Setembro de 2010
WORKPLACEBULLYING,
MOBBING, ASSÉDIO MORAL
Isso tudo significa: violências
repetitivas no local de trabalho. Para quem já entendeu o que
significa bullying, aqui, o processo é o mesmo, isto é,
a vítima também é “eleita”.
O assédio moral no trabalho
é caracterizado por abusos de conduta de um funcionário,
ou grupo, sobre outro através de atitudes que causam danos morais
e psicológicos à vitima. Trata-se de humilhação,
desonra e exploração do trabalhador, causando-lhe sofrimentos
propositais.
A vítima é ‘eleita’
para ser agredida, chantageada e depreciada pelo chefe ou por um grupo
de funcionários que o querem subestimar dentro do departamento
ou em toda a empresa.
Qualquer funcionário pode
ser alvo de bullying no trabalho. Ninguém está a salvo
do sistema capitalista de produção, o que põe nas
mãos de um chefe despreparado a pretensão de ‘achar’
que pode, através do medo, explorar seus subordinados.
- Vai ter corte! A meta não
foi atingida. Não sabemos se o quadro de funcionários
será o mesmo amanhã.
Ai, que estresse!
- Amanhã cheguem mais
cedo, temos que adiantar e liberar o lote, ainda amanhã. Demoramos
a conquistar esse cliente, temos que dispensar-lhe atendimento preferencial.
Venha mais bem vestido, amanhã. Hoje, somos a imagem da nossa
empresa.
Sorria se você estiver
sendo descrito neste texto.
- Esse horário do café
é bom, heim! - Ele? Hum... não dura muito. Com aquele
tipo desengonçado não agrada o público. - Olha
lá o jeito dele, não desgruda do trabalho, não
se levanta nem pro café. -Não se junta, o rapaz? - Workaholic,
coitado, preciso do emprego. Se permanecer na empresa virará
armário de canto.
Oh, grupinho da pesada!
- Terminou o seu trabalho, mas
tem outras coisas que pretendo que faça. Vá ao almoxarifado,
procure as caixas datadas de 1900, desça-as todas. O cliente
precisa, pra hoje , cópia de um documentos daquela época.
Pra hoje!
Oh, perseguição!
- Passem os seus cartões,
mas voltem para o trabalho. Fiquem só mais um pouquinho. Amanhã,
a meta será maior do que a de hoje, que conseguimos atingir raspando.
Amanhã queremos esforço dobrado.
Oh, exploração!
São poucos exemplos que
citamos para brincar com o texto, mas a realidade em determinados locais
de trabalho é essa, sem tirar nem pôr nada!
Note que é repetitivo:
“Amanhã vai ser pior que hoje”. Quem é que
aguenta, todos os dias, “hoje e amanhã”, um clima
de desaforo dessa forma dentro de uma organização? Quem
produz com satisfação trabalhando sob pressão,
sendo ameaçado se não conseguir isso, se não conseguir
aquilo, como se funcionário já não existisse mais
humano; mas, máquina.
Uma organização
que tem um chefe que trata os que deveriam ser seus companheiros de
trabalho com tirania, acaba destruindo equipes, levando profissionais
à angústias, depressão, doenças psicossomáticas,
quando não, até ao pedido de demissão, talvez esse
o objetivo do chefe.
Vejo atitudes de bullying no
local de trabalho como um prato de sopa jogado na parede. O macarrão
gruda no alvo, mas o caldinho escorre e contamina todos os departamentos,
degradando o clima entre os funcionários.
Há três formas de
bullying no ambiente de trabalho:
Horizontal – agressões
entre os trabalhadores do mesmo nível. Com frequência acontecem
entre equipes onde há a competição. Se há
um que se destaca mais e a competição impera, o destacado,
certamente, será a próxima vítima.
Vertical ascendente - quando o funcionário
assediador é menos graduado, isto é, ocupa cargo inferior
em relação à sua vítima. Não digo
que essa prática seja rara dentro das empresas. Acontece de os
funcionários, individualmente ou em grupo, armarem para assediar
um chefe. Boicotam a produção para vê-lo perder
o cargo.
Vertical descendente - É o
mais comum. O assediador exerce um cargo superior e pratica o bullying
sobre um funcionário que ocupa um cargo inferior.
Um chefe, ou um grupo (sujeito
ativo ou assediador) hostil submete, através de suas tiranias,
o funcionário alvo (sujeito passivo ou assediado) a um estado
de estresse crônico, levando-o a adoecer, prejudicando o rendimento
do seu trabalho, podendo este vir a desenvolver a síndrome do
pânico, entre outros prejuízos. Ainda que consiga produzir
sob tensão, um funcionário assediado pode produzir uma
bomba silenciosa dentro de si inocentemente.
Se a bomba da vítima estoura
e o coitado mandar o assediador tomar ‘suco de caju’ , pronto!
Certamente será penalizado. Mas ele aguenta, pelo menos tenta,
quando pedir demissão não pode. Precisa do emprego. Se
percebem que a vítima tem família e precisa daquele salário
para sobreviver, tripudia mais ainda sobre ele, até que este
peça demissão ou seja demitido por improdutividade.
Em resumo: secada a última
gota do caldinho, o bagaço joga-se fora.
Hei, você! No seu contrato
de trabalho está escrito que deve praticar condutas abusivas,
exercer a tirania? Sabe o que significa ser ‘buleiro’ no
local de trabalho?
O agressor, no local de trabalho,
é uma pessoa que se sente incomodada. Ele não é
o superior, muito pelo contrário, se sente inferiorizado na presença
da vítima, por isso a faz alvo sobre a qual descarrega sua insegurança.
Acredite, esse profissional agressor
tem problemas sérios, ele é prejuízo certo para
uma organização. Quer ter um funcionário ‘buleiro’
na sua empresa?
Ninguém está no
mercado de trabalho ou ocupa uma posição profissional
por acaso. Um profissional, graduado ou não, deve saber discernir,
e muito bem, o certo do errado em suas atitudes. E a “criança”
não poderá alegar que estava apenas brincando.
Num ambiente de trabalho onde
não há sinergia, não há produção.
Combata o bullying no seu ambiente
de trabalho. Divulgue essa ideia.
Rita Lavoyer é
escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense
de Letras.
* Rita
Lavoyer escreve neste espaço toda semana.
A ESCURIDÃO
Absorta me vi enquanto vagava
Tortuosos caminhos tateados
Pela sombra da escuridão.
O toque das copas fechadas que eu ouvia
Desviou-me do silêncio
Encanado nos corredores do vento.
Um grito escondido encontrou-me
No medonho escuro da floresta,
Trazendo consigo imagináveis imagens
Que sobre mim um calafrio sopraram.
Um frio!
A escuridão é fria e úmida.
O frio é claro e seco.
A umidade é cínica e concreta.
Queria sair dali, mas não achava a porta.
Tudo era escuro.
A porta era claramente escura.
Impalpável.
Segui adiante, sem instinto.
Atravessei a frente
E cai em mim.
Rita Lavoyer é
escritora e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense
de Letras.
* Rita
Lavoyer escreve neste espaço toda semana.
NORMALÓIDES
Quantas
escolas perdidas em anos. Quantos anos de escola
perdidos. Quantos anos perdidos na escola.
A criança vai à escola para aprender
a ler, escrever e, quem sabe, se tornar um bom cidadão. Mas tem
coisas na escola que a gente aprende e nunca mais esquece.
Aprendeu a ler, escrever e a
decorar. Aprendeu que caju tem vitamina C. Não engorda, combate
a gripe e ajuda a crescer.
- Tome vitamina C! Não
engorda e ajuda a crescer. Caju! Tome suco de caju! Suco de caju tem
vitamina C!
Achou o assunto interessante
e o bestunto tratou logo de decorar. Não podia ver ninguém
pra baixo, ouvir uma tosse, a mais baixa que fosse, ou um espirro que
mandava logo a sua:
-Tome suco de caju! Caju tem
vitamina C! Você vai se curar, você vai ver!
Encheu-se como jarra do tal suco
e foi à escola. Sentia-se encharcado com a tão grande
informação. Era o dia daquela prova e na jarra levou a
sua cola.
-Tenha paciência! –
ele suspirou indignado. - Prova de Ciências na primeira aula não
tem espírito que se acalma!
Mas ele decorou pra valer aquela
da vitamina C.
A professora, com muita competência,
pegou o giz, e avisou que as respostas da prova seriam respondidas com
“X”.
Ela passou pelas fileiras distribuindo
as folhas xerocopiadas. Numa das mãos estava o chumaço
de provas e o giz. Com a outra, distribuía as folhas de perguntas
que esperavam por um certo “X”.
Algumas crianças não
conseguem desenhar perfeitamente as letras, deixando algumas palavras
quase ilegíveis. Ele era uma delas. Preferia que a prova tivesse
aquelas perguntas com linhas embaixo onde ele pudesse escrever as suas
respostas. Claro, queria fazer uso da sua letra feia.
Quando ele leu a prova ficou tonto. Atônito!
Botou as mãos na cabeça e gritou dentro de si:
-Cadê a vitamina C!? O
suco de caju!?
Nesse ínterim a professora
deu um espirrinho.
- Vai tomar suco de caju!
A voz do coitado estava tão
trêmula que ao som do nervosismo fez soar outra coisa. Aí
começou o seu dilema.
Há muito tempo era isso
mesmo que a professora queria. Disfarçando o seu cinismo profissional,
mandou aquele aluno direto pra diretoria.
A classe toda ria. Balançava a cabeça
concordando com aquilo que a líder fazia.
Até provar ao diretor
que suco de caju pode ser tomado, tomada de rancor, aquela professora
pôs um zero bem redondo na prova daquele garoto indisciplinado.
- Indisciplinado! – ela
disse àquele pai quando dela satisfação foi tomar.
- Ele é meio anormal. Tem idéias absurdas, não
condizem com o que é fundamental. Trate o seu filho. Não
podemos discutir questões em que ele próprio decide o
que fazer. Como pode? Ele quer ter autonomia. Sujeitinho desse porte
não é bem aceito em nenhuma Academia.
A esse personagem inoportuno
daremos o nome de aluno.
A lógica se torna ilógica
quando burrica fica. Quando o burro fica manso não há
pedra que o arriba. Se a birra é pesada como pedra, apedreja-a.
Se a pedra pegar na birra e essa ainda mansa não fica, pegue
o laço. Se ainda não der jeito, põe camisa de força
ou use cabo-de-aço. Se amarrou com mau jeito, hum... Depressa!
Enfie agulha debaixo da unha. Não há ativo que não
se torne passivo com isso tudo, e o seu todo será jarra para,
então, enchê-lo de conhecimento. Logo, conhecendo todas
as razões, quaisquer que sejam elas, o burro fica inteligente.
Tão inteligente quanto aqueles que o encheram de razões,
embora com delicadas rajadas de canhões.
O inteligente é insábio quando amansa
burro pra poder ficar por cima. Quem um dia não foi inteligente-insábio
que atire a primeira pedra.
Quanta asnaria para falar da
alfabetologia.
Contrariada, ela, sempre com
o giz na mão, conversando com os braços, fazendo a maior
confusão:
- Pra ele não há
remédio – gritou bem alto sendo ouvida por todo o prédio.
Não se ajusta ao perfil da escola. Por mim o mandaria embora.
E lá se foi o tempo. O
tempo passa, uva passa, ferro também mete o cacete e onde passa
boi passa boiada todo dia e então, de Ciências à
Biologia, que bestiologia! A mesma professora lá na frente ele
encontrou, mas nunca se esqueceu que suco de caju tem vitamina C, é
bom pra gripe e ajuda a crescer.
Aprendeu a fazer dissertação
e a responder com “X”. Continuava com as suas ideias que
deixavam os professores de cabelos em pé. Agora já é
aluno médio, além do caju aprendeu que vitamina C é
um ótimo remédio. Está sempre se deparando com
a ‘fessora’ de ‘Biô’ que vive gripando.
Como de uma boa lição tira-se assuntos
que não se esquece, de novo, ganhou um zero bem redondo por suas
idéias que sempre aborrecem. Pra ele é real; para outros,
imoral.
Aí ele mandou de vez ao primeiro espirro que a ‘fessora’
deu.
- Tome vitamina C! Se não
tiver chupe um bom caju!
Era alergia. Alergia a giz. A
voz dele, aos ouvidos dela, soava como fuzis.
Foi quando passou a conhecer
o coordenador daquela escola e, também, os bois de sua classe,
com suas cabeças balançando e as bocas babando.
Já estava assimilando
que não havia interação entre ele e o mundo daquela
diplomada.
Ora, ora! Já compreendia que aquela profissional
o via de dentro pra fora, mas ela não ‘o’ assimilava
e se irritava.
Ele era o rascunho da história dela.
Já tinha letra de adulto
e nas dissertações tirava sempre nota azul. Não
que os professores tivessem entendido os textos dele, mas a cor era
um pretexto para ficarem longe de qualquer fruta.
Pelo que sim, pelo que não... melhor foi
não sair na contramão. Já tinha a sua filosofia:
“Não
se desgaste, se não quiser, com um profissional qualquer. Guarde
do seu recipiente e saia de frente à procura de um outro seu,
assim, tão bem diferente.”
Existem textos que, por uma questão
ou outra, alguém não consegue ler. Por causa das suas
histórias aquele aluno vivia por um fio, mas delas não
desistia e as aceitou por desafio.
Aquele jovem fez da vitamina
C o seu motivo para crescer.
Tomou um bom suco e foi prestar
o vestibular.
Já contam 2000 e hoje
da era Cristã, e aquele aluno pôs à prova tudo o
que guardava em sua mente sã.
A Medicina ensina muita coisa,
mas para ser profissional na área precisa muito amor.
Nem todo labor dignifica e faz
do homem – doutor.
Nem todo doutor dignifica o labor e faz do homem
– rancor.
Nem todo homem dignifica o rancor e faz do doutor
– labor.
Não só o labor, mas também
o rancor dignificam o homem e fazem dele doutor de qualquer causa.
Se enquanto doutor a sua causa for o homem, dissolver-se-á
o rancor, sua causa terá efeito, e eleito será o homem-doutor
de dignificado labor.
Oh, sina! A professora de Ciências,
a ‘fessora’ de ‘Biô’, aquela danada também
era pediatra aposentada.
E não é que ela ensina àquela
turminha de Medicina que a vitamina C é fundamental à
vida do bebê!?
Num outro dia, a aula foi laboratorial. Uns botaram
o avental; outros, a embalagem.
- Credo! - Ele gritou. Aula de
cérebro é uma aula cerebral. Será que este cérebro,
tão artificial, é igual a um cérebro de animal?
E ele celebrou em pensamento
fervilhante:
“Não!
O animal tem o seu próprio instinto e o homem, estando extinto,
torna-se irracional. Enquanto aquele foge para sobreviver, alguns homens
vivem para de nada fugir, mas fogem de si mesmos, sem coragem, para
dentro de suas próprias embalagens.”
Talvez quisesse levar uma lança
no peito. Queria furar os tímpanos dos outros, com os ecos de
suas rimas pobres, e achava aquilo bem feito.
Aquele aluno sempre tinha outra
alternativa para qualquer assunto, e aquela classe, nada criativa, balançava
a cabeça toda vez que a ”sôra “ com ele discutia.
Não deu outra. O dia fatídico
chegou e outra vez suco de caju aquela velha ‘sôra’
quase tomou.
Ele pensou bem:
“Já
sou quase doutor, farei um receituário. Recomendarei à
ela um bom suco de caju.”
E lá foi o aviãozinho
papel. Letra feia com ‘sora’ cega, foi o maior escarcéu.
Eita, universitário zebrário!
Então ele conheceu o reitor.
Foi quando desistiu daquele curral;
enquanto todas as cabeças estavam na vertical, em sobe e desce,
concordando com o radical, a dele estava na horizontal em vem-e-vai.
“Tanto burrico querendo
ser médico. Será que isso é inédito?”
- pensava ele. Mas se corrigia:
“Serão burricos
ou burróides? Nem um e nem outro – respondeu-se : são
normalóides.”
O mundo, às vezes, não
entende o diferente. Às vezes, é indiferente a ele. Mas
há pacientes que necessitam de um diferente bem paciente. Um
diferente consciente, que vê no paciente não um padecente,
mas um ser humano desgastado com o cotidiano e que, embora esteja por
um fio, saiba tornar aquele momento digno de ser vivido.
Há alternativas para afirmativas
do tipo: NÃO HÁ REMÉDIO. Acredita nisso?
Não só de doença
morre o homem.
Não só de bala perdida morre o homem.
Não só de suicídio morre
o homem.
Não só de atropelamento morre o
homem. Não só!
Também afogado no desconhecimento de si
mesmo morre o homem.
Saiu no mundo olhando pro sol.
Parou. Pôs a mão no peito, pegou o seu crucifixo e o beijou.
Continuou caminhando com os pés descalços
na rua quente de pedra preta.
Queimou, bolhou, resistiu. Sarou-se.
Virou artista. Mais um na multidão. Vive a arte que melhor sabe
fazer – busca o compreender, imaginando-o e curando-se.
Porque aprendeu que nem só
de morte morre o homem.
E que caju faz rima pobre, até
formar eco que rompe destino, para alcançar e consolar o c.,
digo, caju de urubu albino.
Prestenção! Nóis
num pode fazê rima aqui, siô!
Rita Lavoyer é escritora e membro
do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.
* Rita
Lavoyer escreve neste espaço toda semana.
FUI ESTUPRADA
Quando ela me chamou para conversarmos,
titubeei, pois não esperava pelo chamado. Algumas desculpas eu
criei para evitar o encontro, mas ela era insistente.
Não havendo como escapar
daqueles convites, fui ao local marcado. Estaria lá apenas para
uma conversa, como ela havia me proposto: uma conversa.
Acho que na seleção
que ela fez o meu nome era o único,várias vezes repetido,
dentro da sacolinha surpresa. Para falar sobre o asunto escolheu-me.
Era esse o fato que me intrigava. Por que eu?
Fui muito bem recebida; ela
é muito gentil. Acomodou-me em uma poltrona bastante confortável,
enquanto que a dela não apresentava as mesmas características.
Olhou-me fixamente e abriu um sorriso sincero que mostrava seus dentes
brancos combinando com a sua tez morena.
Não demorou muito os
nossos cumprimentos e balelas para abrirem o canal da comunicação.
Começou a falar sobre o que pretendia, aquilo que ela, erroneamente,
pensou que eu gostaria de ouvir.
Não levei papel, caneta
e muito menos o meu gravador que sempre carrego na bolsa, mas fui armada
com grades no peito, cadeado no pensamento e tampões nos ouvidos.
Falava com tranquilidade e expunha
o que pretendia com muita clareza. Não tive dúvidas das
inteções dela.
Fechei os olhos e fiquei assistindo
às cenas e aos movimentos dos corpos. Não vou relatar
aqui o que eu sentia enquanto ouvia. Quando tinha a coragem de abrir
os olhos, respirava fundo e me perguntava: por que eu?
Contou-me o seu primeiro caso,
o segundo e outras tantas vezes. Aquela polidez toda ao expressar-se
comigo sobre um assunto tão delicado foi sendo, aos poucos, substituída
por um soluço seguido por um tremor no braço esquerdo.
Essa reação "adequada" àquela mulher
, aliviou-me, sinceramente.
Aquelas atitudes delicadas,
até então apresentadas, foram, rapidamente, dominadas
por um surto de histerismo incontrolável. Eu assistia às
cenas e aos gritos enquanto ela arrancava suas roupas e, nua, naquela
sala de luxúrias e orgias, pude notar cicatrizes profundas nos
seus seios, barriga, costas e quadril. E ela gritava o que você
pode imaginar.
Diante daquela cena, o homem
adentrou o ambiente e, sem mais demora, corri até a cozinha,
apanhei uma faca e desferi-lhe golpes mortais. Cortei -o nas juntas
e o joguei aos cachorros, os dele.
Eu não fui para a cadeia,
ele não foi para o cemitério e a protagonista desta história
é protagonista de muitas outras ficções mais bem
contadas do que esta. É só olharmos a vida ao nosso redor
com um olhar mais observador , que notaremos que muitas histórias
são iguais: batem na trave, mas entram, fazendo a galera agitar
de emoção, inclusive os cachorros.
Rita Lavoyer é escritora e membro
do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.
* Rita
Lavoyer escreve neste espaço toda semana.
Julho de 2010
PAI, VOLTA PRA
CASA!
"- Pai, volta para a nossa
casa, a mãe está sofrendo. Ela quer lhe pedir perdão.
Ela disse que se encontrou com Deus. Além do mais, já
está quase chegando o dia dos pais e eu preciso cumprimentá-lo
nesta data. Volta pra casa, pai!
Já sou homem e entendo
o que assistia. Mas não falava nada, tudo me era conveniente,
era jovem e imaturo. Ainda que não a ame mais, não encontre
satisfação, volta pra casa pai, vocês fizeram um
contrato de comunhão. O senhor não tinha o direito de
deixar a mãe.
O que essa outra tem que a mãe
não tem? Também sou homem, está nos fazendo passar
vergonha. Perdeu o seu juízo, perdeu a sua postura. Volta pra
casa! Que palhaçada de dizer que “ainda é homem”,
está agindo como um playboy. Olha a idade dessa outra e depois
enxergue a sua!
Por que diabos acha que ela o
ama? Ainda que ela se declare toda ao senhor, é a minha mãe
a sua esposa. Acha que vai se refazer em outros braços? Ela só
quer o seu dinheiro! Um homem na sua idade deveria acumular experiências.
Já está na idade do mingau, vai acabar comendo bronha.
Pai, volta pra casa! Nós
iremos perdoá-lo. Esse amor que diz sentir, não demora
vai passar. Essa mulher pode revigorá-lo agora, mas quando adoecer
ela irá abandoná-lo, e quem irá limpar o seu traseiro
será a minha mãe. Eu sou seu filho, também sou
homem e conheço o fogo da paixão. Você já
é velho, não tem mais idade para amar. E essa sua nova
mulher é coisa do diabo."
"- Meu filho, na sua idade
eu diria a mesma coisa. Torceria pela união dos meus pais, mesmo
que não fossem felizes. Com a minha experiência, filho,
aprendi que amor eterno não existe mesmo. Enquanto eu esperava
o “até que a morte os separe” acontecesse, pensava
que jamais teria a chance de ser amado com um amor cheio de paixão.
Meu filho, essa nova mulher me fez ver o amanhã. Ela reviveu
o homem que ainda há em mim, em quem eu já não
acreditava mais. Se ela é coisa do diabo, digo-lhe que o diabo
também é bom, porque ela, com todo o seu amor, além
de me fazer homem, também me remete a Deus. Sou experiente sim,
e ela me ama de verdade. O que ela fez eu não sei, mas comecei
a viver novamente, meu filho, a partir do momento que me entreguei a
ela. Deus está onde há amor. Eu estava ao lado da sua
mãe e ela nunca me viu. Diga-lhe que eu a perdoo. Vivemos a sua
educação juntos, não vou virar-lhes as costas.
Filho, tomara um dia você cresça. E que não demore
a enxergar o homem atrás das suas aparências."
-----------------------------------------
Quanto poder as palavras têm?
Filho, eis aí o teu pai.
Homem também chora e a
dor da saudade brotou no peito deste humanizado. Deixou a sua amada
e retornou à antiga casa. Deus age quando O pedem; o diabo, como
quer. Mas entre mulher e homem, não devemos meter a colher, quanto
mais se esta for de pau.
O homem volta para casa para
lustrar as aparências abafando o amor no peito.
Alguns tentam formar novo laço,
mas se preocupam demais com a qualidade da fita, esquecendo-se de apertar
o nó.
E assim uns caminham; outros,
pulam...
Mais vale um pai morto com bumbum
lavado pela mãe ou um homem vivo, de cara suja, pelo amor de
uma mulher?
Por favor, seja um bom filhinho
quando for responder.
Rita Lavoyer é escritora e membro
do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.
* Rita
Lavoyer escreve neste espaço toda semana.
BATATA PODRES
"Não necessitam de
médicos os que estão sãos, mas sim os que estão
enfermos.” _ Jesus. (Lucas, 5:31.)
Ouvia muitos adultos dizerem,
quando eu era criança, que uma batata estragada dentro de um
saco acaba estragando as boas.
Como eu não consigo me
safar dos meus afãs, a batata insistiu em fritar na minha cabeça.
Não havia como eu me acalmar diante de tantas batatas que me
consumiram em um determinado momento. Recorri à geladeira. Sabe
aquele dia que não encontramos nada na geladeira, nem uma batata?
Pois é. Foi assim mesmo. Eu não tinha uma batata para
acalmar a minha angústia. Fui ao mercado, daquele do tipo 'super',
a procura de uma batata que me mostrasse o que eu precisava entender.
Na banca, as mais belas e brilhantes
saltavam aos meus olhos suplicando: “leve-me, consuma-me, nasci
para isso.” Cada uma pedia por si. Pois é, não eram
essas consumíveis que eu queria. Mexi, derrubei, catei, e gostei
de ver algumas caindo e se machucando no chão.
- A senhora precisa de ajuda?
– Perguntou-me educadamente, porém assustado, um funcionário
daquele setor.
- Preciso de uma batata podre,
pode me ajudar a achar uma? – Respondi de súbito.
O olhar estranho do rapaz sobre
mim mostrava o que realmente uma batata podre representa a alguém.
- Senhora, as batatas podres
não vêm para a banca, nós as jogamos fora. Não
expomos batatas podres. Ninguém procura batata podre, principalmente
para comprar.
- Eu estou a procura de uma,
moço, pode me ajudar?
- Se tiver alguma por aqui, vai estar bem lá
em baixo.
Primeiro passo da minha teoria:
As batatas vistosas ficam sempre por cima. Heureca primária.
Segundo passo: Conforme vamos selecionando as
mais vistosas, as rejeitadas vão descendo para aguentar o peso
das saudáveis.
- Moço, eu quero e vou
achar uma batata estragada aqui.
Fui ensacando as batatas boas
para sobrar espaço à minha investida, afinal louco existe
para alguma coisa. Achei! Não uma, mas várias batatas
com uma parte dela escurecida.
- Moço, achei várias
batatas começando a estragar...
- A senhora vai comprá-las?
Uma pergunta tão simples
me atingiu sem que eu esperasse. Por que eu compraria batatas que já
estavam começando a estragar seu eu tenho à minha frente
batatas vistosas?
- Mas se elas não estivessem
lá em baixo, certamente não estariam nesse estado e já
teriam sido consumidas...- Tentei explicar.
- A senhora não tem o
que fazer? Observe o tamanho da banca! Desde quando batatas são
vendidas, são expostas umas sobre as outras.
Percebi que o tempo do funcionário
era curto e a teoria que eu ainda não tinha defendido não
funcionaria ali. Separei as batatas machucadas e devolvi as ensacadas
no seu lugar, afinal pessoas queriam pegá-las.
Terceiro passo: Se o pedaço
estragado for cortado, poderei consumir o pedaço que ainda está
bom; mas para consumi-lo terei que comprar a batata pagando pelo valor
inteiro dela, boa ou não.
Quarto passo: Fui observar por
que a batata estava estragada naquela parte. Notei que dentro de todas
as partes estragadas havia um corte onde acumula o fungo que prolifera
e acaba por estragá-la por inteira, caso a sua outra metade boa
não seja aproveitada.
- A senhora não tem dinheiro,
quer que eu peça ao gerente dar essas batatas estragadas pra
senhora?
Fui tentada a aceitar, mas como
não sou perfeita...
- Não, moço, muito
obrigada! Passarei no caixa e pagarei pelo preço que estão
pedindo por elas. Ainda há muito nelas que eu posso aproveitar.
Naquele dia a minha geladeira
ficou cheia até o horário do jantar, quando eu fiz uma
fritada de batatas, todos da minha família comemos, saboreamos
e sobrevivemos até para contar a história.
Ah, só para encerrar,
quero dizer que pode haver alguns enganos sobre teorias de batatas podres
dentro de um saco. Será que os ferimentos que elas trazem no
interior de suas podridões foram feitos por elas mesmas no momento
em que foram colhidas?
Na dúvida, deixemos as bocas dos sacos abertas, nenhuma ferida
é curada no abafamento, todos precisamos respirar.
Rita Lavoyer é escritora e membro
do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.
* Rita
Lavoyer escreve neste espaço toda semana.
QUERO DANÇAR
UMA MÚSICA CONTIGO
A música
suavemente toca os meus sentidos e eu me sinto conduzida pelo teu ímã.
O polo de atração
das tuas notas me envolve e eu posso sentir os teus toques, as tuas
mãos, os teus afagos que me tocam e me imantam, para que eu gire
em rodopios ao compasso da tua batuta.
Quero dançar
uma musica contigo. Como quero!
Se me vieres,
como que cavalgando, e me tirares para a dança, nossos corpos
levemente bailarão num salão iluminado pelas cores da
aurora. Isto agrada-me muito.
Quero tocar-te
quando, com ritmos ardentes, cingires minha cintura.
Não te alcanço nos bailados. Cada passo teu, marcado no
meu piso, ecoa teu cheiro, teu gosto, teu gesto. Entre eles deliro,
pois.
Quero dançar
uma música contigo. Como quero!
Coloco-me sobre o espelho e bailo
até que se finde a leitura das nossas cordas. Terminado o teu
acorde, acordo e dou-me corda novamente, e fico a bailar, até
que se feche esta caixa de desejos que sinto de dançar uma música
contigo. Como quero!
Estarei na vitrine expondo a
minha dança, até que alguém me compre e te presenteie
comigo. Quando me abrires, penetres meus volteios. Bailemos sobre a
superfície do vidro, e se da tua valsa eu estiver embriagada,
como no relâmpago de um sequestro, esconda-me no compartimento
das minhas jóias. Refugia-te no lago da minha aliança,
para que o teu cisne regozije-se da umidade do meu palco.
Se a platéia, gritando
blasfêmias, separar-nos antes que se finde a melodia, fecha a
cortina do nosso espetáculo, volta aos braços dela, altera
os teus passos, tua cadência, teu som. Comemora com ela a tua
apoteose.
A cores se apagarão, o
compartimento se escurecerá e, no crepúsculo, os flashes
se acenderão sobre o desejo cicatrizado da bailarina que dançou
delírios e continua exposta na vitrine, esperando que outros
me comprem e te presenteie comigo, para eu dançar uma música
contigo. - por Rita Lavoyer
Rita Lavoyer é escritora e membro
do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.
* Rita
Lavoyer escreve neste espaço toda semana.
Coordenação: Prof. Pedro
César Alves, Araçatuba/SP.