degradando o clima entre os funcionários.

Há três formas de bullying no ambiente de trabalho:

Horizontal – agressões entre os trabalhadores do mesmo nível. Com frequência acontecem entre equipes onde há a competição. Se há um que se destaca mais e a competição impera, o destacado, certamente, será a próxima vítima.

Vertical ascendente - quando o funcionário assediador é menos graduado, isto é, ocupa cargo inferior em relação à sua vítima. Não digo que essa prática seja rara dentro das empresas. Acontece de os funcionários, individualmente ou em grupo, armarem para assediar um chefe. Boicotam a produção para vê-lo perder o cargo.

Vertical descendente - É o mais comum. O assediador exerce um cargo superior e pratica o bullying sobre um funcionário que ocupa um cargo inferior.

Um chefe, ou um grupo (sujeito ativo ou assediador) hostil submete, através de suas tiranias, o funcionário alvo (sujeito passivo ou assediado) a um estado de estresse crônico, levando-o a adoecer, prejudicando o rendimento do seu trabalho, podendo este vir a desenvolver a síndrome do pânico, entre outros prejuízos. Ainda que consiga produzir sob tensão, um funcionário assediado pode produzir uma bomba silenciosa dentro de si inocentemente.

Se a bomba da vítima estoura e o coitado mandar o assediador tomar ‘suco de caju’ , pronto! Certamente será penalizado. Mas ele aguenta, pelo menos tenta, quando pedir demissão não pode. Precisa do emprego. Se percebem que a vítima tem família e precisa daquele salário para sobreviver, tripudia mais ainda sobre ele, até que este peça demissão ou seja demitido por improdutividade.

Em resumo: secada a última gota do caldinho, o bagaço joga-se fora.

Hei, você! No seu contrato de trabalho está escrito que deve praticar condutas abusivas, exercer a tirania? Sabe o que significa ser ‘buleiro’ no local de trabalho?

O agressor, no local de trabalho, é uma pessoa que se sente incomodada. Ele não é o superior, muito pelo contrário, se sente inferiorizado na presença da vítima, por isso a faz alvo sobre a qual descarrega sua insegurança.

Acredite, esse profissional agressor tem problemas sérios, ele é prejuízo certo para uma organização. Quer ter um funcionário ‘buleiro’ na sua empresa?

Ninguém está no mercado de trabalho ou ocupa uma posição profissional por acaso. Um profissional, graduado ou não, deve saber discernir, e muito bem, o certo do errado em suas atitudes. E a “criança” não poderá alegar que estava apenas brincando.

Num ambiente de trabalho onde não há sinergia, não há produção.

Combata o bullying no seu ambiente de trabalho. Divulgue essa ideia.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

* Rita Lavoyer escreve neste espaço toda semana.

 

A ESCURIDÃO

Absorta me vi enquanto vagava
Tortuosos caminhos tateados
Pela sombra da escuridão.
O toque das copas fechadas que eu ouvia
Desviou-me do silêncio
Encanado nos corredores do vento.
Um grito escondido encontrou-me
No medonho escuro da floresta,
Trazendo consigo imagináveis imagens
Que sobre mim um calafrio sopraram.
Um frio!
A escuridão é fria e úmida.
O frio é claro e seco.
A umidade é cínica e concreta.
Queria sair dali, mas não achava a porta.
Tudo era escuro.
A porta era claramente escura.
Impalpável.
Segui adiante, sem instinto.
Atravessei a frente
E cai em mim.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

* Rita Lavoyer escreve neste espaço toda semana.

 

NORMALÓIDES

Quantas escolas perdidas em anos. Quantos anos de escola perdidos. Quantos anos perdidos na escola.
A criança vai à escola para aprender a ler, escrever e, quem sabe, se tornar um bom cidadão. Mas tem coisas na escola que a gente aprende e nunca mais esquece.

Aprendeu a ler, escrever e a decorar. Aprendeu que caju tem vitamina C. Não engorda, combate a gripe e ajuda a crescer.

- Tome vitamina C! Não engorda e ajuda a crescer. Caju! Tome suco de caju! Suco de caju tem vitamina C!

Achou o assunto interessante e o bestunto tratou logo de decorar. Não podia ver ninguém pra baixo, ouvir uma tosse, a mais baixa que fosse, ou um espirro que mandava logo a sua:

-Tome suco de caju! Caju tem vitamina C! Você vai se curar, você vai ver!

Encheu-se como jarra do tal suco e foi à escola. Sentia-se encharcado com a tão grande informação. Era o dia daquela prova e na jarra levou a sua cola.

-Tenha paciência! – ele suspirou indignado. - Prova de Ciências na primeira aula não tem espírito que se acalma!

Mas ele decorou pra valer aquela da vitamina C.

A professora, com muita competência, pegou o giz, e avisou que as respostas da prova seriam respondidas com “X”.

Ela passou pelas fileiras distribuindo as folhas xerocopiadas. Numa das mãos estava o chumaço de provas e o giz. Com a outra, distribuía as folhas de perguntas que esperavam por um certo “X”.

Algumas crianças não conseguem desenhar perfeitamente as letras, deixando algumas palavras quase ilegíveis. Ele era uma delas. Preferia que a prova tivesse aquelas perguntas com linhas embaixo onde ele pudesse escrever as suas respostas. Claro, queria fazer uso da sua letra feia.
Quando ele leu a prova ficou tonto. Atônito! Botou as mãos na cabeça e gritou dentro de si:

-Cadê a vitamina C!? O suco de caju!?

Nesse ínterim a professora deu um espirrinho.

- Vai tomar suco de caju!

A voz do coitado estava tão trêmula que ao som do nervosismo fez soar outra coisa. Aí começou o seu dilema.

Há muito tempo era isso mesmo que a professora queria. Disfarçando o seu cinismo profissional, mandou aquele aluno direto pra diretoria.
A classe toda ria. Balançava a cabeça concordando com aquilo que a líder fazia.

Até provar ao diretor que suco de caju pode ser tomado, tomada de rancor, aquela professora pôs um zero bem redondo na prova daquele garoto indisciplinado.

- Indisciplinado! – ela disse àquele pai quando dela satisfação foi tomar. - Ele é meio anormal. Tem idéias absurdas, não condizem com o que é fundamental. Trate o seu filho. Não podemos discutir questões em que ele próprio decide o que fazer. Como pode? Ele quer ter autonomia. Sujeitinho desse porte não é bem aceito em nenhuma Academia.

A esse personagem inoportuno daremos o nome de aluno.

A lógica se torna ilógica quando burrica fica. Quando o burro fica manso não há pedra que o arriba. Se a birra é pesada como pedra, apedreja-a. Se a pedra pegar na birra e essa ainda mansa não fica, pegue o laço. Se ainda não der jeito, põe camisa de força ou use cabo-de-aço. Se amarrou com mau jeito, hum... Depressa! Enfie agulha debaixo da unha. Não há ativo que não se torne passivo com isso tudo, e o seu todo será jarra para, então, enchê-lo de conhecimento. Logo, conhecendo todas as razões, quaisquer que sejam elas, o burro fica inteligente. Tão inteligente quanto aqueles que o encheram de razões, embora com delicadas rajadas de canhões.
O inteligente é insábio quando amansa burro pra poder ficar por cima. Quem um dia não foi inteligente-insábio que atire a primeira pedra.

Quanta asnaria para falar da alfabetologia.

Contrariada, ela, sempre com o giz na mão, conversando com os braços, fazendo a maior confusão:

- Pra ele não há remédio – gritou bem alto sendo ouvida por todo o prédio. Não se ajusta ao perfil da escola. Por mim o mandaria embora.

E lá se foi o tempo. O tempo passa, uva passa, ferro também mete o cacete e onde passa boi passa boiada todo dia e então, de Ciências à Biologia, que bestiologia! A mesma professora lá na frente ele encontrou, mas nunca se esqueceu que suco de caju tem vitamina C, é bom pra gripe e ajuda a crescer.

Aprendeu a fazer dissertação e a responder com “X”. Continuava com as suas ideias que deixavam os professores de cabelos em pé. Agora já é aluno médio, além do caju aprendeu que vitamina C é um ótimo remédio. Está sempre se deparando com a ‘fessora’ de ‘Biô’ que vive gripando.
Como de uma boa lição tira-se assuntos que não se esquece, de novo, ganhou um zero bem redondo por suas idéias que sempre aborrecem. Pra ele é real; para outros, imoral.
Aí ele mandou de vez ao primeiro espirro que a ‘fessora’ deu.

- Tome vitamina C! Se não tiver chupe um bom caju!

Era alergia. Alergia a giz. A voz dele, aos ouvidos dela, soava como fuzis.

Foi quando passou a conhecer o coordenador daquela escola e, também, os bois de sua classe, com suas cabeças balançando e as bocas babando.

Já estava assimilando que não havia interação entre ele e o mundo daquela diplomada.
Ora, ora! Já compreendia que aquela profissional o via de dentro pra fora, mas ela não ‘o’ assimilava e se irritava.
Ele era o rascunho da história dela.

Já tinha letra de adulto e nas dissertações tirava sempre nota azul. Não que os professores tivessem entendido os textos dele, mas a cor era um pretexto para ficarem longe de qualquer fruta.
Pelo que sim, pelo que não... melhor foi não sair na contramão. Já tinha a sua filosofia:

Não se desgaste, se não quiser, com um profissional qualquer. Guarde do seu recipiente e saia de frente à procura de um outro seu, assim, tão bem diferente.

Existem textos que, por uma questão ou outra, alguém não consegue ler. Por causa das suas histórias aquele aluno vivia por um fio, mas delas não desistia e as aceitou por desafio.

Aquele jovem fez da vitamina C o seu motivo para crescer.

Tomou um bom suco e foi prestar o vestibular.

Já contam 2000 e hoje da era Cristã, e aquele aluno pôs à prova tudo o que guardava em sua mente sã.

A Medicina ensina muita coisa, mas para ser profissional na área precisa muito amor.

Nem todo labor dignifica e faz do homem – doutor.
Nem todo doutor dignifica o labor e faz do homem – rancor.
Nem todo homem dignifica o rancor e faz do doutor – labor.
Não só o labor, mas também o rancor dignificam o homem e fazem dele doutor de qualquer causa.
Se enquanto doutor a sua causa for o homem, dissolver-se-á o rancor, sua causa terá efeito, e eleito será o homem-doutor de dignificado labor.

Oh, sina! A professora de Ciências, a ‘fessora’ de ‘Biô’, aquela danada também era pediatra aposentada.
E não é que ela ensina àquela turminha de Medicina que a vitamina C é fundamental à vida do bebê!?
Num outro dia, a aula foi laboratorial. Uns botaram o avental; outros, a embalagem.

- Credo! - Ele gritou. Aula de cérebro é uma aula cerebral. Será que este cérebro, tão artificial, é igual a um cérebro de animal?

E ele celebrou em pensamento fervilhante:

Não! O animal tem o seu próprio instinto e o homem, estando extinto, torna-se irracional. Enquanto aquele foge para sobreviver, alguns homens vivem para de nada fugir, mas fogem de si mesmos, sem coragem, para dentro de suas próprias embalagens.”

Talvez quisesse levar uma lança no peito. Queria furar os tímpanos dos outros, com os ecos de suas rimas pobres, e achava aquilo bem feito.

Aquele aluno sempre tinha outra alternativa para qualquer assunto, e aquela classe, nada criativa, balançava a cabeça toda vez que a ”sôra “ com ele discutia.

Não deu outra. O dia fatídico chegou e outra vez suco de caju aquela velha ‘sôra’ quase tomou.
Ele pensou bem:

“Já sou quase doutor, farei um receituário. Recomendarei à ela um bom suco de caju.

E lá foi o aviãozinho papel. Letra feia com ‘sora’ cega, foi o maior escarcéu.

Eita, universitário zebrário!
Então ele conheceu o reitor.

Foi quando desistiu daquele curral; enquanto todas as cabeças estavam na vertical, em sobe e desce, concordando com o radical, a dele estava na horizontal em vem-e-vai.

“Tanto burrico querendo ser médico. Será que isso é inédito?” - pensava ele. Mas se corrigia:

“Serão burricos ou burróides? Nem um e nem outro – respondeu-se : são normalóides.”

O mundo, às vezes, não entende o diferente. Às vezes, é indiferente a ele. Mas há pacientes que necessitam de um diferente bem paciente. Um diferente consciente, que vê no paciente não um padecente, mas um ser humano desgastado com o cotidiano e que, embora esteja por um fio, saiba tornar aquele momento digno de ser vivido.

Há alternativas para afirmativas do tipo: NÃO HÁ REMÉDIO. Acredita nisso?

Não só de doença morre o homem.
Não só de bala perdida morre o homem.
Não só de suicídio morre o homem.
Não só de atropelamento morre o homem. Não só!
Também afogado no desconhecimento de si mesmo morre o homem.

Saiu no mundo olhando pro sol. Parou. Pôs a mão no peito, pegou o seu crucifixo e o beijou.
Continuou caminhando com os pés descalços na rua quente de pedra preta.

Queimou, bolhou, resistiu. Sarou-se. Virou artista. Mais um na multidão. Vive a arte que melhor sabe fazer – busca o compreender, imaginando-o e curando-se.

Porque aprendeu que nem só de morte morre o homem.

E que caju faz rima pobre, até formar eco que rompe destino, para alcançar e consolar o c., digo, caju de urubu albino.

Prestenção! Nóis num pode fazê rima aqui, siô!

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

* Rita Lavoyer escreve neste espaço toda semana.

 

FUI ESTUPRADA

Quando ela me chamou para conversarmos, titubeei, pois não esperava pelo chamado. Algumas desculpas eu criei para evitar o encontro, mas ela era insistente.

Não havendo como escapar daqueles convites, fui ao local marcado. Estaria lá apenas para uma conversa, como ela havia me proposto: uma conversa.

Acho que na seleção que ela fez o meu nome era o único,várias vezes repetido, dentro da sacolinha surpresa. Para falar sobre o asunto escolheu-me. Era esse o fato que me intrigava. Por que eu?

Fui muito bem recebida; ela é muito gentil. Acomodou-me em uma poltrona bastante confortável, enquanto que a dela não apresentava as mesmas características. Olhou-me fixamente e abriu um sorriso sincero que mostrava seus dentes brancos combinando com a sua tez morena.

Não demorou muito os nossos cumprimentos e balelas para abrirem o canal da comunicação. Começou a falar sobre o que pretendia, aquilo que ela, erroneamente, pensou que eu gostaria de ouvir.

Não levei papel, caneta e muito menos o meu gravador que sempre carrego na bolsa, mas fui armada com grades no peito, cadeado no pensamento e tampões nos ouvidos.

Falava com tranquilidade e expunha o que pretendia com muita clareza. Não tive dúvidas das inteções dela.

Fechei os olhos e fiquei assistindo às cenas e aos movimentos dos corpos. Não vou relatar aqui o que eu sentia enquanto ouvia. Quando tinha a coragem de abrir os olhos, respirava fundo e me perguntava: por que eu?

Contou-me o seu primeiro caso, o segundo e outras tantas vezes. Aquela polidez toda ao expressar-se comigo sobre um assunto tão delicado foi sendo, aos poucos, substituída por um soluço seguido por um tremor no braço esquerdo. Essa reação "adequada" àquela mulher , aliviou-me, sinceramente.

Aquelas atitudes delicadas, até então apresentadas, foram, rapidamente, dominadas por um surto de histerismo incontrolável. Eu assistia às cenas e aos gritos enquanto ela arrancava suas roupas e, nua, naquela sala de luxúrias e orgias, pude notar cicatrizes profundas nos seus seios, barriga, costas e quadril. E ela gritava o que você pode imaginar.

Diante daquela cena, o homem adentrou o ambiente e, sem mais demora, corri até a cozinha, apanhei uma faca e desferi-lhe golpes mortais. Cortei -o nas juntas e o joguei aos cachorros, os dele.

Eu não fui para a cadeia, ele não foi para o cemitério e a protagonista desta história é protagonista de muitas outras ficções mais bem contadas do que esta. É só olharmos a vida ao nosso redor com um olhar mais observador , que notaremos que muitas histórias são iguais: batem na trave, mas entram, fazendo a galera agitar de emoção, inclusive os cachorros.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

* Rita Lavoyer escreve neste espaço toda semana.

 

Julho de 2010

PAI, VOLTA PRA CASA!

"- Pai, volta para a nossa casa, a mãe está sofrendo. Ela quer lhe pedir perdão. Ela disse que se encontrou com Deus. Além do mais, já está quase chegando o dia dos pais e eu preciso cumprimentá-lo nesta data. Volta pra casa, pai!

Já sou homem e entendo o que assistia. Mas não falava nada, tudo me era conveniente, era jovem e imaturo. Ainda que não a ame mais, não encontre satisfação, volta pra casa pai, vocês fizeram um contrato de comunhão. O senhor não tinha o direito de deixar a mãe.

O que essa outra tem que a mãe não tem? Também sou homem, está nos fazendo passar vergonha. Perdeu o seu juízo, perdeu a sua postura. Volta pra casa! Que palhaçada de dizer que “ainda é homem”, está agindo como um playboy. Olha a idade dessa outra e depois enxergue a sua!

Por que diabos acha que ela o ama? Ainda que ela se declare toda ao senhor, é a minha mãe a sua esposa. Acha que vai se refazer em outros braços? Ela só quer o seu dinheiro! Um homem na sua idade deveria acumular experiências. Já está na idade do mingau, vai acabar comendo bronha.

Pai, volta pra casa! Nós iremos perdoá-lo. Esse amor que diz sentir, não demora vai passar. Essa mulher pode revigorá-lo agora, mas quando adoecer ela irá abandoná-lo, e quem irá limpar o seu traseiro será a minha mãe. Eu sou seu filho, também sou homem e conheço o fogo da paixão. Você já é velho, não tem mais idade para amar. E essa sua nova mulher é coisa do diabo."

"- Meu filho, na sua idade eu diria a mesma coisa. Torceria pela união dos meus pais, mesmo que não fossem felizes. Com a minha experiência, filho, aprendi que amor eterno não existe mesmo. Enquanto eu esperava o “até que a morte os separe” acontecesse, pensava que jamais teria a chance de ser amado com um amor cheio de paixão. Meu filho, essa nova mulher me fez ver o amanhã. Ela reviveu o homem que ainda há em mim, em quem eu já não acreditava mais. Se ela é coisa do diabo, digo-lhe que o diabo também é bom, porque ela, com todo o seu amor, além de me fazer homem, também me remete a Deus. Sou experiente sim, e ela me ama de verdade. O que ela fez eu não sei, mas comecei a viver novamente, meu filho, a partir do momento que me entreguei a ela. Deus está onde há amor. Eu estava ao lado da sua mãe e ela nunca me viu. Diga-lhe que eu a perdoo. Vivemos a sua educação juntos, não vou virar-lhes as costas. Filho, tomara um dia você cresça. E que não demore a enxergar o homem atrás das suas aparências."

-----------------------------------------

Quanto poder as palavras têm? Filho, eis aí o teu pai.

Homem também chora e a dor da saudade brotou no peito deste humanizado. Deixou a sua amada e retornou à antiga casa. Deus age quando O pedem; o diabo, como quer. Mas entre mulher e homem, não devemos meter a colher, quanto mais se esta for de pau.

O homem volta para casa para lustrar as aparências abafando o amor no peito.

Alguns tentam formar novo laço, mas se preocupam demais com a qualidade da fita, esquecendo-se de apertar o nó.

E assim uns caminham; outros, pulam...

Mais vale um pai morto com bumbum lavado pela mãe ou um homem vivo, de cara suja, pelo amor de uma mulher?

Por favor, seja um bom filhinho quando for responder.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

* Rita Lavoyer escreve neste espaço toda semana.

 

 

BATATA PODRES

"Não necessitam de médicos os que estão sãos, mas sim os que estão enfermos.” _ Jesus. (Lucas, 5:31.)

Ouvia muitos adultos dizerem, quando eu era criança, que uma batata estragada dentro de um saco acaba estragando as boas.

Como eu não consigo me safar dos meus afãs, a batata insistiu em fritar na minha cabeça. Não havia como eu me acalmar diante de tantas batatas que me consumiram em um determinado momento. Recorri à geladeira. Sabe aquele dia que não encontramos nada na geladeira, nem uma batata? Pois é. Foi assim mesmo. Eu não tinha uma batata para acalmar a minha angústia. Fui ao mercado, daquele do tipo 'super', a procura de uma batata que me mostrasse o que eu precisava entender.

Na banca, as mais belas e brilhantes saltavam aos meus olhos suplicando: “leve-me, consuma-me, nasci para isso.” Cada uma pedia por si. Pois é, não eram essas consumíveis que eu queria. Mexi, derrubei, catei, e gostei de ver algumas caindo e se machucando no chão.

- A senhora precisa de ajuda? – Perguntou-me educadamente, porém assustado, um funcionário daquele setor.

- Preciso de uma batata podre, pode me ajudar a achar uma? – Respondi de súbito.

O olhar estranho do rapaz sobre mim mostrava o que realmente uma batata podre representa a alguém.

- Senhora, as batatas podres não vêm para a banca, nós as jogamos fora. Não expomos batatas podres. Ninguém procura batata podre, principalmente para comprar.

- Eu estou a procura de uma, moço, pode me ajudar?
- Se tiver alguma por aqui, vai estar bem lá em baixo.

Primeiro passo da minha teoria: As batatas vistosas ficam sempre por cima. Heureca primária.
Segundo passo: Conforme vamos selecionando as mais vistosas, as rejeitadas vão descendo para aguentar o peso das saudáveis.

- Moço, eu quero e vou achar uma batata estragada aqui.

Fui ensacando as batatas boas para sobrar espaço à minha investida, afinal louco existe para alguma coisa. Achei! Não uma, mas várias batatas com uma parte dela escurecida.

- Moço, achei várias batatas começando a estragar...

- A senhora vai comprá-las?

Uma pergunta tão simples me atingiu sem que eu esperasse. Por que eu compraria batatas que já estavam começando a estragar seu eu tenho à minha frente batatas vistosas?

- Mas se elas não estivessem lá em baixo, certamente não estariam nesse estado e já teriam sido consumidas...- Tentei explicar.

- A senhora não tem o que fazer? Observe o tamanho da banca! Desde quando batatas são vendidas, são expostas umas sobre as outras.

Percebi que o tempo do funcionário era curto e a teoria que eu ainda não tinha defendido não funcionaria ali. Separei as batatas machucadas e devolvi as ensacadas no seu lugar, afinal pessoas queriam pegá-las.

Terceiro passo: Se o pedaço estragado for cortado, poderei consumir o pedaço que ainda está bom; mas para consumi-lo terei que comprar a batata pagando pelo valor inteiro dela, boa ou não.

Quarto passo: Fui observar por que a batata estava estragada naquela parte. Notei que dentro de todas as partes estragadas havia um corte onde acumula o fungo que prolifera e acaba por estragá-la por inteira, caso a sua outra metade boa não seja aproveitada.

- A senhora não tem dinheiro, quer que eu peça ao gerente dar essas batatas estragadas pra senhora?

Fui tentada a aceitar, mas como não sou perfeita...

- Não, moço, muito obrigada! Passarei no caixa e pagarei pelo preço que estão pedindo por elas. Ainda há muito nelas que eu posso aproveitar.

Naquele dia a minha geladeira ficou cheia até o horário do jantar, quando eu fiz uma fritada de batatas, todos da minha família comemos, saboreamos e sobrevivemos até para contar a história.

Ah, só para encerrar, quero dizer que pode haver alguns enganos sobre teorias de batatas podres dentro de um saco. Será que os ferimentos que elas trazem no interior de suas podridões foram feitos por elas mesmas no momento em que foram colhidas?
Na dúvida, deixemos as bocas dos sacos abertas, nenhuma ferida é curada no abafamento, todos precisamos respirar.

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

* Rita Lavoyer escreve neste espaço toda semana.

 

QUERO DANÇAR UMA MÚSICA CONTIGO

A música suavemente toca os meus sentidos e eu me sinto conduzida pelo teu ímã.

O polo de atração das tuas notas me envolve e eu posso sentir os teus toques, as tuas mãos, os teus afagos que me tocam e me imantam, para que eu gire em rodopios ao compasso da tua batuta.

Quero dançar uma musica contigo. Como quero!

Se me vieres, como que cavalgando, e me tirares para a dança, nossos corpos levemente bailarão num salão iluminado pelas cores da aurora. Isto agrada-me muito.

Quero tocar-te quando, com ritmos ardentes, cingires minha cintura.
Não te alcanço nos bailados. Cada passo teu, marcado no meu piso, ecoa teu cheiro, teu gosto, teu gesto. Entre eles deliro, pois.

Quero dançar uma música contigo. Como quero!

Coloco-me sobre o espelho e bailo até que se finde a leitura das nossas cordas. Terminado o teu acorde, acordo e dou-me corda novamente, e fico a bailar, até que se feche esta caixa de desejos que sinto de dançar uma música contigo. Como quero!

Estarei na vitrine expondo a minha dança, até que alguém me compre e te presenteie comigo. Quando me abrires, penetres meus volteios. Bailemos sobre a superfície do vidro, e se da tua valsa eu estiver embriagada, como no relâmpago de um sequestro, esconda-me no compartimento das minhas jóias. Refugia-te no lago da minha aliança, para que o teu cisne regozije-se da umidade do meu palco.

Se a platéia, gritando blasfêmias, separar-nos antes que se finde a melodia, fecha a cortina do nosso espetáculo, volta aos braços dela, altera os teus passos, tua cadência, teu som. Comemora com ela a tua apoteose.

A cores se apagarão, o compartimento se escurecerá e, no crepúsculo, os flashes se acenderão sobre o desejo cicatrizado da bailarina que dançou delírios e continua exposta na vitrine, esperando que outros me comprem e te presenteie comigo, para eu dançar uma música contigo. - por Rita Lavoyer

Rita Lavoyer é escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

* Rita Lavoyer escreve neste espaço toda semana.

 

Coordenação: Prof. Pedro César Alves, Araçatuba/SP.

 

*

ABRAÇOS!

 

 




restaurante recife

 

"Quem não lê não pensa,

E quem não pensa será para sempre um servo."

 

ESTOU MUITO FELIZ!

 

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* FUI ESTUPRADA

* PAI, VOLTA PRA CASA!

* BATATAS PODRES

* QUERO DANÇAR UMA MÚSCIA CONTIGO